Análises

A hora e a vez do graxaim-do-campo

Indo na contramão da extinção, esse canídeo campestre é o exemplo perfeito da flexibilidade ecológica frente às mudanças antrópicas

Juan V. Ruiz ·
24 de janeiro de 2025 · 1 anos atrás

Os pampas formam o mais esnobado dos biomas brasileiros. Ao contrário da diversidade explícita das florestas e savanas tropicais, aos olhos não treinados (como os meus) os campos sulinos se parecem apenas com… infinitas pastagens. Não é à toa que esse fator serviu como base para a colonização europeia com viés pecuário na região. Mas em termos biológicos, essa “pobreza” é apenas uma ilusão; os pampas, os campos naturais que se estendem pelo norte da Argentina, Uruguai e metade sul do Rio Grande do Sul, são o lar de plantas e animais únicos e especializados para a vida nessas pradarias subtropicais.

O pampa: um Wallpaper do Windows XP, versão gaúcha. Fonte: Roberta Farenzena.

Este é o caso do graxaim-do-campo (Lycalopex gymnocercus). Também conhecido como raposa-dos-pampas, esse canídeo (membro da família Canidae, ao qual também fazem parte os lobos, cães e raposas) é uma das espécies-propaganda dos campos sulinos, ao lado da zorrilha (um Mephitidae, grupo de Carnivora que inclui os bichos conhecidos também por cangambás e jaritatacas).

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Porém, mais do que um cidadão exclusivo dos pampas, o graxaim-do-campo é um bicho de áreas abertas, podendo ser encontrado em praias, restingas, no chaco úmido do Paraguai e Bolívia, campos de dunas… enfim, em qualquer lugar onde não haja mata fechada. Mais recentemente, esse catálogo passou a incluir também áreas agrárias. 

Embora chamadas de raposas, os graxains-do-campo e outros canídeos nativos da América do Sul formam um grupo exclusivo do nosso continente, tendo relações evolutivas mais próximas com os lobos e cães domésticos do que com as raposas “verdadeiras”, como a raposa-vermelha (Vulpes vulpes). Fonte: Vinicios de Moura.

O graxaim pode ser visto como um modelo perfeito de um canídeo. Ao contrário de um lobo-cinzento ou um cachorro-vinagre, espécies quase que estritamente predadoras de animais de médio a grande porte, a maioria dos canídeos são predadores generalistas. Sua dieta é baseada numa mistura de presas pequenas (passarinhos, roedores, um sapinho aqui, um lagarto ali) complementada com ovos, insetos e muita matéria vegetal (frutas, sementes, folhas, tubérculos). Em outras palavras, eles não exigem muito em termos de dieta.

O fato de se “contentar com qualquer comida” é um ponto forte para a sobrevivência de um organismo. Outro elemento crucial é a capacidade de se adaptar às alterações ecológicas. Algumas espécies se mostram mais ou menos suscetíveis à conversão de, digamos, pampas em pastagens, de florestas ombrófilas em seringais.

A exemplo, tanto o cachorro-do-mato-de-orelha-curta (Atelocynus microtis) quanto o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) são mesocarnívoros, mas o primeiro é encontrado apenas em florestas primárias, enquanto o segundo é bem flexível em termos de escolha de habitat. Resultado: enquanto o cachorro-do-mato pode ser encontrado com facilidade Brasil afora, mesmo em cidades, o orelha-curta é visto apenas nas mais pristinas florestas da Amazônia, longe dos avanços humanos (até quando?)

Enquanto o graxaim-do-campo é o canídeo “pau pra toda obra” do sul do país, o cachorro-vinagre ocupa tal papel na maior parte do Brasil, estando ausente apenas na Bacia Amazônica. Fonte: Ezequiel Racker.

No Rio Grande do Sul, o cachorro-do-mato responde também pelo nome graxaimdo-mato. Quando o graxaim-do-campo e o graxaim-do-mato ocorrem numa mesma localidade, eles evitam uns aos outros: o primeiro acaba por ocupar quase que exclusivamente áreas abertas; o segundo, áreas florestadas. Isso não apenas faz jus ao nome como, mais importante, evita a competição direta por recursos entre as duas espécies.

No caso do graxaim-do-campo, um detalhe adicional: de sua área original de distribuição nos pampas, apenas 0,1% ainda pode ser considerado habitat pristino, inalterado; a maior parte do bioma atualmente se resuma a áreas rurais de cultivo e criação. O graxaim-do-campo não apenas resistiu a essa alteração ambiental como se aproveitou dela.

