Nas últimas semanas, cidades como Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata mineira, enfrentaram um dos episódios de chuva mais intensos já registrados: em fevereiro de 2026, Juiz de Fora acumulou mais do que o dobro da chuva esperada para o mês, com volumes extraordinários que provocaram enchentes, deslizamentos, dezenas de mortes, centenas de desaparecidos e milhares de pessoas deslocadas de suas casas.
O que aconteceu ali não é uma tragédia isolada, nem fruto apenas de um fenômeno meteorológico pontual. É a expressão de um padrão que cientistas já identificaram como extremamente preocupante: a intensificação de eventos climáticos extremos no Brasil. Eventos que estão se tornando mais frequentes e severos.
A ciência do clima sabe há décadas que, com o aquecimento global, a atmosfera retém mais vapor d’água, aproximadamente 7% a mais por cada grau Celsius de aquecimento, e que isso intensifica a probabilidade de chuvas torrenciais. No Brasil, isso se traduz em uma realidade cada vez mais evidente: enchentes e enxurradas registradas em grande parte do território, com consequências devastadoras para populações e economias locais.
Um caso marcante que não pode ser esquecido ocorreu no Rio Grande do Sul em 2024, quando chuvas fora de série desencadearam enchentes sem precedentes no estado. Estudos mostram que o evento foi um dos mais severos dos últimos anos, com rios ultrapassando seus níveis históricos, centenas de mortos e bilhões em prejuízos materiais.
O que une esses acontecimentos, de norte a sul do país, não é apenas a chuva forte, mas o modo como nossas cidades e regiões periurbanas estão (ou deveriam estar) preparadas para lidar com ela. Em Juiz de Fora e Ubá, muitos dos impactos ocorreram em áreas já mapeadas para estes riscos, como encostas desprotegidas ou bairros com infraestrutura insuficiente para drenar volumes de água atípicos.
Nessas áreas, além do risco de mortes e perdas materiais, a falta de sistemas de retenção, espaços verdes e estruturas naturais, como florestas, capazes de absorver o excesso de água agrava cada evento. A ocupação desordenada, a impermeabilização do solo e a ausência de planejamento urbano integrado amplificam o impacto de qualquer chuva mais intensa, o que a ciência já espera se repetir com maior frequência num futuro próximo.
A questão essencial é simples: estamos pagando um preço alto, estimado em milhões de reais e inestimável com vidas perdidas pela forma como lidamos com a natureza e pela subestimação dos riscos climáticos. Não se trata de alarmismo, mas de reconhecer padrões reais e comprovados por observação e modelagens climáticas.
A sociedade civil, gestores públicos e setor privado precisam entender que a resposta não pode ser reativa, esperando que a próxima chuva cause mais destruição. É urgente investir na conservação de áreas naturais e matas ciliares, na infraestrutura verde urbana, no planejamento urbano que respeite zonas de risco e em programas de educação e comunicação voltados à conservação da natureza e alfabetização climática da sociedade. Ou seja, internalizar a natureza como uma tecnologia e ferramenta, das mais baratas, para ser utilizada no planejamento e visão de desenvolvimento urbano, econômico e social.
Enquanto isso ainda está distante da realidade de muitas cidades brasileiras, que ainda lutam para colocar em prática ações integradas de conservação e adaptação, no município de Curitiba algumas iniciativas vêm se destacando por esforços que combinam infraestrutura tradicional com soluções baseadas na natureza e planejamento climático de longo prazo. Dentro desse contexto, o Projeto Observatório Climático do Alto Iguaçu, desenvolvido pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) em parceria com a Petrobras, busca reunir dados científicos, monitoramento e participação comunitária para compreender como as mudanças do clima impactam a bacia do Alto Iguaçu, que abrange a Região Metropolitana de Curitiba. Isso inclui aspectos ligados ao regime de chuvas, eventos extremos e vulnerabilidades locais, criando bases sólidas para decisões de gestão de risco e conservação.
Esse tipo de iniciativa – que combina ciência local, monitoramento contínuo e políticas públicas integradas – é fundamental não apenas para Curitiba, mas também como referência replicável em outras cidades e estados brasileiros, especialmente em áreas que enfrentam pressões semelhantes.
Há um argumento econômico robusto a favor da conservação e da prevenção: investimentos em medidas de prevenção de desastres podem gerar economias de até 15 vezes superiores aos gastos destinados à recuperação após eventos climáticos extremos. Isso é apontado em estudos e diretrizes nacionais de redução de riscos, enfatizando que cada real aplicado antes do desastre pode evitar custos muito maiores depois.
No Brasil, porém, ainda existe um descompasso entre prevenção e recuperação: análises do Tribunal de Contas da União (TCU) indicam que, nos últimos 12 anos, para cada R$ 1 gasto em resposta e recuperação de desastres, apenas cerca de R$ 0,39 foi aplicado em prevenção: um desequilíbrio que evidencia a subavaliação das medidas de mitigação.
Esse dado é ainda mais contundente quando consideramos que a perda de vidas humanas em eventos extremos não tem preço, e muitas dessas vidas poderiam ser preservadas com políticas públicas adequadas de conservação, ordenamento territorial, infraestrutura verde e alertas antecipados.
O impacto das chuvas em Juiz de Fora e Ubá, somado ao histórico de enchentes no Rio Grande do Sul e em outras partes do Brasil, é um chamado de alerta para toda a sociedade: não podemos mais tratar eventos extremos como “acidentes naturais” inevitáveis. Eles são, em grande medida, resultado de uma combinação de mudanças climáticas e administração inadequada dos nossos espaços urbanos e periurbanos.
A hora de agir é agora! Com planejamento, conservação de áreas naturais e investimento em soluções que protejam vidas e garantam cidades mais resilientes para o futuro.
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