Análises

O desafio da produção e do consumo sustentáveis

Consumo global cresceu dez vezes de 1980 a 2000 junto com a ascensão de países emergentes como o Brasil. Resta conter seus efeitos colaterais.

Samyra Crespo ·
22 de setembro de 2014 · 7 anos atrás

Grande shopping center inaugurado na cidade do Recife, Brasil, em 2012. Foto:
Grande shopping center inaugurado na cidade do Recife, Brasil, em 2012. Foto:

Em 2006, a ONU contou ao mundo que o Planeta Terra, do ponto de vista de sua população, tornara-se urbano, com mais de 50 % dos indivíduos morando em cidades, optando pelo estilo de vida urbana. No Brasil, os cientistas e demógrafos sustentam que o país já possui 80% de sua população em cidades. Quando essa novidade surgiu, os estudiosos e militantes do campo de forças do Desenvolvimento Sustentável (ambientalistas, gestores e tomadores de decisão públicos e privados, além de cientistas e formadores de opinião diversos, nacionais e globais) adquiriram a certeza de que os desafios do desenvolvimento que amplia metas de sustentabilidade vão ocorrer no cenário das cidades.

Além da certeza de que as sociedades humanas estarão vivendo cada vez mais concentradas em aglomerados urbanos, a população do planeta vai estar na casa dos nove bilhões em 2030, colocando uma pressão cada vez maior sobre a produção de alimentos, sobre os recursos naturais e sobre toda a sorte de bens de consumo. O binômio rural-urbano se faz aqui de suma importância, e a escalada da agricultura sustentável é já uma estratégia competitiva entre os países produtores de alimento. Mercados altamente regulados por barreiras internacionais não tarifárias certamente vão empurrar esta frente para um alto desenvolvimento tecnológico “verde”.

Apetite por recursos

“o consumo global aumentou em seis vezes o volume verificado entre 1960 e 1980 e dez vezes entre 1980 e 2000”

O crescimento exponencial do consumo nos últimos 50 anos é atestado por vários relatórios específicos publicados pela ONU (2008 e 2011); mostram que o consumo global aumentou em seis vezes o volume verificado entre 1960 e 1980 e dez vezes entre 1980 e 2000. A erosão do mundo socialista e as políticas de combate à pobreza intensificaram o consumo, criando empresas verdadeiramente globais como a Coca-Cola, a Nestlé e outras de igual porte, além de gigantes do varejo como o Walmart, com presença em todos os continentes. Nesta cadeia global do consumo, verifica-se políticas governamentais insuficientes, com foco mais na segurança do consumo, ou nos direitos dos consumidores, e estratégias comerciais capitalistas que utilizam instrumentos avançados de marketing e de associações identitárias, transformando o consumo não só num tema da economia, mas da cultura e das tendências de comportamento ético.

Em pauta desde 1992, com a Agenda 21 Global, o tema do consumo foi avaliado em 2002 (Conferência que examinou a evolução da pauta do desenvolvimento sustentável dez anos pós Rio-92) como um tema que não tinha avançado. De lá para cá, poucos foram os países que realmente elaboraram planos nacionais de “Produção e Consumo Sustentáveis” empurrados por um programa global do PNUMA conhecido como “Processo de Marrakesh”. O Brasil aderiu a este programa em 2007 e elaborou seu primeiro plano de ação em 2009, publicando-o em 2010.

Bens identitários

“(…) grifes, marcas, produtos que desenham e diferenciam as personalidades dos indivíduos consumidores, na cena urbana, do trabalho ao lazer: ‘eu sou o que consumo’, ou ‘consumo, logo existo'”

O tema tentou adquirir coloração de pauta prioritária com a Rio+20. A conferência de cúpula da ONU, ocorrida no Brasil em 2012, mostrou alguns esforços nossos que estão longe ainda de ocupar um lugar de destaque numa pauta estratégica de desenvolvimento. Ainda assim, colocamos foco em duas iniciativas que devem ganhar fôlego nos próximos anos, se realmente os governos – que em ano de eleições tendem a centrar seu discurso em temas que dão voto – integrarem em sua visão de futuro e de opções de crescimento econômico aquilo que cabe ao governo fomentar sem pestanejar.

