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Manejo da fauna I

O aproveitamento sustentável da fauna e de seus produtos é uma forma eficiente de conservação da biodiversidade. E até a caça pode fazer parte da jogada.

30 de março de 2005 · 17 anos atrás
  • Marc Dourojeanni

    Consultor e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, Peru. Foi chefe da Divisão Ambiental do Banco Interam...

Os benefícios do manejo da fauna selvagem fazem parte um tema pouco conhecido no Brasil — um dos raríssimos países do mundo que, na prática, proíbe ou coíbe todas as formas de caça, exceto a caça para sustento das populações tradicionais e indígenas. Na realidade, a legislação federal não proíbe a caça, mas a opinião pública é tão contrária que no Brasil apenas subsiste a caça esportiva e, claro, a caça para sustento familiar. No entanto, onipresente no país é a caça furtiva, ou seja, a que viola a legislação e a técnica e que coloca em risco a sobrevivência das espécies. E mesmo a caça para sustento pode ser considerada uma ameaça, já que é realizada sem nenhum controle.

Pretende-se, nesta e nas próximas três colunas, desenvolver o tema do manejo da fauna e de suas alternativas, seus benefícios ecológicos, sociais e econômicos, além de abordar as opções para que, no Brasil – como acontece em outros países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento – o manejo da fauna selvagem permita conservar melhor a biodiversidade.

O manejo da fauna selvagem é o conjunto de técnicas que possibilita o aproveitamento da fauna não domesticada ou de seus produtos, de forma sustentável. Na verdade, no que concerne aos seus princípios, ele difere muito pouco do manejo da fauna domesticada, mais conhecida como pecuária. Similar correlação existe, também, entre o manejo florestal e a silvicultura. O primeiro se aplica às florestas nativas, como as da Amazônia ou da Mata Atlântica, e a segunda às florestas cultivadas com espécies domesticadas de eucalipto ou pinheiro, por exemplo.

O manejo da fauna selvagem se apóia na ecologia e, mais especificamente, na dinâmica das populações de espécies de alguma forma afetadas por ele. Outras ciências subsidiam o manejo da fauna, como a zoologia, a botânica, a etologia e a meteorologia. Além disso, as análises de dinâmica populacional e das inter-relações de uma certa espécie com os fatores limitantes de seu potencial biótico, ou da capacidade de reprodução e sobrevivência das espécies, fundamentam-se fortemente na matemática e, especialmente, na estatística. Ele ainda requer técnicas próprias da geografia, das ciências do solo e da medicina veterinária. Por exemplo, entre as primeiras, é feito uso freqüente do sensoriamento remoto para o estudo dos ecossistemas e para a contagem dos animais.

Trata-se de um pacote de técnicas quase tão antigas como a humanidade, embora tenha sido aprimorada em níveis de ciência aplicada nos séculos XIX e XX. Ainda que muito adiantada na Europa, especialmente na Alemanha (país em que o manejo da fauna alcançou seu nível mais sofisticado) são os Estados Unidos (EUA) os maiores especialistas no assunto. Há um século os americanos começaram a construir suas faculdades ou departamentos universitários que formam profissionais exclusivamente para manejar a fauna, entre graduados, mestres e doutores. Não se deve esquecer que essas técnicas tiveram aprimoramentos importantes no Canadá, África do Sul e Austrália.

Na América Latina, como na Europa, a prática sempre esteve associada à profissão do engenheiro florestal e, em menor grau, à veterinária e à biologia. A maioria das faculdades de engenharia florestal surgiram entre os anos 1950 e o final dos anos 1970. Essa é uma das razões pelas quais a profissão de especialista em manejo da fauna selvagem é pouco desenvolvida na América Latina. Ainda assim, existem por aqui alguns exemplos notáveis de manejo da fauna selvagem.

No mundo inteiro, esse tipo de manejo esteve administrativamente ligado ao setor florestal, habitat de grande parte da fauna. Em alguns países, como nos EUA, a prática tem sido administrada de modo independente, ainda que sempre com vínculo estreito com o setor florestal. Mais recentemente, em alguns países da América Latina, a gestão da fauna vem sendo absorvida pela nova e crescente área ambiental. Fora os peixes e outras espécies tipicamente aquáticas, é sempre difícil estabelecer uma linha divisória entre aquelas que devem ser administradas pelos setores pesqueiro e florestal. Alguns países optaram por criar essa linha com base no local em que as espécies se reproduzem. Por exemplo, as que se reproduzem na água pertencem ao setor pesqueiro, como no caso das baleias, dos golfinhos e dos peixes bois. E as que o fazem principalmente em terra, como os jacarés, as tartarugas, as focas ou as lontras e ariranhas, pertencem ao setor florestal. Em outros países aplica-se um critério puramente taxonômico, ficando os mamíferos, répteis e batráquios com o setor florestal. Ambas as opções são arbitrárias e a boa colaboração entre os setores é indispensável para uma gestão eficiente do recurso fauna.

