Em 2021, participei pela primeira vez de uma cerimônia com iboga, tive o privilégio de ser conduzida dentro de uma tradição que existe há séculos, antes de qualquer laboratório farmacêutico, antes de qualquer fast track da FDA, antes de Joe Rogan ligar para o presidente dos Estados Unidos pedindo aprovação emergencial de uma medicina sagrada.
Desde então, há pelo menos seis anos, faço uso de psicodélicos. Cogumelos, iboga, ayahuasca. Sempre que possível, no contexto mais tradicional que consigo acessar. Não por purismo. Por respeito ao que essas medicinas são, de onde vieram e para quem foram dadas primeiro.
Iboga, ayahuasca, cogumelos psilocibinos não são descobertas recentes da neurociência ocidental. São medicinas milenares, desenvolvidas, cultivadas e transmitidas por povos indígenas da Amazônia, do Congo, do Gabão, do México. O conhecimento sobre seus usos terapêuticos não nasceu num ensaio clínico randomizado. Nasceu em gerações de observação, cerimônia e cuidado coletivo.
A iboga, por exemplo, tem origem nas tradições dos povos pigmeus da região do Gabão e Congo. Usada em rituais de iniciação e cura, ela carrega consigo uma cosmologia inteira, uma forma de se relacionar com o tempo, com a memória, com o corpo. Estudos recentes mostram redução em torno de 60-72% na reincidência em dependentes químicos tratados com iboga. Mas esse número não surgiu do nada: surgiu de um conhecimento que já existia muito antes de qualquer pesquisador chegar com seus protocolos.
O mesmo vale para a ayahuasca. O mesmo vale para os cogumelos que hoje aparecem em cápsulas de microdosagem vendidas em lojas de wellness de Los Angeles e São Paulo.
Quando a cura vira mercadoria
Em março deste ano, o governo dos Estados Unidos acelerou o processo de aprovação do uso terapêutico de psicodélicos. O fast track da FDA para a ibogaína foi notícia. Mas o que me prendeu a atenção não foi o ato regulatório em si, foi a imagem de Joe Rogan ao lado de Donald Trump no anúncio.

Rogan, o maior podcaster do mundo, há anos dedica episódios ao potencial dos psicodélicos. Não é ingênuo pensar que há investimento nisso. E quando alguém com esse nível de influência, capaz, segundo muitos analistas, de ter contribuído para o resultado da última eleição do Estados Unidos, usa esse capital para pressionar pela aprovação de medicinas originárias de povos indígenas, algum sinal de alerta precisa soar.
Não porque o uso medicinal seja errado. Ele não é. Mas porque a pergunta que ninguém está fazendo em voz alta é: quem vai lucrar com isso? E quem vai pagar o preço?
No Peru, a produção em escala de ayahuasca para o mercado de turismo espiritual já deixou comunidades tradicionais sem acesso à própria medicina. A planta que antes era cultivada para cerimônia passou a ser cultivada para exportação. O sagrado virou produto. E os povos que detinham o conhecimento ficaram de fora da cadeia econômica que esse conhecimento gerou.
O Protocolo de Nagoia, derivado da Convenção sobre Diversidade Biológica, prevê em tese que empresas que se apropriem de conhecimentos tradicionais para fins comerciais devem pagar royalties às comunidades de origem. Na prática, a aplicação é quase impossível quando se trata de tradições milenares transmitidas oralmente, compartilhadas entre diferentes povos, sem registro formal de autoria.
Como você patenteia um conhecimento que pertence a todos e a ninguém ao mesmo tempo? Como você define qual comunidade recebe royalties pela ayahuasca, quando diferentes povos amazônicos a utilizam há séculos de formas distintas?
A indústria farmacêutica sabe muito bem aproveitar essa ambiguidade. Em 1986, uma patente sobre a própria videira da ayahuasca foi concedida em benefício do cidadão estadunidense Loren Miller, o que dez anos depois provocou uma reação de uma aliança de povos indígenas amazônicos que conseguiu revogar a patente. Foi a mobilização de povos indígenas que segurou esse processo, mas por quanto tempo vamos conseguir resistir?
Uma coisa que aprendi na cerimônia
Há algo que toda cerimônia séria com psicodélicos ensina, independentemente da tradição: você não controla a experiência. Você se rende a ela. A medicina faz o que precisa ser feito, não o que você pediu.
O capitalismo opera exatamente ao contrário. Ele precisa controlar, escalar, padronizar, vender. E quando ele encontra algo que não pode ser controlado, como o sagrado, como o inconsciente, como a floresta, ele não para. Ele encontra um jeito de encapsular.
Eu não tenho ilusão de que vou impedir isso, mas acho que o mínimo que podemos fazer, como sociedade, é nomear o que está acontecendo: estamos assistindo à captura capitalista de medicinas que nunca foram nossas para tomar. E a velocidade com que isso está acontecendo deveria nos preocupar tanto quanto qualquer outra forma de extrativismo que já aprendemos a reconhecer.
A floresta cura, mas ela não precisa virar produto para provar isso.
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