Análises

Urina preta, ciguatera e outras intoxicações por ingestão de peixes selvagens

Além do esgotamento dos estoques pesqueiros, nos quais 90% já estão em sua capacidade máxima de exploração, há outros bons motivos para não consumir pescado selvagem

Marcelo Szpilman ·
3 de março de 2022

Como se já não bastassem dois bons motivos para se evitar o consumo da carne de algumas espécies de peixes selvagens capturados na natureza __ (1) esgotamento dos estoques pesqueiros, nos quais 90% do pescado selvagem comercial já estão em sua capacidade máxima de exploração, e (2) alto risco do consumo de pescado selvagem, onde boa parte está contaminada por metais pesados, como mercúrio, químicos de longa duração e contaminantes orgânicos persistentes __, episódios recentes de envenenamento resultante da ingestão da carne de peixe selvagem nos fazem lembrar que existe um terceiro bom motivo.

A maioria dos registros de complicações gastrointestinais após a ingestão da carne de peixe advém da contaminação secundária por bactérias devido à má conservação do pescado. No entanto, existem peixes que podem apresentar-se venenosos __ quando ingeridos causam problemas por conter toxinas na pele, músculos, vísceras ou gônadas __ e o preparo (cozimento) não costuma ser suficiente para aliviar as consequências, já que as toxinas são termoestáveis (resistentes à desnaturação por aquecimento). Em alguns casos a intoxicação pode ser fatal.

Alguns tipos mais conhecidos de ichthyosarcotoxismo, ou envenenamento por ingestão da carne de peixe, são descritos a seguir de forma resumida.

1 – Ciguatera – Envenenamento provocado pela ingestão da carne de alguns peixes tropicais que vivem em áreas de recife coralino, na qual o homem fecha a cadeia alimentar onde ocorre o bioacúmulo progressivo da neurotoxina. A cadeia começa com uma microalga bentônica que produz a gambiertoxina. Os peixes herbívoros ingerem a microalga junto com as algas das quais se alimentam e a gambiertoxina é convertida em ciguatoxina e acumulada em seus tecidos. Os peixes carnívoros se alimentam desses peixes herbívoros e a ciguatoxina é mais uma vez bioacumulada. Nesse processo, a medida em que se sobe na cadeia alimentar maior a quantidade de ciguatoxina acumulada. Assim, os grandes peixes carnívoros de que tanto gostamos, como badejos, cavalas, pargos, caranhas, vermelhos e xaréus, situados no topo da cadeia, terão maior quantidade bioacumulada e poderão, quando ingeridos, provocar a ciguatera, com diversos sintomas gastrointestinais e/ou neurológios.

2 – Escombrotoxina – Envenenamento provocado pela ingestão da carne de alguns peixes de grande valor comercial, como atuns, bonitos, cavalinhas, enchovas e sardinhas, que não foram corretamente conservados após sua captura. A escombrotoxina é formada pela histamina, na presença de agentes potencializadores de sua toxicidade, como a cadaverina e a putrescina, e se desenvolve na musculatura do peixe através da atividade bacteriana que a decompõe __ níveis perigosos da toxina podem ser produzidos em até seis horas após a morte do peixe mal conservado e provocar edema nos lábios, náuseas, vômitos, queixas gastrointestinais e dor de cabeça.

3 – Tetrodontoxina – Envenenamento provocado pela ingestão da carne de algumas espécies de baiacu. O veneno, que está contido no fígado, intestino, gônadas ou pele, dependendo da época do ano, pode provocar a morte bastante rápida por falência respiratória em até 15 minutos após a ingestão, na intoxicação grave __ o potente veneno bloqueador neuromuscular pode conduzir a vítima à paralisia de toda musculatura voluntária com o indivíduo consciente. Na intoxicação pequena a moderada, a tetrodontoxina pode provocar desde um leve formigamento na boca até a queda da pressão sanguínea, entorpecimento e dor de cabeça.

