Análises

Justiça climática sem combate às desigualdades raciais é colonialismo

Participação histórica da Coalizão Negra por Direitos na COP26 reforça a discussão sobre a importância do combate ao racismo ambiental e às desigualdades sociais

Douglas Belchior · Diosmar Filho · Luiz Soares ·
11 de novembro de 2021

Ao fazer uma rápida busca sobre matérias na imprensa que citaram o tema racismo ambiental nos últimos 10 dias – período em que ocorre a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 26) –, chegamos a um número de, aproximadamente, 200 notícias. De fato, o tema virou pauta dentro do debate climático. Mas, como fazer isso se perpetuar?

Antes da COP 26 havia uma expectativa global sobre a discussão do tema justiça climática durante o evento. Nós, do movimento negro, reivindicávamos o uso do termo racismo ambiental. Com ele, apresentamos uma denúncia objetiva e mostramos a cor das pessoas que sofrem com as questões climáticas no Brasil e no mundo. Na nossa visão, justiça climática ou justiça ambiental são termos eurocêntricos que não integram as pessoas vítimas no processo de discussão.

Vale reforçar que o conceito de racismo ambiental inclui não apenas as injustiças ambientais e a exposição desproporcional a riscos, vulnerabilizando algumas populações, mas também a exclusão dessas pessoas dos processos de tomada de decisão.

Passadas quase duas semanas de discussões sobre o clima, vemos como o racismo ambiental tem ganhado a atenção do mundo. Seja por conta da participação histórica do movimento negro e quilombola com a comitiva da Coalizão Negra por Direitos no evento. Mas também por jovens negros e periféricos, e pelos povos originários. Nos últimos dias, uma comitiva negra e quilombola que segue pela Europa, tem levado os temas do genocídio da população negra a países, como Alemanha, Espanha e França. 

O interessante deste cenário é ver essa visibilidade alcançada até aqui, fruto é claro do esforço de muita gente, que antes da COP 26 também estava preocupada com a falta de representatividade das vozes destes povos, mas também dos nossos irmãos de África e de todos os países do Sul Global.

Segundo a Coalizão COP 26 – grupo da sociedade civil do Reino Unido -, essa é a Conferência do Clima mais branca e privilegiada de todos os tempos. Isso porque, até dois terços das pessoas que a Coalizão ajudava a irem para Glasgow desistiram, por uma combinação de problemas com visto e credenciamento, falta de acesso às vacinas da Covid-19 ou devido às mudanças nas regras de viagem.

O que acontece nesta COP é apenas um tempero, um primeiro passo, pois é fato que ainda somos minoria dentro deste evento. Mas precisamos relembrar que somos 56% da população brasileira. Nós falamos pela maioria. Então, demos um importante passo sobre nossa participação neste debate para nas próximas vezes, participarmos ainda mais.

Engana-se quem acha que estamos falando de clima pela primeira vez. Essa foi sim uma experiência inédita nessas proporções – apesar de estarmos com uma comitiva de certa forma pequena, com 20 pessoas. 

Temos importantes militantes do movimento negro que acumularam e deram contribuições fundamentais nos últimos anos. O que estamos fazendo agora é continuar uma trajetória. E também contar essa história de um jeito diferente, usando as nossas próprias vozes, imagens e ferramentas de comunicação, para alcançarmos o maior número possível de pessoas. Temos o que apresentar, temos uma proposta de país e queremos que as políticas ambientais conversem com a realidade brasileira. O Brasil é um país negro, e isso deve ser respeitado.

Encontro da Coalizão Negra por Direitos no Congresso Espanhol nesta quarta-feira (10). Foto: Verónica Povedano/Congresso Espanhol

Já precisamos pensar no que virá depois deste encontro global. Estamos formulando uma série de ações a partir de agora. O próximo ano é muito importante para nós no Brasil. O tema climático tem que ser assunto eleitoral e faremos um trabalho permanente para isso. 

Quando participamos de uma eleição, não disputamos apenas o voto, disputamos a história. Fazer disputa política a partir do movimento negro, sendo quem somos e com a trajetória que temos, significa disputar a direção da história. Ou seja, para onde vamos enquanto povo e país?

Queremos discutir a nova economia, do século XXI. Como as pessoas vão viver? Qual vai ser a prioridade de vida? Nós temos que colocar a vida acima do lucro, dos interesses econômicos e do interesse das corporações. Quem vai questionar tudo isso senão aqueles que mais sofrem com a crise climática?

É urgente considerar outros modelos de desenvolvimento, outras formas de bem viver em sociedade (lema político da Marcha das Mulheres Negras) que reconectem as relações humanas e sua constituição como parte da natureza. É necessário considerar os conhecimentos dos povos em sua natureza no Sul Global, em especial as diferentes vozes das mulheres, vozes da juventude, dos quilombolas, das indígenas e das populações negras diaspóricas e periféricas.

Não podemos conviver e naturalizar mortes, pandemia e fome, como o Brasil sempre fez. Não podemos deixar as coisas passarem. Não podemos naturalizar Mariana, naturalizar Brumadinho. Vivemos diversas tempestades neste momento no país, seja no clima, seja na política. 

Nosso exercício é não deixar naturalizar, não deixar de se revoltar com cada absurdo e injustiça. É difícil, pois é desgraça e gente que morre todo dia, todo dia uma notícia ruim. Mas o papel do movimento negro e nossa organização política é justamente esse: respirar e seguir.

Precisamos então dar um outro caminho para os poderes no Brasil. De maneira que a gente possa ter políticas responsáveis e comprometidas com o povo mais pobre do Brasil. Seja no debate climático, seja no social. 

Precisamos inverter o cenário de notícias contraditórias para o nosso potencial, com a riqueza que o nosso País tem. Precisamos reverter isso e nossa comitiva em Glasgow levou esse recado para a COP. 

Não podemos, por exemplo, permitir o surgimento de um novo colonialismo, porém com novas cores, neste caso verde. A energia eólica não pode repetir erros, por exemplo, de outras tecnologias já consideradas limpas, como as barragens que mataram pessoas.

Estamos aqui para trabalhar juntos. E esperamos que a energia do futuro, a mobilidade e o uso da terra alcancem a maioria da população brasileira. 

Parte da comitiva do movimento negro na COP-26, em Glasgow. Foto: Coalizão Negra por Direitos

Não vamos mais fazer ricos no Brasil. A luta contra a crise climática não pode ser para enriquecer e manter ricos quem carbonizou a terra. O investimento de U$ 100 bilhões anuais nos países em desenvolvimento que tem sido discutido na COP, por exemplo, tem o dever ético e humanitário de combater as desigualdades sociais. Justiça climática sem esse olhar é o novo colonialismo.

Os países em desenvolvimento e pobres não podem voltar a ser colônias e novamente serem impactados pela nova industrialização “carbono zero”. As vidas não poderão ser medidas pelo crescimento econômico das mesmas economias que não agiram de forma humanitária para salvar as mais de 4 milhões de vidas com a pandemia de Covid-19. A maioria das mortes seriam evitáveis no Norte e no Sul Global, se não estivessem em extrema vulnerabilidade social e ambiental.

Nós vamos construir com ou sem bilhões, pois estaremos na terra, no campo e na cidade construindo o Brasil. Nossa meta sempre foi cuidar da terra. O planeta vai viver, se os corpos negros e indígenas viverem. Nós somos a solução. É preciso ouvir a nossa elaboração política.

O movimento negro está se organizando enquanto força política e isso deve ser respeitado! O movimento brasileiro tem tradição, tem história, tem lastro, tem projeto de país e um projeto de país formulado pelos ‘de baixo’ que atende toda a sociedade. 

Cada minuto de resistência dos povos originários desde a invasão em nossas terras, cada gota de sangue derramada pelo povo africano e seus descendentes em todo o período colonial e em uma democracia de mentira em que nosso povo continua sendo violentado. Nós estamos em luta e hoje a Coalizão Negra Por Direitos simboliza a grande unidade nacional contra o racismo e por justiça climática. 

Não podemos mais fazer COP sem a representação negra e quilombola do Brasil. Não haverá a 27ª COP se não houver o corpo negro que está em Glasgow. O desafio que nós temos enquanto sociedade brasileira é responder à crise climática de de humanitária. O que vai ser a vida de 63% da população brasileira, formada por negros e indígenas? Nós temos um desafio de fazer um debate a partir dessa COP. O que serão os fundos de financiamento de combate à mudança climática? Nós não queremos só a mitigação da economia verde. Nós queremos titulação das comunidades quilombolas, queremos investimentos na titulação deles, queremos participar do fundo da Amazônia. 

As cidades brasileiras foram construídas sob o genocídio. Desde o tráfico e a escravidão de pessoas africanas, criando uma sociedade em diáspora, descendente de pessoas do continente africano. As cidades brasileiras são cidades negras, e nós estamos aqui para expor que a carbonização foi criada por uma sociedade escravista e racista. Os países do norte europeu têm responsabilidade pelo genocídio do povo negro no Brasil. Lançamos a carta “Para controle do aquecimento do planeta desmatamento zero – titular as terras quilombolas é desmatamento zero”, para dizer que sem nós não vai haver combate à crise climática. Com ‘nós’, iremos combater a crise humanitária. O estado está matando a população negra e isso faz parte da agenda do clima. A população negra morre porque não tem terra para viver no Brasil. O ordenamento das cidades brasileiras é desigual. Nós precisamos que a Amazônia seja negra, 87% da população da Amazônia vive nas cidades, e elas vivem na parte urbana, nas periferias, e precisamos trazer esse debate. O século XXI chegou e não vamos repetir o século XX. E vocês?

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Douglas Belchior

    Historiador, cofundador da Uneafro Brasil e integrante da Coalizão Negra por Direitos

  • Diosmar Filho

    geógrafo, doutorando em Geografia na Universidade Federal Fluminense. Pesquisador do IYALETA - Pesquisa, Ciência e Humanidades

  • Luiz Soares

    Jornalista, ambientalista, militante da Uneafro Brasil e coordenador de Comunicação do Instituto de Referência Negra Peregum

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