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Mudanças climáticas encurralam aves nas montanhas da Chapada Diamantina

Aumento da temperatura global pode comprometer a sobrevivência de espécies de distribuição mais restrita ao topo das montanhas, como o beija-flor-de-gravata-vermelha

Duda Menegassi ·
22 de maio de 2026

As consequências de um planeta cada vez mais quente podem deixar aves sem ter para onde ir nas regiões montanhosas do Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia. Isso é o que indica um estudo que analisou 171 espécies de aves que ocorrem em diferentes altitudes, entre 400 e 1.300 metros. A pesquisa revela que a temperatura tem um papel central na organização das comunidades de aves “morro acima”. Quanto mais alto e mais frio, menor a diversidade de espécies, porém mais especialistas elas são. Ou seja, essas aves desempenham funções únicas e extremamente adaptadas ao ambiente montanhoso. E são justamente essas espécies que, com o aumento da temperatura global, podem ser encurraladas pelas mudanças climáticas no topo da montanha.

“Em algum momento, as espécies atingem o topo e, se as temperaturas continuarem a subir, passam a não ter mais para onde ir – o que pode levar ao seu desaparecimento local”, alerta Mirco Solé, professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e coordenador do projeto “Biodiversidade nas montanhas: desvendando padrões e processos ecológicos e evolutivos da biota da Chapada Diamantina – fase dois”, responsável pelo estudo e por monitorar as respostas das espécies às mudanças ambientais ao longo do tempo.

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Esse impacto pode ser sentido diretamente por animais emblemáticos e endêmicos da Chapada Diamantina, como o beija-flor-de-gravata-vermelha (Augastes lumachella), o papa-formiga-do-sincorá (Formicivora grantsaui) e o tapaculo-da-chapada-diamantina (Scytalopus diamantinensis). As três espécies já são classificadas como Vulneráveis ao risco de extinção, de acordo com a avaliação do ICMBio, e podem entrar num beco sem saída – literalmente – diante do avanço das mudanças climáticas.

O estudo, publicado com acesso aberto na revista científica Biodiversity and Conservation, destaca ainda a diversidade funcional das aves ao longo do gradiente montanhoso. Ou seja, de acordo com suas características ecológicas – como dieta, tamanho corporal, comportamento e uso de habitat – cada espécie desempenha um papel no ambiente. No caso das aves que vivem nas regiões mais altas, pode haver menos diversidade de espécies, mas as funções que elas executam são, muitas vezes, extremamente especializadas e adaptadas às condições ambientais mais restritas da altitude.

A perda dessas espécies de aves pode comprometer processos ecológicos essenciais como a dispersão de sementes, polinização e controle de insetos.

Papa-formiga-do-sincorá macho (Formicivora grantsaui). Foto: Marcel Lemos

E as aves não são as únicas prováveis vítimas das mudanças climáticas, adianta o coordenador do projeto. “Este estudo foi realizado com aves, mas é muito provável que padrões semelhantes ocorram em diversos outros grupos de vertebrados”, acrescenta Solé. 

“As mudanças climáticas globais representam uma grande ameaça aos ecossistemas de montanha em todo o mundo, com consequências particularmente graves para áreas de alta importância ecológica, como o Parque Nacional da Chapada Diamantina”, destacam os pesquisadores em trecho do artigo. “O aumento das temperaturas associado ao Antropoceno pode elevar o risco de extinção de espécies endêmicas e com habitats restritos, uma vez que estas podem não conseguir encontrar áreas com condições térmicas adequadas à sua sobrevivência”, completam.

O estudo ressalta a importância de se estabelecerem linhas de base de referência da biodiversidade para auxiliar o monitoramento das alterações no habitat e das respostas das espécies às mudanças climáticas, assim como na orientação de estratégias de conservação, objetivos centrais ao projeto de pesquisa, que faz parte do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração (PELD) da Chapada Diamantina.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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