Os estudos mostram que os orçamentos dos indivíduos triplicaram mundialmente no que se refere a gastos com bens de consumo na última década: ou seja, na cesta cada vez menos básica da classe média, mais itens são adicionados, mais parcelas de gastos são assumidas, fazendo o orçamento doméstico dos dias atuais ser incomparável com os orçamentos de vinte anos atrás. Nesta adição frenética estão os bens de tecnologia (celulares e TVs com tela de plasma puxando a fila), os bens de mobilidade (carros, motocicletas, bicicletas), os bens de abastecimento (principalmente os alimentos processados industrialmente), os bens de educação e entretenimento (cursos de inglês, de informática e pacotes de viagem de férias) e cada vez mais “bens identitários” – grifes, marcas, produtos que desenham e diferenciam as personalidades dos indivíduos consumidores, na cena urbana, do trabalho ao lazer: “eu sou o que consumo”, ou “consumo, logo existo”. O jornal Valor Econômico divulgou que em 2013 foram gastos um trilhão de reais com bens de consumo não duráveis no Brasil .

Consumo: problema e solução

“Incluir no círculo do consumo é o lado luminoso da moeda. O lado mais opaco é o efeito dessa inclusão, os impactos que gera no ambiente e na própria sociedade”

A “explosão” do consumo no Brasil, potência econômica emergente ao lado da China, da Índia, da África do Sul e da Coréia do Sul, entre outros, é conseqüência do seu desempenho econômico combinado com políticas exitosas de inclusão social que nos últimos dez anos expandiram o mercado interno, aumentando significativamente o poder de consumo dos segmentos conhecidos como classes C, D e E. Em seus relatórios oficiais, o Brasil assume que 19 milhões de pessoas foram incluídas na economia de mercado, saindo da linha da pobreza, e que 34 milhões ascenderam à chamada “nova classe média” – a classe “C”. Os documentos oficiais afirmam que nossa classe média já contabiliza cem milhões de pessoas.

A inclusão política só se completa com a inclusão econômica. Incluir no círculo do consumo é o lado luminoso da moeda. O lado mais opaco é o efeito dessa inclusão, os impactos que gera no ambiente e na própria sociedade, e como lidamos com eles. A questão não é reduzir o consumo, mas como consumir e como lidar com os efeitos colaterais do consumo, tais como o crescente descarte de resíduos e a necessidade de reciclar, para poupar matéria prima e energia. Mudanças de hábitos e de comportamentos por parte de indivíduos e instituições é um tema que deverá traduzir-se em políticas e programas de governo, empresas e sociedade nos próximos anos, qualquer que seja o presidente eleito e os partidos no poder.

Uma pista de como pode se pode dar o engajamento dos consumidores pode ser rastreada nas iniciativas de redução na distribuição de sacolas plásticas no Brasil, nos últimos cinco anos, e da adoção do hábito das sacolas retornáveis. Mas esta é uma frente, a do engajamento dos consumidores, ainda pouco mapeada. Pesquisas nacionais conduzidas por institutos profissionais e financiadas pelo Ministério do Meio Ambiente e por outros órgãos (como a CNI, por exemplo) vêm mostrando em séries históricas que a disposição dos brasileiros para economizar água, energia e reciclar é grande, acima de 70% da população adulta (mais de 17 anos). No entanto, poucas campanhas se vê neste sentido, e a que agora bate à nossa porta (para os cariocas, a “Conta Light”) ocorre porque a crise da água e da energia é fantasma, bicho-papão que “apareceu de repente” (sic). Temos que avançar neste terreno.

 

 

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  • Samyra Crespo

    Ambientalista que atua na área do Desenvolvimento Sustentável há 22 anos. Assumiu em maio de 2013 a presidência do Instituto ...

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