Com a colonização europeia na região, mamíferos exóticos se estabeleceram, incluindo lebres-europeias (Lepus europaeus). Invasoras, firmaram residência e se espalharam pelas áreas abertas do Cone Sul. Uma coisa levou à outra, e onde há lebres, há raposas. Em muitos locais, lebres europeias constituem a maior parte da dieta dos graxains-do-campo disparado.

Uma lebre-europeia fotografada no Uruguai, o marco zero da chegada da espécie nos pampas. Com o desmatamento da Mata Atlântica, as lebres têm se espalhado para o norte, e não há exército de graxains capaz de conter essa invasão. Fonte: Enrique González.

Essa é a chave do sucesso do graxaim-do-campo: sua flexibilidade alimentar e ecológica o permite se adaptar a ambientes modificados com mais facilidade do que a maioria das espécies competidoras. E cá estamos: mesmo tendo sido perseguido quase que a nível industrial por sua pele no passado, o graxaim-do-campo pode se dar ao luxo de ser uma das poucas espécies de canídeos selvagens do mundo cujas populações permanecem estáveis.

Na verdade, não apenas estáveis, mas expandindo: a distribuição oficial da espécie (que você pode acessar pelo site da IUCN) mostra que o graxaim está restrito, no Brasil, ao Rio Grande do Sul, subindo pelo litoral até quase chegar ao Paraná. No entanto, com a popularização de plataformas de ciência cidadã, prováveis registros da espécie começaram a pipocar em lugares tão distantes quanto Teodoro Sampaio, em São Paulo.

Nos Aparados da Serra, os graxains-do-campo se acostumaram ao fluxo de turista e costumam “recepcioná-los” para ganhar quitutes. Fonte: Alexandre Petronilho dos Santos

A sina do graxaim-do-campo é a mesma das demais espécies campestres generalistas: com o desmatamento de áreas florestais, começam a aparecer em lugares antes improváveis. Como o lobo-guará de São José dos Campos, ou a avoante de Rolim de Moura, ou o anu-branco de Rio Branco.

É claro que nem tudo são flores, e a relação desses canídeos com a população humana dos pampas é complicada. Graxains são culpados (sem embasamento) pela morte de cordeiros. E mesmo sendo uma espécie protegida por lei, a caça, seja por retaliação, esporte ou para o comércio de peles, ainda ocorre, embora não haja dados que mostrem que exerça um impacto negativo geral. Ao que tudo indica, não, e o graxaim-do-campo segue fazendo parte do seleto grupo dos mamíferos de médio porte a entrar confiante no século XXI.

É preciso lembrar, porém, que a alteração antrópica da paisagem traz ameaças que nenhuma flexibilidade ecológica protege: o contato com animais domésticos. Esse “grachorro” é um híbrido entre um cão doméstico macho e um graxaim-do-campo fêmea, o primeiro do tipo encontrado. Além do impacto danoso do hibridismo na genética das populações, o contato próximo entre silvestres e domésticos pode resultar na transmissão de doenças, em competição e em predação. E quem sai perdendo é sempre o silvestre. Fonte Thales Renato Ochotorena de Freitas.

O impacto da transformação de habitats é um tema complexo e que deve ser analisado de maneira multidisciplinar. Estamos acostumados a enxergar o lado negativo, as ameaças, as populações em risco, a sombra da extinção. Para algumas espécies, no entanto, mudanças antrópicas podem trazer vantagens. Até o momento, pelo menos em relação a sua sobrevivência pelos incertos anos que temos pela frente, o graxaim-do-campo tem mandado bem. Muito bem.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

Referências

Campbell, I., Behrens, K., Hesse, C., & Chaon, P. (2021). Habitats of the World: A Field Guide for Birders, Naturalists, and Ecologists. Princeton University Press.

Castelló, J. R. (2018). Canids of the world: wolves, wild dogs, foxes, jackals, coyotes, and their relatives. Princeton University Press.

Lucherini, M. (2016). Lycalopex gymnocercus. The IUCN Red List of Threatened Species 2016: e.T6928A85371194. https://dx.doi.org/10.2305/IUCN.UK.2016-1.RLTS.T6928A85371194.en. Acesso em: 05 dez. 2024.

Weiler, A., Nunez, K., & Silla, F. (2020). Forest matters: use of water reservoirs by mammal communities in cattle ranch landscapes in the Paraguayan Dry Chaco. Global Ecology and Conservation, 23, e01103.

Wilson, D. E.; Mittermeier, R. A. (2009). Handbook of the Mammals of the World: vol. 1, Carnivores, Lynx Edicions, 727pp.

  • Juan V. Ruiz

    Biólogo, doutor em Biodiversidade pelo Ibilce/UNESP e membro do Laboratório de Paleontologia de Ribeirão Preto - FFCLRP-USP.

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