Nos últimos tempos tem sido cada vez mais comum lermos sobre iniciativas – e projetos – que juntem avaliações e abordagens ecológicas com as questões socioambientais, e temos novos termos usados nessa tendência.
Sociobiodiversidade e socio-ecologia (este mais comum nos textos em língua inglesa) são termos cada vez mais comuns, e quem conhece a história da Ecologia como área do conhecimento sabe o quanto isso é uma novidade. Cabe aqui lembrar o desenvolvimento da Ecologia desde o século XIX, quando o zoólogo Ernest Haeckel lançou o conceito para descrever o estudo das relações dos organismos com seu ambiente (a “casa” ou oikos).
Haeckel, como todo bom naturalista e zoólogo (e o mesmo raciocínio vale para os botânicos), tinha interesses que ultrapassavam descrever e classificar as espécies usando o sistema binomial do Carolus Linnaeus. Zoólogos e botânicos sempre tiveram a intenção de entender como é a vida das espécies que estudam (habitats, hábitos alimentares, horário de atividade), suas relações interespecíficas (mutualismo, parasitismo, predação e competição). E assim nasceu a Ecologia como área do conhecimento dentro das Ciências Naturais, e limitada aos estudos espécie por espécie e, portanto, com pouco poder preditivo geral. Isso mudou a partir de meados do século XX, quando pesquisadores (em especial Robert MacArthur, Eugene Odum e Howard Odum e seus muitos colegas) buscaram modelos gerais através de análise quantitativa, e assim conseguiram generalizações em vários níveis hierárquicos de organização, indo da Ecologia de Organismos, de Populações, de Comunidades até a Ecologia de Ecossistemas.
Nesta fase começou também o interesse em como as espécies interferem e são influenciadas pelo meio ambiente onde ocorrem. Esse desenvolvimento, assim como os estudos em todos esses níveis hierárquicos, pode ser lido e aprofundado em qualquer livro-texto de Ecologia (por exemplo Begon & Townsend 2023).
A próxima etapa da Ecologia, alcançada nos anos 70 do século passado, foi seu uso para planejamento de unidades de conservação a partir das generalizações quantitativas da Teoria de Biogeografia de Ilhas. Nessa época, a Ecologia como ciência passou a ter modelos e teorias que permitiram generalizações e maior capacidade preditiva.
Na sequência, tivemos o desenvolvimento dos estudos sobre metapopulações e sua inserção na abordagem conhecida como Ecologia de Paisagens. Esta abordagem nasceu no âmbito dos estudos em geografia física na Europa, especialmente na Alemanha e França. Dentro de sua vertente Européia, a Ecologia de Paisagens abriu possibilidades de trazer aspectos sociais para a teoria Ecológica.
Na versão norte-americana da Ecologia de Paisagens, nos anos 80, as análises de metapopulações foram inseridas. Esta abordagem sobre Ecologia de Paisagem permitiu um enorme avanço, por inerentemente trabalhar em várias escalas espaciais, e tem um potencial ainda sendo avaliado para a gestão ambiental. Quem quiser se aprofundar no tema deve, entre outros, procurar ler os estudos da Leonore Fahrig e com especial atenção para a hipótese da quantidade de habitat. A iniciativa Millennium Ecosystem Assessment fornece uma síntese dos vetores de perda de biodiversidade e conceitos ecológicos associados a cada um, deixando evidente a importância da Ecologia como área do conhecimento em várias escalas e níveis de organização, abrangendo dos organismos até os ecossistemas (Figura 1 abaixo) para dimensionar os impactos das ações antrópicas e traçar estratégias para a conservação da biodiversidade.

Mas como os seres humanos se inserem na Ecologia?
Historicamente, a Ecologia Humana lida com os seres humanos como mais uma espécie biológica (Homo sapiens) e, de uma forma geral, com os estudos centrados em como ela influencia e é influenciada pelas variações no meio ambiente. A novidade é que, com o passar do tempo, aumentaram as evidências do papel dos povos originários na conservação da biodiversidade (por exemplo, Umbelino et al. 2025) e consequentemente o conhecimento local começou a ser (finalmente) valorizado pelos ecólogos mundo afora.
