Gerações passadas de brasileiros conviviam com o medo de topar com um “cachorro louco”, um animal infectado pelo vírus da raiva. A transmissão ocorria sobretudo durante ataques, quando a saliva do animal atingia ferimentos ou mucosas – tecidos que revestem áreas como da boca e nariz.
A doença é causada por vírus do gênero Lyssavirus, que afetam mamíferos no mundo todo, incluindo as pessoas. Uma vez no organismo, levam quase sempre à morte do hospedeiro. “É absolutamente fatal, não tem tratamento até hoje”, afirma o médico-veterinário e virologista Paulo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária da USP.
No mundo, quase 60 mil pessoas – um estádio grande lotado – ainda morrem todos os anos pela doença, sobretudo na África e na Ásia, onde a transmissão por cães segue alta. A causa seria negligência histórica. “Ela mata muita gente de forma dispersa, sem grandes picos, não recebendo a atenção que deve”, diz.
Enquanto esse quadro persiste em grande parte do mundo, o Brasil seguiu outro caminho. Ao longo de décadas, campanhas públicas de vacinação de cães e gatos, vigilância sistemática de casos suspeitos e respostas rápidas dos órgãos de saúde praticamente eliminaram a raiva transmitida por cães no país.
O Ministério da Saúde aponta que os últimos casos de raiva humana urbana provocada por cães foram registrados em 2013 e 2015. “O que ocorreu aqui foi um investimento público continuado. Isso não aconteceu em muitos países onde a raiva ainda domina”, compara Brandão.
Segundo o governo federal, a Organização Mundial da Saúde (OMS) – uma agência das Nações Unidas – estabeleceu a meta de eliminar, até o fim da década, a raiva humana transmitida por cães nas Américas. O Brasil estaria à frente do cronograma.

Silvestres na liderança
O recuo desses casos de raiva mudou o perfil da doença. Hoje, os brasileiros são muito mais infectados por animais silvestres. Por sua maior variedade e dispersão no território nacional, crescem os desafios para órgãos públicos de saúde e de conservação.
Entre 2010 e o ano passado, 50 casos foram confirmados no país, a maioria associada a morcegos e primatas não humanos, como saguis. “O vírus continua circulando na natureza e a questão agora é saber conviver com esse risco de forma inteligente”, avalia Brandão.
Os morcegos são centrais nesse cenário. Com cerca de 1.400 espécies no mundo – número inferior apenas ao dos roedores, que somam cerca de 2.600 –, eles são um dos grupos mais diversos de mamíferos e exercem funções essenciais, como polinizar plantas nativas e comerciais, dispersar sementes e controlar insetos.
Do ponto de vista ecológico, o vírus da raiva entre os morcegos não é considerado anormal. Ou seja, a raiva circula entre eles de forma contínua e não existe como evitar isso sem eliminar os próprios morcegos, prejudicando sua conservação e os serviços que prestam.
Entender esse novo perfil da doença exige olhar além da saúde humana e considerar as transformações ambientais em curso.
Diante disso, o pós-doutor em Ecologia, biólogo e professor na UNESP, Wilson Uieda, chama atenção para a expansão no Brasil do morcego Desmodus rotundus, uma das três espécies hematófagas no mundo e a única que se alimenta eventualmente de sangue humano.
Conforme o cientista, sua disseminação é ligada diretamente às profundas mudanças ambientais impostas pela mão humana. Segundo ele, o desmate e a substituição da fauna nativa por animais domésticos criaram condições ideais para a espécie.
“Antes da chegada dos europeus, o Desmodus era uma espécie rara. Hoje, é um dos mamíferos mais comuns do país”, diz. “Nós retiramos os animais silvestres, colocamos bois e cavalos, que não sabem se defender e ficam presos à noite. Isso facilita muito a alimentação e a vida do morcego”.
Essa adaptação levou o morcego a ocupar inclusive muitas áreas urbanas. “Hoje você o encontra em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Belém e Manaus”, afirma Uieda. “São animais que aprenderam a conviver com luz artificial, barulho e movimento”.
Diante disso, ele destaca ser preciso também enfrentar um medo generalizado alimentado por ignorância e desinformação. “No imaginário popular, tudo vira ‘morcego-vampiro’”, constata. Mas morcegos voando dentro ou ao redor das casas não são um risco direto. “O morcego hematófago age na surdina. Aquele que está voando, aparecendo, não suga sangue”.
Na prática, a maioria das infecções humanas ocorre de forma indireta, por exemplo quando morcegos doentes caem no chão e são manipulados por pessoas ou atacados por cães e gatos. “O vírus pode sair do morcego, passar para um animal doméstico e desse chegar no ser humano”, detalha Uieda.

Fatal, mas não invencível
Olhando para a história recente, um dos episódios mais graves da raiva no país ocorreu em 2004, em Portel, no Pará, quando ribeirinhos e outras pessoas morreram após ataques de morcegos hematófagos. Moradias abertas e sem eletricidade facilitaram a exposição durante o sono.
“Quando a pessoa começa a apresentar os sintomas da doença – de início febre, dor de cabeça, náuseas e vômitos, chegando a paralisia e coma antes do óbito –, o animal que transmitiu a raiva já morreu há semanas”, explica Brandão. “Por isso, agir apenas quando há mortes costuma ser tarde demais”.
Nesse cenário, Uieda afirma que outro erro no combate à raiva é o extermínio indiscriminado de animais silvestres. “Matar morcego e outras espécies não resolve. Além de causar um problema ambiental, isso impede o entendimento de onde eles estão vindo”, afirma.
Por isso ele reforça que são necessárias ações focadas em identificar as áreas de maior risco, monitorar os ataques e agir mais fortemente antes que ocorram casos humanos. “O controle precisa acontecer quando há sinais de risco, não quando as pessoas já estão morrendo”.
Brandão reforça que a estratégia mais eficaz continua sendo informação clara e atendimento rápido. “As pessoas precisam saber que qualquer mordida de mamífero é potencialmente grave e os profissionais de saúde precisam reconhecer esse risco”, diz. Segundo ele, ainda ocorrem mortes evitáveis por falhas no atendimento inicial, quando vacina e soro poderiam interromper a infecção.
Apesar do óbito ser quase sempre o destino dos infectados, a raiva não é invencível. No mundo, pouquíssimas pessoas sobreviveram após o início dos sintomas.
O Brasil está entre essas raras exceções, com um adolescente pernambucano que sobreviveu após ser mordido por um morcego, em 2008, e submetido a um tratamento experimental. “É um caso extraordinário, que não muda a regra”, afirma Brandão. “A prevenção ainda é a única estratégia segura”.
Para ambos os pesquisadores, conter a raiva sem comprometer a conservação da fauna passa por reconhecer a origem do problema. “A raiva mostra como a saúde humana, animal e ambiental estão conectadas. Não existe solução fora dessa visão integrada”, afirma Brandão.
O Ministério da Saúde não atendeu aos nossos pedidos de entrevista até o fechamento da reportagem.
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