Análises

Fábricas de natureza: por que a conservação da biodiversidade é essencial para planejar o uso do território?

Mais do que nunca, é necessário internalizar que a natureza é nossa principal tecnologia e a maior aliada no enfrentamento das mudanças climáticas

Nicholas Kaminski · Rafael Meirelles Sezerban ·
23 de abril de 2025

Florestas, campos, várzeas e demais ecossistemas naturais são verdadeiras fábricas essenciais para o desenvolvimento humano e territorial. São elas que produzem, diariamente, água limpa, ar puro, regulação climática, sequestro de carbono e outros serviços ambientais fundamentais, usufruídos por toda a sociedade. Esses ambientes formam a base da segurança econômica, social e climática — e, por isso, devem ser reconhecidos e valorizados como áreas produtivas.

Mais do que nunca, é necessário internalizar que a natureza é nossa principal tecnologia e a maior aliada no enfrentamento das mudanças climáticas. No entanto, para garantir um desenvolvimento pleno e a verdadeira resiliência frente a esse desafio global, é urgente uma atuação mais ampla, sistêmica e integrada ao território.

Sociedade civil, poder público e setor privado precisam compreender que a natureza não respeita fronteiras administrativas e está presente de forma interdependente no cotidiano de todos nós. É preciso inovar na gestão e propor modelos mais ousados, que considerem a vocação dos territórios e promovam soluções que conciliem conservação com prosperidade — especialmente, em regiões estratégicas como a Grande Reserva Mata Atlântica, um dos maiores remanescentes contínuos do bioma, com papel crucial para a segurança hídrica, climática e ecológica do sul e sudeste do Brasil.

No estado do Paraná, por exemplo, a SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental) atua diretamente na implementação de ações voltadas ao fortalecimento da gestão territorial, por meio de um contrato estabelecido com a Sanepar. Esse trabalho tem foco na região paranaense da Grande Reserva Mata Atlântica e na área de atuação do Programa Condomínio da Biodiversidade, promovendo a proteção dos mananciais e a conservação dos ecossistemas estratégicos para a qualidade de vida de milhões de pessoas.

Divulgação: SPVS

Um bom exemplo dessa urgência está no leste do estado. A região abriga um continuum de ambientes naturais de enorme relevância para a segurança climática, incluindo vastas áreas de Mata Atlântica e ecossistemas associados — serras, manguezais, florestas e campos. Essa paisagem natural conecta-se diretamente à metrópole de Curitiba e seus cerca de 3 milhões de habitantes, além de influenciar toda a dinâmica socioambiental do litoral paranaense.

O território carrega vocação para um desenvolvimento inovador e disruptivo, baseado na gestão territorial integrada e em soluções que valorizem os ativos naturais locais. Para isso, é preciso romper com a visão ultrapassada de que apenas o crescimento econômico imediato importa e reconhecer o valor estratégico da conservação na provisão de água, segurança hídrica, equilíbrio climático e bem-estar coletivo.

Essa não é uma ideia nova — e exemplos bem-sucedidos reforçam sua eficácia. Um dos casos mais emblemáticos é o de Nova York, que desde a década de 1980 realiza ações de conservação nos mananciais localizados a cerca de 200 km da cidade. Com essa estratégia, a água que abastece mais de 8 milhões de pessoas não precisa de tratamento convencional, sendo apenas clorada e fluoretada antes da distribuição. Isso gera economia para a empresa de abastecimento, qualidade para o consumidor e múltiplos benefícios à biodiversidade, ao clima e à sociedade.

No Paraná, merece destaque a atuação da Sanepar na proteção dos mananciais que abastecem Curitiba e em relação à necessidade de uma gestão territorial integrada. Trata-se de um passo importante rumo à consolidação de uma nova visão de desenvolvimento, capaz de produzir futuro com equilíbrio e inteligência. A companhia demonstra preocupação com o assunto não somente em Curitiba, mas em todos os municípios do estado onde atua, uma vez que o assunto é prerrogativa da Política de Sustentabilidade da Sanepar.

O caminho ainda é longo. Mas é, justamente, pela sua complexidade que ele precisa ser percorrido com ambição, visão estratégica e compromisso coletivo. Investir em natureza é investir em segurança, estabilidade e vida.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Nicholas Kaminski

    Coordenador de Projetos na Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental – SPVS.

Leia também

Colunas
13 de fevereiro de 2026

Perigos explícitos e dissimulados da má política ambiental do Brasil

pressões corporativas frequentemente distorcem processos democráticos, transformando interesses privados em decisões públicas formalmente legitimadas

Notícias
13 de fevereiro de 2026

Transparência falha: 40% dos dados ambientais não estavam acessíveis em 2025

Das informações ambientais disponibilizadas, 38% estavam em formato inadequado e 62% desatualizadas, mostra estudo do Observatório do Código Florestal e ICV

Análises
13 de fevereiro de 2026

O Carnaval é termômetro para medir nossos avanços no enfrentamento da crise climática

Os impactos da crise climática já são um problema do presente. Medidas políticas eficazes de prevenção aos eventos climáticos extremos não podem ser improvisadas às vésperas das festividades

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.