Há alguns anos, em uma análise envolvendo 60 áreas protegidas em todas as regiões tropicais do globo, feita por cerca de 250 pesquisadores de todos os continentes, ficou claro que as mudanças ambientais fora destas áreas protegidas foram tão fundamentais para a manutenção da biodiversidade a longo prazo, quanto as que ocorreram dentro destas mesmas áreas (Laurance et al., 2012). Isso mostrou o papel crucial da sociedade como um todo (e não apenas dos setores de gestão ambiental senso estrito) e das comunidades locais na manutenção da vida no planeta.
No Brasil, já existem várias iniciativas de como incorporar o conhecimento local na gestão ambiental e na conservação da biodiversidade. Isso está refletido tanto na nossa legislação e compromissos assumidos em âmbito nacional e internacional (Sistema Nacional de Unidades de Conservação, Plano Estratégico Nacional de Áreas Protegidas, Estratégia e Plano de Ação Nacional para a Biodiversidade), como através de várias publicações (fortemente centradas na Amazônia, mas não apenas). Portanto, finalmente começamos a enxergar além dos “muros” das Unidades de Conservação.
Um exemplo importante de como isso está sendo aplicado na prática é a retomada dos Mosaicos de Áreas Protegidas (MAPs) como prioridade na agenda política do ICMBio e MMA. Atualmente temos 28 MAPs reconhecidos no Brasil. Só em 2025 já foram reconhecidos mais dois novos Mosaicos, sendo que um deles traz o ineditismo de ser composto por uma Unidade de Conservação (UC) e seis Terras Indígenas (Mosaico Gurupi). Além disso, outros MAPs que estavam desativados também retomaram as suas agendas e reuniões de conselho. Um deles foi o Mosaico Mata Atlântica Central Fluminense (MMACF), que buscou, nessa retomada, a incorporação e valorização de mais áreas protegidas – como os quilombos – abrangidas pelo seu território, assim como a inclusão plural dos diversos conhecimentos nele contido em sua nova composição do Conselho Consultivo, como por exemplo: povos de terreiro, indígenas não aldeados e pescadores artesanais.
Um marco nesse movimento de ampliação da sua abrangência socioambiental foi o último Encontro do Saberes do MMACF, cujo tema era “Integração para Cuidar da Natureza, das Pessoas e do Clima”. O Encontro, realizado no dia 11 de dezembro de 2025, contou com apresentações de diversas pesquisas e relatos de experiências refletidas no seu território, pondo em evidência a interdependência dos diversos temas da agenda socioambiental.
Atualmente, portanto, todos deveríamos ter e incorporar em nossas práticas uma visão ampla da importância da sociobiodiversidade para a gestão ambiental e, consequentemente, para a qualidade de vida de todos. Ficou no passado a visão de lidar com as questões ambientais separando as pessoas, a biodiversidade, a estrutura do ambiente e o clima. Por exemplo, atualmente não existe dúvida de que nossa segurança alimentar e hídrica depende da biodiversidade (por exemplo, Grelle et al. 2025).
Até aqui fizemos uma exposição da mudança do alcance da Ecologia, que começou de forma descritiva, se tornou preditiva e aplicada a partir da metade do século XX, e finalmente começou a incluir outros saberes, começando uma transformação no seu escopo, e que a leva a se tornar de fato transdisciplinar. Cabe notar aqui que existem visões de outras áreas, como a Ecologia Social e Ecologia Política, que não serão abordadas aqui e que demonstram uma visão da Ecologia além das Ciências Naturais.
Existe um debate de que a Ecologia deveria desde sempre ter sido mais aberta a outros conhecimentos, como aqueles das áreas humanas, além das contribuições dos povos originários. Mas não tem como voltar no tempo e nem ficar especulando o que teria acontecido se a Ecologia não tivesse passado pela transformação e se tornado uma área quantitativa no século XX, relembrando do seu início como um conceito simplesmente descritivo. E é inegável o progresso que a Ecologia como ciência alcançou desde então, e que é bem representado na figura acima (baseada no Millenium Ecosystem Assessment).