4 – Doença da urina preta ou doença de Haff – Envenenamento provocado pela ingestão da carne de alguns peixes carnívoros tropicais, como badejo e olho-de-boi, e alguns crustáceos que vivem em áreas de recife coralino, na qual, mais uma vez, o homem fecha a cadeia alimentar onde ocorre o bioacúmulo progressivo da palitoxina. Essa toxina está presente no muco da cavidade interna dos corais Zoanthus e Palythoa. Os crustáceos e peixes herbívoros que se alimentam desses zoantídeos são contaminados e contaminam os carnívoros de que deles se alimentam. Por mecanismos ainda não conhecidos, a toxicidade é potencializada no pescado que não foi corretamente conservado após sua captura. A palitoxina, sem cheiro ou sabor, provoca no paciente a rabdomiólise (ruptura do tecido muscular), que conduz à elevação dos níveis séricos de creatina fosfoquinase (CPK) na corrente sanguínea, o que causa o escurecimento da urina, rigidez súbita e dores musculares. Porém essas condições podem ser desencadeadas também por metais pesados, como arsênico, cádmio e chumbo, bioacumulados nos peixes.

É importante esclarecer que esse artigo não está propagando o não consumo de peixes, mas sim alertando para a necessidade do consumidor selecionar muito bem o pescado que irá consumir e sua área de procedência, de modo a evitar aqueles mal conservados, aqueles capturados em águas mais poluídas, os potencialmente mais tóxicos e, principalmente, as espécies mais ameaçadas de extinção.

Acesse o link abaixo para saber identificar quais espécies de pescado é melhor evitar e quais se pode consumir livremente.

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Marcelo Szpilman

    Biólogo marinho formado UFRJ, com Pós-graduação Executiva em Meio Ambiente pela COPPE/UFRJ

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Comentários 2

  1. EVERTON MIRANDA diz:

    Muito desapontado com a coluna. E aí faz o quê, não come proteína de peixe? Mata o pescador de fome? Será que não da pra fazer um uso sustentável (que é trivial em termos demográficos para peixes)? É preciso mesmo fugir da babilônia pra ter alguma esperança que ela se recupere? Não seria melhor a gente tentar reformar a babilônia? Repara que não comer pescado selvagem (infelizmente o autor não se deu nem ao trabalho de destrinchar entre marinhos e dulcícolas), não vai fazer com que o próprio pescado deixe de ingerir metal pesado. Se apartar da babilônia não resolve nada. Se apartar da babilônia é uma confissão de suicídio, uma confissão de que o uso sustentável, a coexistência, não é possível.

    Mais uma vez estamos apenas apresentando problemas ao invés das soluções. O nobre povo tupiniquim que há 500 anos habita Banânia espera mais de sua classe intelectual.

    Nós ambientalistas não conseguimos convencer a China a deixar de consumir chifre de rinoceronte até hoje, e estamos achando que vamos convencer os brasileiros a não comer peixe? Tá bom. =)


    1. Natalia diz:

      Percebi que o artigo apenas alerta quanto ao consumo de peixe, e destaca inclusive que ‘”…não está propagando o não consumo de peixes, mas sim alertando para a necessidade do consumidor selecionar muito bem o pescado que irá consumir..”. Mas também compreendo que as soluções para nossos problemas ainda estão longe de serem criativas e aplicadas (por diversos motivos). Existe também um grande paradoxo entre as questões ambientais que nos cercam e questões sociais básicas. Sabe-se que muitas comunidades pesqueiras apresentam insegurança alimentar, e é ali no mar que eles se salvam. Então realmente o alerta sobre os perigos de determinadas espécies é para uma classe específica, é para aqueles que conseguem discernir este tipo de informação e têm de fato escolha quanto a suas questões alimentares. De nenhuma maneira achei o artigo decepcionante, inclusive me pareceu extremamente importante, em especial porque são poucas as informações disponíveis sobre a doença de Haff e as outras toxinas. Mas sim, o artigo está de fato direcionado a um grupo minoritário, o qual pode optar por outras opções de pescado.