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Cadê o patriarca do ambientalismo brasileiro?

Nada como o dia da Independência para lembrar que o Patriarca José Bonifácio tentou inaugurar com o Brasil a primeira política ambiental das Américas. E não conseguiu.

6 de setembro de 2006 · 20 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

Sete de Setembro, nesta coluna, é o Dia do Patriarca. Ele não figura nos palanques oficiais. E ultimanente o clima no Brasil não é mesmo de festa cívica. Mas não custa lembrar que este país já teve pelo menos um político do tamanho de José Bonifácio de Andrada e Silva. Com ele, a conservação da natureza pesssou muito perto das orelhas dos dois imperadores, na fundação do Estado nacional. E não pegou. Deve ser por isso, em respeito à tradição, que as autoridades não falam mais disso.

José Bonifácio já foi retratado como pioneiro de nosso fracasso ambiental pelo historiador José Augusto Pádua. E, há 28 anos, teve sua “Memória sobre a Pesca das Baleias e Extração do seu Azeite, com algumas reflexões a respeito de nossas pescarias” relançada numa edição que nem chegou às livrarias. É o texto de 1790 onde ele critica a fórmula de extermínio vigente das armações brasileiras, com a “prática perniciosa de matarem os baleotes de mama para assim arpoarem as mães com mais facilidade”. Atribuiu-lhes “tanto amor aos seus filhinhos” que, para não largá-los, elas entregam “igualmente a vida na ponta dos farpões”. Reconheceu que, pelos resultados, o método parecia “excelente”. Mas, “olhado de perto”, ao trocar duas gerações por uma presa, acabaria levando esse comércio “à ruina total”.

Professor e apóstolo

Inédito, portanto, o naturalista José Bonifácio não é. Mas os compêndios escolares afogaram sua biografia na ressaca da Independência, como se ele tivesse nascido aos 55 anos, aflorando de repente na junta de governo que arrebanhava deputados em São Paulo para discutir em Lisboa a transição do absolutismo português para a monarquia constitucional. José Bonifácio, na ocasião, acabava de voltar ao Brasil, depois de passar a maior parte da vida adulta na Europa.

Ele saíra de Santos, aos vinte anos, para estudar numa Coimbra que o governo de Pombal tinha virado pelo avesso, convertendo o decrépito centro de gargarejo escolástico numa universidade com laboratório, arboreto e salas de dissecação, onde se aprendia química, física, medicina e botânica. Na Escola Real de Minas, Geologia, Agricultura e Ciências Florestais, José Bonifácio pegou carona na reforma educacional de Domenico Vandelli, trazido da universidade de Pádua para ensinar que o atalho mais curto para o sucesso econômico não era queimar recursos naturais a torto e direito. Vandelli foi um autêntico animador cultural que, sem cruzar o Atlântico, desancava os estragos da colonização portuguesa no Brasil. Disse que ela avançava a ferro e fogo pelo território “despovoado e inculto”, destruindo “antiquíssimos bosques” e, com eles, árvores “desconhecidas dos botânicos”, presumivelmente “de muita utilidade”.

José Bonifácio virou seu apóstolo. Trouxe para o Brasil três décadas depois um currículo suntuoso, que se materializou em Portugal como reflorestamentos que ficaram de pé. Freqüentou os maiores centros de pesquisa numa Europa em plena ebulição científica. Pela intimidade com as ciências naturais, tinha mais lastro acadêmico que o advogado, fazendeiro, arquiteto, violinista e horticultor Thomas Jefferson, que assumira a presidência dos Estados Unidos na virada do século 19. No ocaso político, de sua casa na ilha de Paquetá, mais ou menos degredado nos cafundós da baía de Guanabara, ele ainda trocava cartas com Alexander von Humboldt, tentando convencê-lo a incluir o Brasil no programa de exploração que redescobriu a América. No resto do mundo, ele estava à frente de seu tempo. Aqui, talvez esteja até hoje.

Tinha planos para todos os gostos. Abolir a escravidão logo na Independência, para livrar as florestas do machado que os braços escravos empurravam sem parar pela mata adentro. “Se os senhores de engenho não tivessem uma multidão demasiada de escravos”, argumentava, “eles mesmos aproveitariam terras já abertas e livres de matos, que hoje jazem abandonadas como maninhas”. Quis revogar em 1823 as doações de terras por sesmarias, que estimulavam a agricultura predatória. Previu muita coisa. Por exemplo, que os desvios artificiais levariam os rios de São Paulo a inundar a cidade. Errou outras, como declarar “guerra contínua às formigas” e sugerir a introdução de camelos no semiárido nordestino ou de lhamas no planalto gaúcho. O país enterrou tudo junto no panteão das oportunidades perdidas.

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