Análises

Paris, carbono e o novo padrão-ouro

Na prévia da Convenção do Clima as negociações avançam. O problema, como sempre, é o dinheiro.

Alfredo Sirkis ·
3 de setembro de 2015 · 6 anos atrás

A reunião preparatória da UNFCCC (Convenção do Clima da ONU), em Bonn, teoricamente a penúltima antes da conferência de Paris, é uma espécie de conferência do clima em miniatura. É uma seleção das mesmas pessoas num ambiente mais acessível e menos espalhado fisicamente. Desta vez ela não acontece no plenário do parlamento da finada Alemanha Ocidental, que teve sua capital nesta cidade. A reunião da ONU ocupa um recém-inaugurado, mas menos charmoso, centro de convenções.

Os assuntos estão sendo afunilados e há um clima (ah, o clima!) menos conflitivo do que o habitual. Várias das negociações paralelas que constituem a grande negociação parecem estar avançando, embora isso não tenha necessariamente a ver com o resultado final para o planeta. Todos já dão de barato que o acordo de Paris, com seu conjunto de INDCs – as metas de fato voluntárias dos países – ficará ainda bem aquém do necessário para limitar o aumento da temperatura média do planeta, neste século, a 2o C. Ressurge a discussão de que deveria ser 1,5o C. Concordo em gênero, número… e grau. Mas e aí?

Essa diferença, ou “the gap”, no jargão onuês, permanecerá, um pouco maior ou um pouco menor. Por mais o que boletim diário das ONGs, o ECO, exorte: “Paris não pode ficar no mínimo denominador comum!”, isso é exatamente o que sempre foi e continuará sendo o processo da UNFCCC. Na medida em que requer que todas as decisões sejam tomadas pelo consenso dos 196 governos ali representados, continuará sendo, por sua natureza, o mínimo denominador comum ou, para usar uma imagem dos anos 1960 de Che Guevara: “A velocidade da guerrilha é aquela do homem mais lento da tropa”.

Quem será o homem mais lento? O Canadá, de Steven Harper, um quase negacionista climático? A Austrália, de Tony Abott, que tem a mais alta emissão per capita e liquidou a taxa de carbono instituída pelos trabalhistas? A Arábia Saudita? A Rússia? Todos têm pronto seu discurso mostrando o muito que já fizeram em termos de mitigação de emissões de efeito estufa. No fundo, não é esse o ponto. Se a UNFCCC é, inevitavelmente, o mínimo denominador comum, é importante ele seja o mais alto possível, tornando o “gap” menos obeso.

A partir daí, pelos próximos cinco anos, se for aceita a sensata proposta dos “rachets”, revisões quinquenais de metas dos países, decisiva será a concertação voluntária de grupos de países, empresas, ONGs, os “clubes climáticos” dispostos a uma ação adicional e, sobretudo, – esse é o ponto vital – uma “Bretton Woods do baixo carbono”: a criação de mecanismos econômicos que movam os trilhões necessários para a transição rumo a economias limpas.

Nesse sentido, o ponto mais frágil do processo negociador é o ponto F: Finance. Ali predomina essa ilusão de que governos irão – porque moralmente constrangidos – passar recursos para outros governos por intermédio do Fundo Verde do Clima. Na melhor das hipóteses, esse fundo chegará em 2020 com US$ 100 bilhões anuais. Ninguém seriamente acredita que isso irá acontecer. E, mesmo que venha a acontecer, seria ridiculamente pouco! Só na transição energética é necessário US$ 1 trilhão de dólares por ano. O FVC aportaria para mitigação 5% disso (os outros 50 bi teriam que ir para adaptação, para o qual o fundo é melhor formatado, ainda que crucialmente lhe faltem os governos locais).

Então de onde virá o dinheiro? Dos governos? Os governos estão na lona, quase todos apresentam déficits e dívidas internas (e as vezes externas) consideráveis. O dinheiro do mundo está no sistema financeiro internacional: US$ 300 trilhões nos bancos de investimento, fundos de pensões e outros variados numa infinidade de aplicações que na sua imensa maioria guardam pouca relação com a economia real e tendem a multiplicar “bolhas” especulativas como aquela de 2008. A bolsa de Xangai, na sua penúltima queda, perdeu, em dois dias, US$ 3,5 trilhões!

É essa a questão crucial que não é discutida senão muito perifericamente nas conferências do clima. Não há impasse tecnológico para a transição para economias de baixo carbono, mas há um “buraco negro” de financiamento que evidentemente faz parte do mesmo quebra-cabeças político que mantém viva a pobreza extrema em boa parte do mundo. O primeiro passo para enfrentar esse impasse é reconhecer que que a emissão de carbono precisa ser taxada e que a sua redução, as ações de mitigação, constituem valor. Num mundo seriamente ameaçado de catástrofes climáticas inenarráveis, a redução de carbono terá de tornar-se o novo “padrão ouro”.

Veja aqui e aqui vídeos que postei sobre o tema.

Leia também
Negociação avança, mas texto pode crescer
Negociação do clima reinicia contra o relógio
Brasil pode aceitar meta de descarbonização

 

 

 

  • Alfredo Sirkis

    Jornalista, escritor e ambientalista e secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Leia também

Reportagens
19 de agosto de 2015

Brasil pode aceitar meta de descarbonização

Proposta de eliminar combustíveis fósseis neste século consta de rascunho da declaração sobre mudança climática que será apresentada nesta quinta-feira por Dilma Rousseff e Angela Merkel.

Reportagens
31 de agosto de 2015

Negociação do clima reinicia contra o relógio

Com metas quase todas na mesa, prazo apertado e nada resolvido, negociação para o acordo de Paris precisa avançar na substância.

Reportagens
3 de setembro de 2015

Negociação avança, mas texto pode crescer

Reunião preparatória para conferência de Paris termina nesta sexta-feira em Bonn com mais peças no lego do clima; Brasil enfrenta China e evita retrocesso

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta