Análises

A invisibilidade de ecossistemas não florestais na COP 26

Meu objetivo aqui não é dizer que florestas são menos importantes. É claro que precisamos conservar e restaurar florestas. Mas precisamos parar de considerar o plantio de árvores como única solução

Michele de Sá Dechoum ·
16 de novembro de 2021

Via de regra, plantar árvores é a primeira e mais nobre ação pensada quando se quer fazer o bem ao meio ambiente ou melhorar a qualidade ambiental do lugar onde se vive. Nas minhas caminhadas pelas áreas remanescentes de restinga em Florianópolis, cidade onde vivo desde 2008, essa prática tem se tornado cada vez mais comum por grupos locais de moradores e entusiastas do verde da nossa cidade. É maravilhoso que as pessoas se importem e se mobilizem pela causa ambiental. Entretanto, árvores não devem ser plantadas em todo e qualquer lugar quando o objetivo é restaurar ou conservar a biodiversidade, ou mesmo armazenar carbono. As escolhas de quais árvores plantar (quais espécies) e de onde se plantar (em quais locais) são fundamentais para que de fato esses objetivos sejam alcançados. 

Essa mesma lógica do plantio indiscriminado de árvores tem sido adotada no discurso e nas ações que têm guiado iniciativas internacionais relacionadas ao enfrentamento da crise climática. As chamadas “soluções baseadas na natureza” (nature-based solutions) têm ganhado destaque no cenário internacional quando se fala de medidas para o enfrentamento da crise climática. De forma bem simplificada, essas soluções ao mesmo tempo proporcionam a proteção da biodiversidade e garantem o bem estar humano, inclusive por meio de retorno econômico. 

De fato, árvores armazenam carbono. Mas nem todas as espécies de árvores armazenam carbono da mesma forma, e muito menos toda a vegetação mundial é composta exclusivamente por florestas. Em muitos dos casos, esses plantios de árvores para aumento da captura de carbono são monoculturas de espécies exóticas; ou seja, um sistema produtivo que em nada se parece com a complexidade de uma floresta nativa. Além disso, o armazenamento de carbono nessas monoculturas é muito pequeno quando comparado ao armazenado em florestas nativas antigas. Para piorar a situação, esses plantios de árvores exóticas, algumas vezes invasoras, têm sido o carro-chefe em iniciativas focadas no combate à crise climática em regiões onde a vegetação nativa não é florestal; ou seja, nos chamados ecossistemas abertos.

Ecossistemas abertos apresentam alta biodiversidade e armazenam carbono na parte subterrânea, podendo inclusive armazenar mais carbono do que florestas. Como são menos expostos a incêndios devastadores, fonte relevante de emissão de carbono para a atmosfera, são também considerados como mais estáveis no armazenamento de carbono. No caso do nosso país, ecossistemas abertos ocupam cerca de 1/3 do território nacional e estão presentes em todas as regiões brasileiras, incluindo trechos na nossa costa. Esses ecossistemas são dominados por vegetação herbácea, como ocorre em campos naturais, podendo haver arbustos e árvores esparsos em alguns casos, como no caso de formações savânicas no Cerrado. 

Meu objetivo aqui não é dizer que florestas são menos importantes. É claro que precisamos conservar e restaurar florestas. Mas precisamos parar de considerar o plantio de árvores como única solução. O plantio de árvores não pode ocorrer em áreas nas quais a vegetação natural não é florestal, e muito menos por meio de monoculturas de espécies exóticas. Nossas soluções de baixo custo e baseadas na natureza devem ser focadas na restauração da vegetação nativa, o que nos ajudará tanto a armazenar carbono quanto no enfrentamento da outra grande crise da atualidade: a crise da biodiversidade. Precisamos restaurar a vegetação nativa, o que pode ocorrer inclusive por meio do corte de árvores exóticas invasoras em ecossistemas abertos. A restauração de ecossistemas abertos e costeiros, como campos naturais, savanas e restingas, pode e deve ser uma estratégia efetiva para armazenamento de carbono e redução de vulnerabilidade frente à crise climática. 

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Michele de Sá Dechoum

    Docente do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC, colaboradora do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambi...

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Comentários 1

  1. JTruda diz:

    A defesa legítima que a autora faz dos ecossistemas não-florestais é grandemente prejudicada pelo seu argumento bobagento contra o plantio de árvores por cidadãos. Ora, até parece que os plantios prejudicam a defesa dos ecossistemas mencionados… sugiro que os interessados se informem melhor sobre o que têm feito as redes brasileiras de plantio de árvores antes de embarcar nesse argumento completamente furado.