Colunas

A expulsão do paraíso, segundo Audubon

Nascido no Haiti, criado na França, John James Audubon chegou aos Estados Unidos com dezoito anos para ver o país encolher enquanto sua fronteira avançava.

4 de agosto de 2006 · 20 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

John James Audubon, o retratista das aves americanas, conheceu como ninguém os Estados Unidos em pleno crescimento. Desembarcou no país em 1803, o ano em que o governo Thomas Jefferson, comprando de Napoleão a Louisiana, escancarou a fronteira selvagem que ligou do Atlântico ao Pacífico o território americano. E o país estava pronto para tirar de uma vez por todas o Texas dos mexicanos em 1845, quando Audubon encerrava com uma viagem ao Missouri sua carreira de andarilho prodigioso, que tinha fama de estropiar em poucos dias de caminhada a montaria de quem o acompanhasse a cavalo.

Foi no Missouri que ele ouviu um mascate falar do verão em que atravessara por seis dias seguidos planícies atravancadas por manadas de bisões, que se afastavam placidamente de seu caminho para dar passagem ao carroção. “De fato”, escreveu Audubon, “é impossível descrever ou mesmo conceber as vastas multidões desses animais, que existem até hoje e pastam nessas pradarias quase oceânicas”. Foi assim que adivinhou o futuro dos bisões. Eles estavam condenados pela “matança inútil”.

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Tiro de canhão

A essa altura, ele era um veterano de estragos. No Ohio, conhecera “um cavalheiro que tinha uma boa serraria em frente a Rock Island” e se divertia matando “pobres gansos” à distância, com um “pequeno canhão pesadamente carregado com balas de rifle”. Disparava sempre ao amanhecer, no momento em que bichos começavam a arrumar as penas para decolar. Acertava “doze ou mais”gansos por tiro. E, como “essa guerra de extermínio não podia mesmo durar”, em poucas semanas os gansos sumiram. “A grande arma do poderoso moleiro” calou a boca, por falta de alvos para treinar pontaria.

No Kentucky, viu os pombos passageiros taparem o céu “como um eclipse” em seus vôos migratórios, formando colunas que iam de um horizonte a outro. Eram tantos que derrubavam árvores por excesso de peso, ao pousar para dormir. Cidades inteiras se preparavam para recepcioná-los nessas revoadas, com tochas, sarrafos, espingardas e panelas de enxofre, para sufocá-los no ar. Durante a carnificina, “ninguém se atrevia a entrar na linha da devastação”, conta Audubon em seu diário. Só no dia seguinte os caçadores catavam os mortos e feridos, “empilhados aos montes”. E em seguida os fazendeiros soltavam suas varas de porcos domésticos, para limpar as sobras. Os festivais do pombo passageiro duraram até a espécie se aninhar para sempre nas listas de extinção.

Em Bras d’Or, na costa do Labrador, Audubon encontrou baías “ladrilhadas por cabeças de bacalhau” num porto pesqueiro, onde 1.500 esqueletos de foca apodreciam ao relento, “enchendo o ar com seu cheiro num raio de meia milha”. A rapina de ovos nos ninhais de gansos selvagens era tamanha, que ele previu sua total exaustão “em menos de meio século, a menos que algum governo benigno intervenha para pôr um basta nesta destruição vergonhosa”.

Carabina nas mãos

E, nessa matéria, Audubon era insuspeito de sentimentalismo ambiental. Caçou muito pela vida afora. Menino, já caçava pássaros na França, para colecioná-los. Adulto, tocando sua fazenda no interior americano, inventou um método de desenhar os hábitos que via de relance como ornitólogo amador, espetando seus corpos ainda quentes como fios de arame e moldando-lhes os gestos que as aquarelas mantêm vivos até hoje. Famoso, sempre posou para a posteridade com uma carabina nas mãos.

Teve uma dessas biografias que só acontecem quando pessoas extraordinárias nascem em tempos de exceção. Filho natural de um capitão da marinha francesa que o abandonou em Santo Domingo quando a rebelião escrava de Toussaint Louverture criou o que agora se chama Haiti, cresceu na casa da madrasta na França revolucionária, vendo rolar cabeças quando o Terror caiu sobre Nantes com fúria redobrada pelo levante da Vendéia. Mudou-se para a América aos 18 anos, fugindo do alistamento para as guerras napoleônicas. Morreu célebre e demente, com sintomas que a medicina levaria muito tempo para diagnosticar como Alzeihmer. E acaba de ressuscitar num livraço, “John James Audubon, The Making of an American”, de Richard Rhode, que o retrata como uma rara testemunha da época que os Estados Unidos encolhiam como a expansão territorial.

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