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Homem primata, capitalista selvagem

Orangotangos, elefantes pigmeus, rinocerontes e leopardos vivem ao longo do rio Kinabatangan, na Malásia, onde reina o conflito entre preservação e devastação.

19 de setembro de 2005 · 20 anos atrás

A Malásia é um pequeno frankenstein ambiental, onde convivem excelentes exemplos de boas práticas de manejo com desmatamento e depredação desenfreadas. O rio Kinabatangan, em Sabah, Bornéu, é provavelmente o lugar da Malásia onde essas contradições são mais evidentes. Ali, degradação e esforços para preservar batem-se em um duelo cujo resultado servirá de indicativo do futuro das matas do país.

Os 560 quilômetros de extensão desse caudaloso rio provêem um riquíssimo habitat para uma variada gama de espécies, que inclui o elefante pigmeu, endêmico de Bornéu, o rinoceronte de Sumatra, a anta asiática, o leopardo, o orangotango e dez espécies diferentes de macacos. Nas suas águas nadam centenas de espécies de peixes e mamíferos, entre eles tubarões e golfinhos de água doce.

Apesar de sua clara importância como nicho ecológico, o Kinabatangan está seriamente ameaçado. Na parte superior de seu vale, o desmatamento e a substituição da flora nativa por plantações comerciais monocultoras têm provocado o assoreamento da parte baixa do rio. Nessa mesma região, onde as planícies inundáveis irrigam o habitat ideal para as espécies endêmicas de Bornéu, recentes desenvolvimentos econômicos têm crescentemente apertado a fauna em fragmentos de floresta, cujo isolamento e tamanho diminuto põem em risco sua viabilidade ecológica. Aqui, como na parte alta, a floresta começa a ser substituída pelos latifúndios monocultores de palmeiras oleaginosas.

Cada vez mais sitiada, ao percorrer suas rotas migratórias a fauna começa a invadir as fazendas que interrompem a continuidade da floresta. No caminho, refestelam-se nas plantações. A resposta é imediata. Não é incomum que macacos proboscis e orangotangos sejam abatidos a tiros por fazendeiros furiosos.

Com efeito, a situação é tão grave que muitos cientistas consideram o Kinabatangan como caso perdido. O pessimismo, contudo, não atinge a todos. Em 1999, à frente de um grupo de aguerridos ambientalistas, o WWF logrou convencer o Governo a proteger 27 mil hectares da parte baixa do rio, com um estatuto de preservação equivalente ao de uma APA brasileira. A nova Unidade de Conservação ficou divida em 9 fragmentos sem contigüidade física entre eles. Cada um protege uma faixa de 3 km a partir da margem do rio. Não parece viável.

Ainda assim, Eugene Tan acredita que é um começo de onde se poderá evoluir. Tan é filho do legendário Uncle Tan, que durante anos lutou quase sozinho pela preservação do Kinabatangan. Eugene dá continuidade aos ideiais do pai. Recebeu uma concessão do Governo para manter no fragmento número 6 do Santuário de Kinabatangan um acampamento rústico para turistas e pesquisadores. Para chegar até lá, a jornada é árdua. Em Sandakhan, o viajante pega um furgão misto de micrô-onibus. De lá, sacoleja algumas horas em estradas de terra até embarcar em um pequeno barco que o levará até o acampamento. No percurso fluvial, já é possível ver o que o Kinabatangan tem de fabuloso. Centenas de pássaros aninham-se em suas margens. Pequenos elefantes atravessam o rio a nado. Macacos proboscis, parecendo ter pulado para fora das páginas do “Vôo 714 para Sydney”, de Hergé, saltam de galho em galho. Em uma árvore mais alta duas espécies de calao, cujo bico evoca o tucano, perscrutam o horizonte.

Semana que vem eu concluo.

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