O 1% mais rico da população mundial consumiu, em apenas dez dias de 2026, toda a sua cota anual “justa” de emissões de carbono, compatível com a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. A constatação é de uma nova análise da Oxfam Internacional, que chama o dia 10 de janeiro de “Dia dos Ricos Poluidores”. Entre o grupo ainda mais restrito do 0,1% mais rico, esse limite já havia sido ultrapassado no dia 3 de janeiro.
O conceito de “cota justa” considera o orçamento anual de carbono disponível globalmente dividido de forma igualitária pela população do planeta. De acordo com o Relatório da Lacuna de Emissões 2024, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o nível de emissões compatível com o limite de 1,5°C em 2030 é de cerca de 17,8 gigatoneladas de CO₂. Distribuído igualmente entre uma população estimada de 8,5 bilhões de pessoas, isso corresponde a aproximadamente 2,1 toneladas de CO₂ por pessoa ao ano.
Segundo a Oxfam, os 1% mais ricos emitem, em média, 75,1 toneladas de CO₂ por pessoa ao ano, cerca de 0,206 tonelada por dia. Nesse ritmo, bastam pouco mais de dez dias para esgotar a cota anual considerada compatível com a estabilidade climática. Já uma pessoa pertencente ao grupo dos 0,1% mais ricos emite, em um único dia, mais carbono do que metade da população mundial emite ao longo de um ano.
Além da desproporção nas emissões, o relatório destaca os efeitos concretos dessa desigualdade. A Oxfam estima que as emissões geradas pelo 1% mais rico em apenas um ano poderão causar cerca de 1,3 milhão de mortes relacionadas ao calor até o fim do século. O consumo excessivo de carbono por essa elite também impõe perdas econômicas significativas a países de baixa e média-baixa renda, com danos acumulados estimados em US$ 44 trilhões entre 1990 e 2050.
Para que o mundo permaneça dentro do limite de 1,5°C, a organização calcula que o 1% mais rico precisaria reduzir suas emissões em 97% até 2030. No entanto, os impactos mais severos da crise climática recaem justamente sobre quem menos contribuiu para causá-la, como populações de países pobres, povos indígenas, mulheres e meninas, frequentemente mais expostos a eventos extremos e com menor capacidade de adaptação.
“O caminho para reduzir drasticamente as emissões e combater a desigualdade é claro: focar nos poluidores mais ricos”, afirma Nafkote Dabi, líder de Política Climática da Oxfam. Segundo ela, conter a “imprudência extrema” dos super-ricos permitiria recolocar o mundo na trajetória das metas climáticas e gerar benefícios sociais e ambientais mais amplos.
O relatório também chama atenção para o papel dos investimentos financeiros dessa elite. Em média, cada bilionário mantém uma carteira de investimentos associada à produção de cerca de 1,9 milhão de toneladas de CO₂ por ano, principalmente em setores intensivos em combustíveis fósseis. Esse fluxo de capital, segundo a Oxfam, contribui para “aprisionar” a economia global em um modelo incompatível com a transição energética.
A influência política dos mais ricos aparece como outro fator central. Na mais recente conferência do clima da ONU, realizada no Brasil, o número de lobistas ligados à indústria de combustíveis fósseis superou o de qualquer delegação nacional, exceto a do país anfitrião, com cerca de 1.600 representantes. Para a Oxfam, esse poder de pressão tem sido usado para enfraquecer negociações climáticas e retardar medidas mais ambiciosas de redução de emissões.
Diante desse cenário, a organização defende um pacote de medidas para responsabilizar os maiores poluidores. Entre as propostas estão o aumento de impostos sobre renda e riqueza dos super-ricos, a criação de tributos sobre lucros excessivos de empresas de petróleo, gás e carvão – que poderiam arrecadar até US$ 400 bilhões em um único ano – e a proibição ou taxação punitiva de bens de luxo de alta intensidade de carbono, como superiates e jatos particulares.
A Oxfam também argumenta que enfrentar a crise climática exige uma transformação estrutural do sistema econômico, com a superação do modelo neoliberal dominante e a construção de uma economia orientada pela sustentabilidade e pela redução das desigualdades. Para a organização, decisões recentes da Corte Internacional de Justiça reforçam essa urgência ao reconhecer que os Estados têm obrigação legal de reduzir emissões para proteger direitos fundamentais, como vida, saúde, alimentação e um ambiente saudável.
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