O que queremos aqui é mostrar como a Ecologia pode ser útil nas questões que envolvem a sociobiodiversidade, e vamos usar a Ecologia de Zoonoses e a Ecologia Urbana como exemplos, embora seja necessário ressaltar que existem várias outras situações, como nos territórios amazônicos onde tem extrativismo e vários textos sobre isso estão em um fascículo recente da Conservation Biology (The Society for Conservation Biology). As duas abordagens têm o potencial de mostrar a integração da ecologia com a sociobiodiversidade com abrangência nacional, destacando que essa articulação é fundamental para ampliar nossa compreensão e nossa capacidade de previsão, essenciais para a gestão ambiental.
As zoonoses são doenças infecciosas da fauna silvestre e, embora a maioria não afete os seres humanos, algumas podem causar doenças graves e serem um problema de saúde pública, tais como febre amarela, hantavirose, peste bubônica, raiva, Covid 19, leishmania, gripe aviária, entre outras. Algumas dessas zoonoses podem ser transmissíveis também para alguns animais domésticos de interesse comercial (ex. frango, porco, gado, cavalo) sendo, portanto, um tema de interesse da saúde pública e ainda de setores da economia brasileira. As zoonoses circulam na fauna silvestre, e muitas vezes com espécies sendo reservatórios (espécies de mamíferos silvestres) e outras como vetores (mosquitos entre outros). Sabe-se que alguns ciclos epidemiológicos podem ser influenciados em decorrência da degradação ambiental, e com associação com a quantidade de cobertura de vegetação nativa. Cabe destacar aqui que existe um consenso na literatura científica sobre o efeito diluição, e quanto mais intacta é a fauna local de mamíferos, menor é a possibilidade de um surto zoonótico. As espécies de morcegos, primatas e roedores silvestres figuram entre os principais reservatórios de zoonoses, e o Brasil tem uma elevada diversidade, sendo necessário termos programas de monitoramento para prever novos surtos de zoonoses (Ribeiro et al. 2022).
Um relatório recente lançado pela Fiocruz apresenta a maior compilação já feita de zoonoses que ocorrem no Brasil, e ainda recomendações para a iniciativa de Uma só Saúde (One Health) que é em essência uma abordagem da sociobiodiversidade (Winck et al. 2025). Portanto, temos um claro exemplo de como a Ecologia de Organismos, de Populações (que é a base da epidemiologia) e de Comunidades são essenciais para a saúde humana, o que é a sociobiodiversidade em essência!
É razoável imaginar que algumas situações ambientais, que demandam o conhecimento em Ecologia para ajudar nas questões de sociobiodiversidade, ocorram em lugares de contato entre as áreas urbanas, rurais e de vegetação nativa, que é o caso das UCs urbanas (Unidades de Conservação cercadas por ambientes urbanos no seu entorno). Sabe-se que muito da crise ambiental tem relação com uma perspectiva de desenvolvimento que promove a desconexão das pessoas com a natureza e ainda do entendimento errado do que é evolução biológica – assunto que já foi abordado em outro texto em ((o))eco (Qual a relação entre a compreensão da evolução biológica e a conservação da biodiversidade? – ((o))eco) – e aqui vamos focar na Ecologia Urbana.
Embora durante muito tempo as áreas urbanas com vegetação nativa tenham sido negligenciadas como sendo importantes para a conservação da biodiversidade, essa visão mudou. As UCs urbanas permitem estudos que juntam a Ecologia com a Sociobiodiversidade (por ex. Zaluar et al. 2025) e, o que deve ser destacado, as UCs urbanas podem ser fundamentais na reconexão das pessoas com a natureza.
Historicamente, as questões urbanas têm sido estudadas de forma estanque pelas ciências sociais e a Ecologia, mas precisamos ter abordagens integradas (Alberti et al. 2003). Na realidade, não existe essa dicotomia e a dimensão dos problemas e suas soluções passam necessariamente por juntar a Ecologia (em todos seus níveis hierárquicos) com a Sociobiodiversidade nos ambientes urbanos e rurais.
