O uso indiscriminado de antibióticos, que é responsável pelo surgimento das superbactérias, se parece, mais do que gostaríamos, com a forma como o Estado brasileiro insiste em tratar o crime ambiental organizado: uma guerra perdida de antemão quando se responde a um fenômeno complexo com remédios simples, atrasados e em dose errada.
Quando um paciente recebe antibiótico para uma infecção de garganta, interrompe o tratamento ou guarda “para depois”, ele não está apenas se automedicando, está treinando bactérias para sobreviver. A resistência antimicrobiana surge nesse descompasso entre a potência das drogas e a inteligência evolutiva dos micro-organismos, que se adaptam, mutam e se tornam superbactérias imunes às terapias que antes funcionavam. Algo semelhante ocorre quando governos respondem ao crime ambiental organizado de forma fragmentada, realizando complexas operações de campo focadas em apreensões e destruições, todavia, sem atacar os fluxos financeiros, logísticos e políticos, que sustentam esses grupos.
Assim como um antibiótico mal prescrito elimina bactérias “bobas” e deixa vivas as mais resistentes, operações isoladas tendem a afetar apenas a base visível do crime, enquanto as organizações mais adaptadas, com apoio econômico e político, se reconfiguram rapidamente e voltam a operar.
No campo da saúde, caminhamos para a criação de bactérias cada vez mais resistentes e no ambiental não é diferente, já que a criminalidade organizada possui caráter transnacional e figura entre as atividades ilícitas mais lucrativas do mundo, perdendo apenas para mercados tradicionais como drogas e armas, o que a transforma na “superbactéria” do crime: rentável, adaptável e bem mais à frente do que os anticorpos institucionais disponíveis.
O aparelho de fiscalização do Estado criado para combater um crime simples e oportunista do passado, hoje, enfrenta criminosos nacionais e internacionais, com alta capacidade de infiltração dentro do próprio Estado, fortemente armados, instalados em áreas de difícil acesso, misturados a populações vulneráveis e operando em verdadeiras zonas cinzentas de soberania. Essa realidade ensina uma lição que ainda não foi assimilada pelo Estado: somente uma sistêmica é capaz de combater a criminalidade organizada.
Esses grupos, que combinam garimpo ilegal, desmatamento, grilagem, lavagem de dinheiro e até narcotráfico, se comportam como superbactérias: aproveitam cada brecha regulatória, cada fraqueza institucional e cada “dose errada” de repressão para se fortalecer. A criminalidade ambiental organizada floresce na combinação entre fiscalização frágil, conivência local, corrupção, ausência de alternativas econômicas e interferência política sobre órgãos de controle. Nesse meio de cultura, organizações deixam de ser apenas garimpeiros ilegais e passam ao patamar de redes empresariais sofisticadas, com advogados, doleiros, laranjas e braços armados.
O fortalecimento dessas organizações transformou o ambiente operacional e tornou insuficientes os métodos tradicionais de resposta estatal, exigindo uma reconfiguração estratégica capaz de enfrentar um fenômeno classificado como guerra irregular, assimétrica e de baixa intensidade. Não basta responder com mais operações de curta duração, assim como não basta receitar “um antibiótico mais forte” diante de uma superbactéria: é preciso mudar a lógica, não apenas a dosagem.
Nesse contexto, o IBAMA, tido outrora como “padrão ouro” de tratamento para o crime ambiental, remédio historicamente confiável, de princípio ativo potente, não consegue mais combater o crime da mesma forma, já que tem sido aplicado isoladamente e em doses diminutas e foi também perdendo sua eficácia, logo, é possível concluir que o Brasil contraiu uma superbactéria ambiental, está com uma febre alta e o antibiótico não possui mais eficácia.
Se a medicina ensina que não se combatem superbactérias apenas com remédios mais fortes, mas com políticas de uso racional de antibióticos, vigilância, saneamento e educação, a política ambiental precisa aprender que não se enfrenta o crime ambiental organizado apenas com mais vontade. A fiscalização tem de deixar de ser apenas uma ação de choque e passar a integrar inteligência financeira, controle de cadeias produtivas, monitoramento em tempo real via satélite e cooperação internacional. Prevenção inclui ordenamento territorial, alternativas econômicas para comunidades dependentes do crime, regularização fundiária e fortalecimento de políticas de desenvolvimento sustentável. A vigilância exige a integração das instituições públicas, assim como de seus sistemas institucionais. Os crimes ambientais devem deixar de ser vistos somente como meras infrações e precisam ser vistos como uma bactéria resistente que exige tratamento sério e supervisionado.
A analogia entre antibióticos e IBAMA não serve apenas para ilustrar um problema; ela expõe uma responsabilidade incômoda. Assim como décadas de uso excessivo e descoordenação regulatória alimentaram o ciclo da resistência bacteriana, o Estado brasileiro tem alimentado, por ação e omissão, a resistência do crime ambiental organizado. Quando governos enfraquecem propositalmente órgãos como o IBAMA, desmontam as estruturas de comunicação e inteligência, desvalorizam a carreira ambiental, e normalizam discursos de hostilidade contra fiscais, reduzem as defesas do organismo social e favorecem uma seleção natural de organizações criminosas mais eficientes, discretas e resistentes.
O que se precisa é de um redesenho profundo da estratégia estatal, reconhecendo que estamos diante de uma guerra irregular em que o inimigo aprende rápido e se adapta melhor do que as estruturas estatais tradicionais. Persistir na lógica atual é equivalente a continuar o uso de um remédio até que o mesmo não funcione mais.
O Brasil vive atualmente uma febre alta causada pela infecção de uma “superbactéria ambiental” que prejudica florestas, rios, terras indígenas e unidades de conservação, infiltrando-se em prefeituras, assembleias, parlamentos e setores da economia formal. Nesta medicina ambiental, o Estado brasileiro deve escolher entre insistir na mesma receita ou assumir que o crime evoluiu e reconfigurar o Estado para que ele deixe, finalmente, de fabricar seus próprios inimigos.
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