Às vezes, o termo caça se confunde com o manejo da fauna selvagem. A caça, seja qual for sua finalidade, é apenas uma das opções de desfrute da fauna selvagem, implicando a morte do animal ou a sua captura. Ela é, sob determinadas circunstâncias, a culminação do processo de manejo da fauna selvagem embora não seja, sob nenhum conceito, seu equivalente. Voltando ao paralelo antes estabelecido entre o manejo da fauna e a pecuária, a caça equivale ao abate do gado. A colheita de penas e excremento das aves, de lã de vicunhas, ou de mel de abelhas selvagens, também pode ser a fase final do manejo da fauna, sem necessidade de matar o animal.

Não obstante o manejo ser geralmente feito para atingir um excedente populacional, que permita sua exploração sustentável, também se pratica manejo para outros fins, como para a conservação de espécies ameaçadas de extinção ou de ecossistemas onde, eventualmente, o crescimento excessivo de alguma população se converta em risco. Esse último caso tem acontecido com freqüência nos parques nacionais da África, onde vem sendo verificada a destruição da vegetação por elefantes. Finalmente, existe manejo para favorecer o turismo, em que no lugar de procurar excedentes coletáveis de exemplares da espécie, procura-se apenas facilitar a observação dos animais para o visitante.

Entre os exemplos de manejo da fauna mais antigos da América Latina estão o manejo das populações de aves guaneras (1) e de vicunhas, que datam desde a época das grandes culturas pré-hispânicas do Peru. O manejo dos pássaros alcançou uma grande sofisticação científica, com medição periódica das mudanças populacionais por métodos de contagem direta e por fotografias aéreas, além do controle da sanidade das populações, facilitação de formação dos ninhos, acompanhamento de predadores, medição do stock alimentar, colheita cuidadosa do guano, entre outras medidas. A exploração sustentável do guano das ilhas gerou centenas de bilhões de dólares e foi responsável por grande parte das divisas do Peru depois da sua independência, permitindo ao país alta rentabilidade econômica da agricultura costeira do país com o desenvolvimento de novas tecnologias para o campo. Nos anos 1970, a sobre-exploração da anchova fez cair a população das aves guaneras de 35 milhões a menos de 1,5 milhão, provocando o colapso da indústria baseada no manejo desses pássaros. Ainda que se mantenha o manejo das aves guaneras até o presente, sua população nunca recuperou os níveis históricos. O desastre sobreveio em conseqüência da falta de manejo sustentável da pesca, que estava em outro setor administrativo.

A história da vicunha teve um desenvolvimento melhor. Em meados dos anos 1960 essa valiosa espécie estava em processo de extinção devido à sua caça furtiva. Foi quando o Peru estabeleceu a Reserva Nacional de Pampa Galeras, com menos de 800 exemplares na sua área de influência. Depois de uma década, a população aumentou dez vezes mais, o que permitiu o início da fase de aproveitamento sustentável. Uma parcela do excedente populacional foi sacrificada e outra parte foi capturada e enviada a locais onde tinham sido extintas. Os estudos científicos na área demonstraram que, pelos hábitos da espécie e outros fatores do entorno, a captura, a tosquia e a relocalização não eram sempre econômica nem ecologicamente suficientes para manter a produtividade da espécie nem do ecossistema. Por isso, até hoje, o manejo da vicunha considera as três opções, segundo as circunstâncias. Com base na experiência de Pampa Galeras, a população peruana de vicunhas supera os 200 mil exemplares, manejados em diferentes localidades peruanas, em geral em cooperativas agrícolas ou de camponeses. Os programas de manejo da vicunha têm elevada taxa interna de retorno, maior que a de qualquer outra atividade agropecuária, inclusive a criação da alpaca, na puna dos Andes.

Muitos outros programas de manejo de fauna também foram bem sucedidos na América Latina sobre longos períodos de tempo, garantindo consideráveis benefícios econômicos e, simultaneamente, a conservação da espécie e da biota dos ecossistemas onde se pratica o manejo. Destacam-se o manejo da capivara em fazendas dos llanos da Venezuela, com excelente rentabilidade econômica; o manejo de primatas numa ilha do rio Amazonas, no Peru, para providenciar material para laboratórios de investigação médica e; o manejo de lobos marinhos no Uruguai.

No próximo artigo, vamos discutir as alternativas de manejo da fauna selvagem. Até lá.

1. As aves guaneras (Phalacrocorax, Sula, Pelecanus) produzem o guano, excremento, que se acumula nas ilhas e morros da Costa do Peru, formando enormes depósitos. O guano das ilhas é utilizado como fertilizante.

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