Apesar do avanço nas últimas décadas da Ecologia como ciência, como relatado neste texto, e do destaque e respeitabilidade internacional que a produção científica em Ecologia feita por brasileiros alcançou, ainda vivemos em uma sociedade que, principalmente os setores que produzem alterações nas paisagens em larga escala, como indústrias e agronegócio, ignora o conhecimento e usa de forma inadequada os recursos naturais gerando prejuízos que são coletivos e benefícios que são para poucos. O que assistimos é mais uma vez o Mito Cassandra, que hoje em dia assola os pesquisadores (Grelle et al 2022), mas sempre foi a realidade dos povos originários e tradicionais no Brasil. Chegou a hora de juntar todos os saberes, deixar o Mito de Cassandra no passado, promover a justiça climática e fazer a melhor gestão socioambiental possível.
À despeito de o país estar vivendo, na última década, alguns de seus piores momentos políticos institucionais no debate ambiental, entre poderes instituídos e sociedade, o Brasil segue sendo uma das maiores potencialidades mundiais para promover uma virada de chave e assumir a liderança de novas leituras e orientações sobre como enfrentar e contornar os dilemas ambientais, como o atual colapso climático em curso.
Referências:
Alberti M, Marzluff J, Schulenberger E, Bradley G, Ryan C, Zum brunnen C (2003). Integrating humans into ecology: opportunities and challenges for studying urban ecosystems. Bioscience 53:1169–1179.
Begon, M., and Townsend, C.R. (2023) Ecologia: de indivíduos a ecossistemas, 5a. ed. Editora Artmed, Porto Alegre. Blackwell Science, Oxford.
Grelle CEV, Brum FT, Dobrovolski R, Duarte L, Varassin IG (2022). Ecological science and the myth of cassandra in Brazil. Oecologia Australis 26: 1-6. https://doi.org/10.4257/oeco.2022.2601.01
Grelle, C.E.V., C. R. Vieira, G. R. Colli, W. E. Magnusson, A. A. Garda, G. Overbeck, H. G. Bergallo, A. Akama, L. Juen, J. A. F. Diniz-Filho, M. P. C. Telles, R. R. Silva, C. Rosa, D. J. Rodrigues, F. L. Mantelatto, G. W. Fernandes. (2025). Integrating biodiversity into climate policy: From ecosystem services to food security in Brazil. Zoologia (Curitiba) 42, e25079.
Laurance, W. et al. Averting biodiversity collapse in tropical forest protected areas. Nature 489, 290–294 (2012). https://doi.org/10.1038/nature11318
Ribeiro, S. V.; Vale, M. M.; Diniz-Filho, J. A. F.; Fernandes, G. W.; Reis, A.B.; & Grelle, C. E. V. (2022). Heading back into the perfect storm: increasing risks for disease emergence in Brazil? Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. 55: e0640-2021.
Umbelino, B., Alves-Pinto, H. N., Vieira, M. V., & Viveiros Grelle, C. E. (2025). Indigenous land under attack and its consequences for biodiversity conservation. Tropical Conservation Science, 00, 00–00. Advance online publication. https://doi.org/10.1177/19400829251316799
Winck G. R., Rocha F. L., Cruz G. L. T., Andreazzi M. A., Bacellar A. E., Brum W., Bueno M. G., Costa A. P. L., Fernandes J., Fernandes-Ferreira H., Gentile R., Gonçalves-Oliveira J., Gonçalves M. C., Krempser E., Lacerda A. C. F., Lavocat M., Nascimento J. L., Oliveira R., Sampaio R, Andreazzi C. S., D’Andrea P.S. (2025). Panorama da Saúde Silvestre: Uma síntese de agentes zoonóticos em mamíferos silvestres no Brasil, com recomendações para tomadores de decisão no contexto da Uma só Saúde. IOC/ Fiocruz: Rio de Janeiro. 146 p. Acessado em: https://arca.fiocruz.br/items/bcd58575-f578-4706-afad-aae18d0a7f7c
Zaluar, M.T. Süssekind, F., Grelle, C.E.V. & Alves, M.A.S. (2025). Invasive marmosets and conservation of the biodiversity in the Brazilian Atlantic forest. Oecologia Australis 29(4):283–292.
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Valeria a pena os autores abordarem a necessidade de áreas naturais preservadas (de proteção integral) como parte de um mosaico que efetivamente promoção a conservação da biodiversidade.