Caatinga, em tupi, significa mata branca. Mas para entender o porquê deste nome é preciso penetrar no amago do sertão. É preciso caminhar no auge do calor, olhar fundo cada canto, cada espinho e perceber sua beleza tímida e sutil. Sou fascinado por este bioma, que infelizmente é um dos mais ignorados. Se o Brasil despreza e faz atrocidades com a Amazônia, a menina dos olhos internacionais, imagine com a Caatinga, um “punhado de árvores secas numa terra que Deus esqueceu”.
Mas pegando carona na matéria sobre a nova espécie de planta encontrada na Caatinga e que leva o nome de uma das mais importantes pesquisadoras que andou por lá – Niède Guidon –, quero contar sobre minhas andanças na Serra da Capivara, acompanhando seu trabalho na conservação das pinturas rupestres, que tornaram a região um Parque Nacional e colocaram a Serra como um dos maiores sítios arqueológicos já encontrados no mundo.

Em 2002, fui contratado com a incumbência de produzir um livro sobre a Serra da Capivara. Na época, Niède estava em atividade absoluta – marco de sua personalidade, se embrenhando naquele ambiente difícil, procurando nos lajedos as tão estimadas pinturas que contavam a pré-história. Uma ciência tão importante, mas tão desvalorizada neste país de notícias superficiais. Ao longo desse mesmo ano fiz várias viagens, buscando também as paisagens da Serra das Confusões, área igualmente importante para o equilíbrio ecológico do bioma. Niède tinha uma postura marcante em campo, e sua chegada em qualquer sítio arqueológico era um evento! O tempo e os pesquisadores paravam para ver seus passos, seu olhar atento a qualquer traço que surgisse discreto nas pedras, por menor que pudesse ser. A ela não importava se era um painel enorme de pinturas multicoloridas ou apenas algo isolado, escondido na rocha. Muitas vezes a vi pegar uma pequena agulha e com delicadeza limpava as ranhuras do arenito para expor algum detalhe, alguma menção daquela vida regressa. Niède apresentou uma nova história para o povoamento das Américas. Trouxe luz a um contexto histórico marcado pelo eurocentrismo. Foi uma mulher além do tempo.


Certo dia, quando Niède já sabia do meu envolvimento na documentação sistemática de projetos de pesquisa com onças-pintadas, levou-me a um sítio arqueológico não aberto a visitação. Minha empolgação em cruzar a Caatinga seca para alcançar um lugar onde só arqueólogos tinham acesso, era enorme. Horas de carro e mais um tanto de caminhada e lá chegamos num pequeno abrigo de pedra. Discreta na penumbra, encontramos uma pintura rupestre representando uma verdadeira caçada: uma pequena onça expondo as unhas, com as orelhas arredondadas, cercada por dezenas de pequenas figuras humanas carregando lanças. Me transportei no tempo e imaginei aquele momento. Percebi a exata percepção das dimensões da cena que o ‘artista’ quis representar: o tamanho do animal perto da figura diminuta dos caçadores. E porque não dizer o respeito ao grande predador que aqueles homens já tinham.

Lembro, como se fosse hoje, das noites de conversa em que, regado a vinho e queijo franceses – cena surreal para um sertão de duas décadas atrás –, discerníamos sobre o passado e o presente. E o que o futuro reservava para aquela região tão fascinante, tão ignorada por um Brasil que dá mais valor ao dito progresso avassalador, ao invés de aprender com a história que está esquecida nos rincões, contada entre cores e traços de um povo que marcou sua vida nos paredões de rocha e na sabedoria dos ‘causos’ adormecidos na memória dos povos tradicionais.
Nota: A Serra da Capivara foi particularmente marcante para mim. Um cenário que é o paraíso para um geólogo, onde pude apreciar todos os tipos de sedimentos; os conglomerados, com milhares de seixos encravados nos paredões, a estratificação fascinante do arenito; as pequenas cavernas em calcário; o quartzito que brilha ao sol, a geomorfologia das duas Serras irmãs – Capivara e Confusões. E a fascinante viagem no tempo ao rever todas estas fotografias analógicas, com sua peculiar e natural saturação de cores e grãos. Sombra sendo sombra, e a luz expondo as texturas. Sem manipulação, sem IA. Sem drone. Fotos aéreas resultantes de uma complexa programação em conseguir um monomotor, torcer pelo tempo bom no dia do sobrevoo, abrir a porta ou a janela durante o voo para conseguir o melhor ângulo. Poucos filmes disponíveis, mas muitas histórias para contar.




















As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Cientistas descobrem planta na Caatinga e homenageiam Niède Guidon
Nova espécie foi registrada pela primeira vez na Serra da Capivara, no Piauí, local ao qual a arqueóloga dedicou sua vida →
O adeus de Niède Guidon, a matriarca da Serra da Capivara
Arqueóloga foi uma das principais forças para criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, e mudou a compreensão sobre a ocupação humana das Américas →
Niède Guidon, a gigante da conservação e da pesquisa
Em uma de suas últimas entrevistas, realizada em 2022, a arqueóloga franco-brasileira relembra sua trajetória para o Mulheres da Conservação →
