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O meio ambiente, da oligarquia à elite

Se não foi, o elogio da ministra Marina Silva à elite no Dia do Meio Ambiente bem que poderia ser o sinal de que o governo Lula quer mudar para melhor.

9 de junho de 2006 · 20 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

A ministra Marina Silva mostrou que tem coragem, ao falar de elite no Dia do Meio Ambiente. Cercando a palavra de adjetivos, como se para circular em Brasília ela precisasse de escolta, disse coisas que a cidade não ouvia desde que a sociologia saiu de moda no Palácio do Planalto. “A desgraça de um país não é a sua elite. É não tê-la”, discursou a ministra. Mas fez questão de esclarecer que se referia à “elite no sentido positivo”, a que “pensa estrategicamente” e é capaz de “aceitar projetos”, como os empresários Miguel Krigsner e Guilherme Leal, donos do Boticário e da Natura, que outro dia doaram US$ 1 milhão cada um ao programa de conservação da Amazônia.

Em outras palavras, a ministra falava da elite propriamente dita, que poderia dispensar tantas ressalvas, se estivesse em vigor no Brasil a definição que o economista americano Lester Thurow dissecou na década de 80 em longo artigo para a revista Atlantic Monthly. O truque, para Thurow, é jamais trocar elite por oligarquia. Elite, ele ensinou, é aquele punhado de pessoas que se trata pelo apelido de infância, casa-se entre si, ganha bastante dinheiro e manda muito no país”. A oligarquia também não passa à primeira vista de um punhado de pessoas que se trata pelo apelido de infância, casa-se entre si, ganha bastante dinheiro e manda muito no país. Mas, ao contrário da elite, ela não enxerga um palmo adiante de seus interesses imediatos.

A diferença entre elas é, portanto, que uma se acha na obrigação de cuidar do país. A outra acha que o país tem a obrigação de cuidar dela. A fronteira que as separa nem sempre é a do poder aquisitivo. A elite pode usar um relógio de plástico como se guardasse o Patek Philippe do avô para o neto, porque mantém a postura – ou a pose, como diriam seus desafetos – de quem veio para ficar pelo simples fato de que está aí há muito tempo. E a oligarquia em geral tem pressa, inclusive de enriquecer. A sociedade de cafeicultores que no século XIX devastou o Vale do Paraiba para adquirir títulos de nobreza, mandar os filhos estudarem na Europa, erigir palacetes afrancesados no Rio de Janeiro e animar os salões do Segundo Reinado estava brincando de elite, mas não passava de uma oligarquia escravocrata prestes a deixar para a posteridade seu vasto legado de ruínas.

Barões ladrões

Com o tempo, um oligarca mais ou menos saciado tende a cair na tentação de virar elite, como os pioneiros do capitalismo americano, que John Kenneth Galbraith, economista de elite, chamou de “barões ladrões”. É gente que fez fortuna pilhando vorazmente o patrimônio natural dos Estados Unidos, quando a maior parte de seu território era terra de ninguém. Há famílias ilustres que deitam raízes em assaltantes de trem. Mas um dia esses endinheirados se deixaram catequisar pelo marchand Joseph Duveen, que lhes empurrou pela goela abaixo as obras-primas do Renascimento italiano. Hoje suas coleções se espalham por alas inteiras dos grandes museus, conferindo a seus nomes um atestado póstumo de largueza aristocrática.

No Brasil a elite e a oligarquia andam tão misturadas porque o populismo está em voga. E ele não perde o hábito de confundi-las. Começa prometendo abolir a elite. Acaba instituindo sua própria oligarquia. A crise do mensalão no governo Lula é típica de uma oligarquia que chegou com apetite demais ao poder. E a desmoralização dos políticos, um sinal da falta que uma elite faz, como aliás lembrou a ministra Marina Silva. Ela abriu uma discussão que teria tudo para ir longe, se houvesse em Brasília outra pessoa interessada nesse tipo de conversa. Não havendo, que fique pelo menos registrada a grande novidade: para o Ministério do Meio Ambiente, elite, daqui para a frente, é quem não desmata, queima, enfeia e polui, seja ele pobre ou rico, patrão ou empregado, índio ou cara-pálida, fazendeiro ou sem-terra, industrial ou coletor de essências nativas no coração da selva. Parece simples. Mas não era bem assim que a política ambiental vinha funcionando na era Lula, agarrada ao princípio de que preservar a natureza tinha que ser, como todo o resto, um assunto para se acertar com aliados.

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