Análises

Brasil, entre o berço esplêndido e caos climático

Somos um dos maiores emissores de gases do efeito e, em uma década, passamos a sofrer o triplo do número de desastres climáticos.

Carlos Rittl ·
17 de setembro de 2014 · 7 anos atrás

Foi-se o tempo em que mudanças climáticas não eram um problema do Brasil, quando podíamos seguir, no alto de nosso berço esplêndido, destruindo florestas e com o sonho de um dia termos o estilo de vida perdulário de um cidadão de primeiro mundo. As mudanças climáticas já bateram à nossa porta, os extremos climáticos já afetam a nossa vida.

Segundo o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais 1991-2010, tivemos 8.671 ocorrências entre secas, enchentes, vendavais, geadas etc., na década de 1990 e saltamos para 23.238 eventos na década de 2000. Hoje, 21% das cidades brasileiras (1.183) estão em situação de emergência ou calamidade devido a secas. Mesmo que se discuta se cada evento é ou não consequência do aquecimento global, o clima está claramente cada vez mais hostil.

A conta do clima chegou para todos os grandes emissores e o Brasil está entre os 7 maiores.

O mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC, que contou com participação de 23 cientistas do Brasil, traz alerta muito objetivo. Já convivemos com consequências das mudanças climáticas e a situação pode ficar muito pior, com impactos irreversíveis, se tivermos aquecimento global acima de 2°C em relação a níveis pré-industriais. Estamos, hoje, no caminho de um aumento de 4 a 5°C na temperatura média do planeta. Mas, felizmente, o IPCC afirma que ainda é possível evitar o pior, se houver profundos cortes nas emissões de gases de efeito estufa.

Houve progresso na agenda de clima nesta última década no país. Em 2004, começamos a combater o desmatamento na Amazônia (o que gerou a maior redução de emissões em um único país em anos recentes). Lançamos em 2008 um Plano Nacional sobe Mudança do Clima e temos, desde 2009, uma política nacional sobre o tema, com metas para redução de emissões até 2020. Criamos o Fundo Amazônia e o Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, e temos planos setoriais para mitigação às mudanças climáticas.

Entre os piores, sem estratégia

“Estudo recente de pesquisadores da Universidade de Concórdia, no Canadá, coloca o Brasil entre os 4 maiores responsáveis pelo aquecimento global já observado”

No entanto, o que já fizemos até hoje não é suficiente para o futuro. Análises do Observatório do Clima indicam tendência de emissões crescentes até 2020, apesar de atingirmos a meta definida em lei. Além disso, nossa responsabilidade pelo aquecimento global pode ser maior do que se imaginava. Estudo recente de pesquisadores da Universidade de Concórdia, no Canadá, coloca o Brasil entre os 4 maiores responsáveis pelo aquecimento global já observado, com 4,9% de responsabilidade. E não temos uma estratégia nacional de adaptação às mudanças climáticas, que nos prepare para seus efeitos.

Até o final de 2015, estará em curso processo de negociação no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) para a definição de um novo acordo, com metas de redução de emissões e outros compromissos para o período pós-2020 aos países membros da Convenção. Em matéria de mitigação, o único resultado aceitável é um conjunto global de metas de redução de emissões compatível com o limite de 2°C. Todo grande emissor terá grande responsabilidade.

Será tarefa de quem estiver à frente da Presidência da República, a partir de 1o de Janeiro de 2015, a definição de uma estratégia nacional de adaptação e metas de redução de emissões consistentes com a emergência climática e correspondente à responsabilidade e capacidade do Brasil. Para o Observatório do Clima, o Brasil deverá emitir, em 2030, bem menos do que hoje (e bem abaixo de 1 GtCO2e), para fazer sua parte para evitar o caos climático.

Os desafios são grandes. Mudanças climáticas têm hoje peso pequeno frente a grandes planos de desenvolvimento no Brasil. Aumentamos a geração de energia eólica em anos recentes, mas reduzimos a participação total de energias renováveis em nossa matriz de energia nos últimos anos. Além disso, investimos quase nada em fontes como a energia solar (enquanto a China deve chegar a 70 GW desta fonte em sua matriz em 2017). E cerca de 70%, ou mais de R$ 800 bilhões, dos investimentos em energia projetados até 2023 serão investidos em fontes fósseis: petróleo e gás natural. No ano passado, depois de anos em queda, o desmatamento na Amazônia voltou a crescer — 29% de aumento em relação a 2012. Investimos pouco mais de 3% dos recursos federais para a agropecuária na agricultura de baixo carbono. E ainda não promovemos no Brasil os saltos de inovação tecnológica para uma economia de baixo carbono que estão ocorrendo em outros países, em áreas como armazenagem, transmissão e distribuição de energia.

Mudar o panorama atual é fundamental. O caminho de desenvolvimento é baseado em reduções progressivas de emissões de gases de efeito estufa, com adaptação e resiliente às mudanças climáticas. Ele depende de uma visão estratégica de longo prazo e da harmonização entre políticas, planos, instrumentos e investimentos voltados para infraestrutura, energia, agropecuária, indústria, ciência, tecnologia e inovação e a Política Nacional sobre Mudança Climática. A própria lei 12.187/2009, que estabeleceu esta política, determina este alinhamento, ainda inexistente no país.

A/o próximo presidente do Brasil terá, portanto, a responsabilidade de tirar o país de sua zona de conforto climático. O discurso de que já fizemos muito frente aos outros países não é suficiente. E o único caminho aceitável ao desenvolvimento de cada país é o que confere às mudanças climáticas a devida importância estratégica. Está em jogo é a segurança climática do país, do mundo e de cada cidadão. Mas, também, a própria competitividade de nossa economia em um mundo que precisa ser de baixo carbono.

 Leia também
Presidente da WWF vem ao Rio falar da importância da Amazônia
Brasil, campeão na redução de emissões? Há controvérsia
Relatório indica lacunas no monitoramento de qualidade do ar

 

 

 

 

Leia também

Reportagens
21 de outubro de 2021

Estudo aponta diretrizes para barrar a degradação acelerada de campos e savanas

As chamadas grasslands estão ameaçadas em todo o planeta, alerta um grupo internacional de pesquisadores. Solução envolve restauração e busca de alternativas de exploração econômica sustentáveis

Notícias
21 de outubro de 2021

Até 2020 Rondônia não possuía lei para regular destinação de terras públicas

Estado tem quase 30% de seu território ocupado por terras não destinadas. Briga entre Legislativo e Executivo rondonienses dificultam formalização dos processos

Reportagens
21 de outubro de 2021

Superintendente dá aval para obras que ameaçam habitat de peixe das nuvens cearense

Duplicação de rodovia no litoral do Ceará foi embargada pelo Ibama em janeiro para proteger espécie de peixe das nuvens ameaçada. Com desembargo, pesquisadores temem pela destruição do habitat já restrito da espécie

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta