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Amostras de bonito-pintado no Rio registram até o dobro do limite seguro de mercúrio

Pesquisa identificou níveis de mercúrio acima do permitido em 50% das amostras do peixe comercializados em Cabo Frio, no litoral fluminense

Karina Pinheiro ·
15 de maio de 2026

Metade das amostras de bonito-pintado (Euthynnus alletteratus) comercializadas em Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro, apresentou concentrações de mercúrio acima do limite considerado seguro para consumo humano, segundo estudo publicado na sexta-feira (15) na revista científica Neotropical Ichthyology. Em um dos exemplares analisados, a concentração chegou a 1,980 miligramas por quilo – quase o dobro do limite máximo de 1 mg/kg estabelecido pela legislação brasileira e por parâmetros internacionais para peixes carnívoros.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto Federal Fluminense (IFF), campus Cabo Frio, em parceria com pesquisadores da UERJ, UFF e do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM). Ao todo, foram analisados 30 exemplares adquiridos no Mercado Municipal de Peixe de Cabo Frio, capturados em diferentes períodos do ano. O foco da investigação era medir a concentração total de mercúrio no tecido muscular dos peixes, comparar os níveis entre machos e fêmeas e verificar se os resultados se mantinham dentro dos padrões de segurança alimentar.

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Os resultados chamam atenção porque o bonito-pintado, um atum de médio porte amplamente consumido, apresentou níveis de contaminação superiores aos já registrados em estudos com espécies maiores do mesmo grupo. Segundo os pesquisadores, isso reforça preocupações sobre a presença disseminada de mercúrio nos oceanos e seus impactos sobre espécies predadoras. Organismos que ocupam o topo da cadeia alimentar tendem a acumular concentrações mais elevadas do metal devido ao processo de biomagnificação, no qual contaminantes se concentram progressivamente à medida que organismos maiores consomem organismos menores contaminados.

Bonito-pintado (Euthynnus alletteratus). Foto: Marcelo Tardelli Rodrigues

Embora não tenham sido identificadas fontes industriais diretas ou registros históricos de contaminação ambiental em Cabo Frio e Arraial do Cabo que explicam isoladamente os níveis encontrados, os autores associam o fenômeno à poluição global por mercúrio nos oceanos. O estudo cita avaliações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da agência reguladora de alimentos dos Estados Unidos (FDA), que reconhecem a contaminação de espécies de atuns como um indicativo desse problema em escala planetária.

Os pesquisadores também apontam que a dinâmica oceanográfica da região pode influenciar a circulação do contaminante. Um estudo anterior em Arraial do Cabo já havia detectado mercúrio em diferentes organismos marinhos, o que sugere a necessidade de monitoramento contínuo em áreas de ressurgência – fenômeno em que águas profundas, frias e ricas em nutrientes sobem à superfície, favorecendo a produtividade pesqueira, mas também potencialmente redistribuindo contaminantes.

Com base nos resultados, os autores defendem a revisão de parâmetros regulatórios e a adoção de orientações de consumo mais específicas, especialmente para grupos mais vulneráveis, como gestantes e crianças. Também recomendam programas permanentes de monitoramento para reduzir riscos à saúde pública e ampliar a segurança alimentar em regiões dependentes da pesca.

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

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