Fiquei aliviada quando abri a revista dominical de O Globo, no domingo retrasado. Reportagem de Fernanda Duarte, correspondente em Londres, conta que cresce no Reino Unido e na América do Norte o movimento contra a procriação. Enquanto isso, no Vaticano, o novo papa recrimina os anticoncepcionais – velha tese da Igreja, cujo método anticoncepcional preferido, pelo menos oficialmente, sempre foi a abstinência.
Obviamente, por questões culturais, religiosas e até biológicas, o movimento é polêmico e tem gerado revolta. Eu, que nunca senti vontade de engravidar, devorei o texto da revista com jeito e cara de quem encontrou sua tribo. Segundo as estatísticas do Censo Nacional de 2001, no Reino Unido, uma entre cinco mulheres britânicas aderiu a um movimento que anda ganhando força. No mundo ocidental, calcula-se que de 16% a 25% dos casais hoje não queiram mais ver berços e mamadeiras pela casa.
Por milhares de vezes, já tive vergonha de assumir em público que não sinto vontade de gerar um bebê. A “platéia” sempre reage mal e se algum imbecil fizer parte da roda, certamente vai fazer a seguinte pergunta: “Por que? Você não gosta de crianças?”. É constrangedor e irritante. Procriar virou uma imposição da sociedade. Optar por não ter filhos é quase um crime. Tanto é que num dos depoimentos publicados na reportagem, uma das sem-filhos entrevistada prefere não citar seu sobrenome. Cansou-se de ouvir gente chamando-a de egoísta quando diz que não pretende engravidar. A decisão foi tomada por ela e pelo marido, com quem está casada há sete anos.
Bom, além de achar que casais podem ser felizes sem filhos, acredito que a procriação do homem está absolutamente descontrolada e inteiramente voltada para a satisfação pessoal. Ao contrário dos outros animais, o homem há muito se reproduz mais para se auto-perpetuar do que perpetuar sua espécie. A produção de bebês faz parte de um processo natural da existência humana. Mas ele tem mais a ver com a nossa própria reprodução individual. O culto à hereditariedade impõe uma cegueira. Mal nos importamos com a extinção que ameaça milhares de exemplares da nossa raça. Nem com a superpopulação que afeta a qualidade de vida na Terra. Apenas queremos nossos filhos.
O cúmulo dessa situação contraditória acontece quando casais incapazes de gerar uma criança recorrem a milagres científicos para ter filhos. Desconsideram a possibilidade de uma adoção – que poderia ajudar a preservar um semelhante – e a situação de “lotação esgotada” na qual vivemos. Trigêmeos e quadrigêmeos estão aí para contar esta história. Eles são fabricados através de um processo induzido, à base de medicações e muita perseverança.
A coisa fica em no mínimo R$ 12.000. Além disso, as mulheres que engravidam através de tratamentos de fertilização têm, em média, 30% de chance de ter bebês gêmeos. Por outro lado, o número de crianças adotadas no Brasil caiu 19% em comparação à média anual no ano passado, de acordo com a Folha de S.Paulo. Em 2003, foram 5.654 casos, contra a média de 6.970 crianças adotadas por ano, de acordo com os tribunais de Justiça e as varas de Infância e Juventude de 14 dos 26 Estados brasileiros.
Hoje, a adoção é quase sempre a última opção, um prêmio de consolo para quem não conseguiu fabricar seus próprios clones.
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