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Serra dos Órgãos se torna área protegida com maior riqueza conhecida de plantas

Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso) engloba quase 1200 espécies raras e 103 em alguma categoria de risco de extinção

Ramana Rech ·
2 de fevereiro de 2026

Com um novo inventário de espécies de plantas, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (Parnaso) se tornou a área protegida brasileira com a mais rica flora já registrada. São 3.026 espécies, sendo 28 endêmicas do parque, ou seja, habitam apenas o Parnaso, e 103 estão em alguma categoria de risco da IUCN.

O parque abrange 38% das espécies conhecidas do Rio de Janeiro em apenas 0,5% do território do estado. Quase 1.200 espécies têm apenas um registro no Parnaso, o que as torna bastante raras localmente. Os resultados foram publicados na revista Springer Nature em novembro de 2025.

De acordo com o primeiro autor do estudo, Marcus Nadruz, coordenador de Coleções Vivas do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a variedade de espécies e endemismo foi favorecida pela grande variação da altitude, que varia de 80 até 2.275 metros.

Além disso, o Parnaso tem uma face voltada para o mar e outra para o continente. Essas características propiciam o surgimento de microclimas e microhabitats. “Você tem uma variação de espécies muito grande, e algumas dependentes de climas muito específicos, por isso os endemismos”, explica Nadruz.  

O Parnaso protege 19.855 hectares de Mata Atlântica, nos municípios de Petrópolis, Teresópolis, Magé e Guapimirim. Hoje restaram apenas 24% da área original da Mata Atlântica. 

Criado em 1939, o Parnaso é o terceiro parque nacional mais antigo do Brasil. O terreno acidentado da Serra dos Órgãos dificultou atividades antrópicas, o que propiciou a preservação de sua vegetação.

Ainda assim, 21 espécies de planta estão criticamente ameaçadas de extinção, 40 ameaçadas e 41 vulneráveis e uma foi extinta, conforme lista da IUCN. “Essas espécies se encontram dentro de uma unidade de conservação. Elas, teoricamente, não sofreriam qualquer ameaça, qualquer pressão antrópica ou coisa parecida para chegar ao nível de extinção”, ressalta o autor.

Nadruz comenta que o inventário é o primeiro passo para outros estudos de contribuição mais prática para a população, como em relação às propriedades medicinais de plantas. 

A catalogação precisou ser minuciosa. A coleta das plantas para o artigo começou em 2007 e terminou em 2011. Depois disso, foi necessário visitar herbários, que são museus de plantas secas, no Brasil e ao redor do mundo. Nadruz conta que o trabalho também contou com a colaboração de taxonomistas que ajudaram na identificação das espécies. 

Trilha suspensa no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Foto: Prefeitura de Teresópolis.

A nova lista representa um crescimento de 26,7% no número de espécies em relação à última, feita em 1954, que identificou 2.029 espécies. Segundo Nadruz, os acréscimos vieram, principalmente, de espécies já conhecidas que não haviam sido identificadas no primeiro inventário.

A segunda área protegida com maior riqueza botânica pertence ao Parque Nacional de Itatiaia – localizado entre Rio de Janeiro e Minas Gerais –, com 2.642 espécies. Em terceiro, vem o Parque Nacional do Caparaó, que fica na divisa entre Minas Gerais e Espírito Santo e abrange 1.310 espécies. 

Para a coordenadora-geral de Pesquisa e Monitoramento da Biodiversidade do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Cecília Cronemberger, também autora da pesquisa, a catalogação mostra a complexidade de conhecer a totalidade da biodiversidade brasileira. 

“A gente conhecer o que está nas áreas protegidas é muito importante, porque as áreas protegidas são a principal estratégia de conservação das espécies”, diz. 

Ela ressalta, porém, que existe um viés na classificação do Parnaso enquanto hospedeiro da maior diversidade botânica. Quanto mais investigação há sobre alguma área, mais espécies se tornarão conhecidas. O Parnaso recebeu mais atenção, por exemplo, do que parques em áreas remotas da Amazônia.

A flora do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Foto: Gisele Bragança

A proximidade do Parnaso com a cidade do Rio de Janeiro, que já foi capital brasileira, favoreceu o conhecimento a respeito das espécies habitantes da área, destaca Cronemberger. A área do parque já recebia expedições científicas desde início do século 19. 

Porém, o mesmo viés também atrapalha o conhecimento das espécies dentro do próprio parque, já que terrenos mais altos e acidentados contam com amostra menor nos registros botânicos.

A condutora de visitantes do Parnaso e membro do conselho do parque, Monique Zajdenwerg, se diz uma entusiasta da biodiversidade e da flora. Ela considera o resultado da pesquisa “fantástico” e pretende contar os resultados dela aos visitantes que atender.

Ela avalia que o estudo reforça a necessidade de políticas públicas contra o turismo predatório e favoráveis à manutenção e ao cuidado com unidades de conservação. “A gente veio de um turismo muito predatório nesses anos de pandemia e pós pandemia. Então a gente está até mudando o olhar do turismo. Acho que um estudo como esse impacta positivamente as mudanças que a gente quer ver acontecer, na sociedade, no turismo”, diz.

  • Ramana Rech

    Formada em jornalismo pela ECA-USP e passou pelo Curso Estadão de Jornalismo Econômico do Estadão. Escreve sobre ciência, meio ambiente, economia e política.

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