Análises

Para o financiamento climático chegar à margem

Aproximar poder público, iniciativa privada, instituições financeiras, organizações e lideranças locais será fundamental para transformar recursos em projetos

Luis Meyer ·
6 de outubro de 2026

A necessidade de ampliar os recursos destinados ao enfrentamento das mudanças climáticas já está colocada. O desafio agora é fazer com que esse dinheiro também encontre caminhos para chegar aos territórios, onde os impactos são sentidos e as soluções precisam ser implementadas para contribuir com a adaptação e proteção da sociedade.

Essa é uma das discussões que têm ganhado força nos cenários nacional e global e certamente guiará debates na COP 31, em novembro, na Turquia, assim como esteve presente na programação da São Paulo Climate Week. No painel “Como estamos financiando a adaptação climática”, do qual participei, Virgílio Viana, da Fundação Amazônia Sustentável, recorreu a uma imagem simples: estamos todos no mesmo barco e precisamos somar esforços para chegar à margem, independentemente da posição que ocupamos na embarcação.

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A metáfora ajuda a traduzir um desafio complexo. Governos, empresas, instituições financeiras, organizações da sociedade civil, filantropia e comunidades têm papéis e capacidades diferentes. Nenhum deles conseguirá responder sozinho à dimensão da crise climática.

O Brasil sabe construir relações, aproximar pessoas e formar redes. Essa capacidade, tão presente na nossa cultura, pode ser uma vantagem para colocar à mesma mesa quem dispõe dos recursos, quem conhece os problemas e quem pode implementar as soluções.

Isso é especialmente importante quando falamos de adaptação. Enchentes, inundações, deslizamentos de terra, secas, ondas de calor e incêndios acontecem em territórios específicos e atingem populações que entendem mais do que ninguém as suas próprias vulnerabilidades. Por isso, além de ampliar o financiamento, é necessário fortalecer a capacidade local de planejar, estruturar projetos e acessar os recursos disponíveis, mantendo as comunidades no centro das decisões.

As Soluções Baseadas na Natureza (SBN) ajudam a ilustrar esse desafio. Elas fazem uso de processos naturais para reduzir riscos climáticos e tornar as cidades mais resilientes. Embora ainda pequenos, há conhecimento e interesse crescentes sobre essas soluções, mas sua implementação em escala depende também de projetos tecnicamente estruturados e capazes de acessar financiamento.

É justamente nessa ponte que algumas iniciativas começam a atuar. A Incubadora de Projetos Solução Natureza, parceria da Fundação Grupo Boticário com a C40 Cities, por exemplo, oferece apoio técnico gratuito a municípios brasileiros para estruturar projetos urbanos com SBN e conectá-los a potenciais financiadores. Atualmente, são 29 projetos apoiados, com potencial de destinação de R$ 2,9 bilhões em recursos.

A iniciativa mostra como a filantropia pode contribuir nessa agenda. Além da aplicação direta de recursos, ela pode atuar de forma orquestradora, apoiando a estruturação de projetos, conectando atores e atraindo outras fontes de financiamento. A combinação com investimentos públicos, privados e filantropia amplia as possibilidades de escala.

A discussão sobre financiamento climático esteve novamente em evidência durante a Climate Week de Nova Iorque, em setembro. Entre os números bilionários de investimento, há uma pergunta que não pode ser perdida: quais caminhos estamos construindo para que os recursos cheguem a quem precisa transformar os territórios e melhorar a qualidade de vida de comunidades, especialmente as mais vulneráveis?

Parte da resposta está justamente na nossa capacidade de conexão. Aproximar poder público, iniciativa privada, instituições financeiras, filantropia, organizações da sociedade civil e lideranças locais será fundamental para transformar recursos em projetos e projetos em proteção para as pessoas. Se conseguirmos somar essas diferentes capacidades, aumentamos nossas chances de chegar à margem – e, principalmente, de fazer com que as comunidades possam, de fato, usufruir dos recursos destinados à adaptação climática.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Luis Meyer

    Diretor executivo da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza →

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