Notícias

“É um retrocesso inimaginável” afirma Capobianco a ofensiva no Congresso contra fiscalização ambiental

MMA, Ibama e ICMBio alertaram para riscos de propostas que restringem embargo remoto, reduzem proteção a espécies e ameaçam unidade de conservação na Amazônia

Karina Pinheiro ·
20 de maio de 2026

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Ibama e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) elevaram o tom contra o pacote de projetos de lei em tramitação acelerada na Câmara dos Deputados que, segundo o governo, compromete pilares da política ambiental brasileira. Em coletiva realizada nesta quarta-feira (20), em Brasília, representantes dos órgãos classificaram a ofensiva como uma ação coordenada de “proporções nunca vistas”, com potencial para enfraquecer o combate ao desmatamento, reduzir a proteção de biomas e alterar unidades de conservação sem respaldo técnico.

“O que se verifica é que ligaram uma espécie de rolo compressor”, afirmou o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, ao comentar a tramitação acelerada das propostas no Congresso. Segundo ele, os projetos “atacam diferentes áreas e competências” e representam “um retrocesso inimaginável”. Um dos principais alvos da coletiva foi o PL 2564/2025, que restringe o uso de embargo remoto com base em imagens de satélite. Para Capobianco, a proposta desmonta uma das principais ferramentas de fiscalização ambiental. “É simplesmente surreal”, disse, ao comparar a medida à ideia de fiscalizar infrações de trânsito apenas com agentes presenciais.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



O presidente substituto do Ibama, Jair Schmitt, afirmou que a fiscalização remota responde por grande parte das operações do órgão contra desmatamento ilegal. “Praticamente dois terços de todo o trabalho do Ibama são afetados por esse projeto”, disse. Segundo ele, a metodologia torna a fiscalização “mais de 14 vezes” mais eficiente e com custo operacional inferior ao modelo exclusivamente presencial. Schmitt alertou que a restrição pode comprometer a meta de zerar o desmatamento e impactar diretamente as metas climáticas brasileiras. “Grande parte dessas emissões decorre do desmatamento ilegal”, afirmou.

O secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial, André Lima, classificou o conjunto das propostas como “o tripé da destruição dos biomas brasileiros”. Além do embargo remoto, ele criticou o PL 364/2019, que altera a proteção da vegetação nativa não florestal, e o PL 3123/2025, que pode restringir o uso de bases públicas de dados ambientais para condicionar crédito rural. Segundo Lima, a mudança pode inviabilizar mecanismos que hoje impedem financiamento a propriedades com irregularidades ambientais. “A gente está abatendo duas pernas estratégicas do controle do desmatamento”, afirmou.

Também entrou na mira o PL 2486/2025, que altera os limites da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará. O presidente do ICMBio, Mauro Pires, afirmou que a proposta ameaça uma área estratégica para contenção do desmatamento na região da BR-163 e contraria compromissos já firmados pelo instituto com o Ministério Público. “Nós nos comprometemos a não seguir com qualquer processo de revisão de limite dessa unidade de conservação sem embasamento técnico, embasamento científico”, disse. Segundo ele, o ICMBio mantém cerca de 110 mil hectares embargados dentro de unidades de conservação, o que mostra que o impacto das mudanças vai além de imóveis privados.

Capobianco também buscou dissociar as propostas do agronegócio como um todo. Segundo ele, menos de 1% dos mais de 7 milhões de imóveis cadastrados no Cadastro Ambiental Rural registraram desmatamento recente, e parte deles com autorização legal. “Nós estamos fazendo uma mudança estrutural na nossa legislação para beneficiar uma parcela muito reduzida”, afirmou. O ministro disse ao ((o))eco que o governo tentará barrar o avanço das propostas no Senado e não descartou medidas jurídicas posteriores, incluindo análise da Advocacia-Geral da União (AGU), caso os textos avancem.

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Análises
20 de maio de 2026

As tentativas de desmonte do monitoramento remoto capazes de frear o combate ao desmatamento no Brasil

Iniciativas recentes buscam minar a confiança construída ao longo de anos nos sistemas de verificação de ilícitos à distância

Notícias
19 de maio de 2026

Bancada ruralista acelera ‘pacote agro’ na Câmara dos Deputados

Proposta aprovada em urgência retira do Ministério do Meio Ambiente parte da competência sobre biodiversidade e fiscalização

Notícias
12 de março de 2026

Agro quer prioridade em norma que veda embargo a desmatamento ilegal

CNA publica lista de propostas legislativas que entidade tem interesse em ver avançar no Congresso. Várias delas compõem o Pacote da Destruição

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Comentários 1

  1. Matheus Raddi diz:

    Congresso Inimigo do Povo!!