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Onça e gente: velho novo tema

Numa APA perto de Macapá, no Amapá, o aparecimento de carnívoros comendo animais domésticos coloca uma comunidade diante de um antigoo dilema: como conciliar os bichos com humanos.

4 de agosto de 2008 · 18 anos atrás
  • Peter G. Crawshaw Jr.

    Formado em Ciências Biológicas em 1977 pela Unisinos, RS, com mestrado e doutorado pela Universidade da Florida. Trabalhou no...

Problemas com grandes carnívoros matando animais domésticos como alimento e gerando insegurança em comunidades humanas ocorrem desde a pré-historia. E foram exatamente esses mesmos motivos que me trouxeram a Macapá, à convite de instituições ambientais locais, para tentar achar soluções para o conflito gerado em uma comunidade quilombola na Área de Proteção Ambiental do rio Curiaú, a menos de 20 km da capital do estado do Amapá.  

Desde as primeiras mensagens eletrônicas, se passou quase um ano desde que o problema caiu na mesa da bióloga Cláudia Silva, na forma de um cadáver de onça-parda (ou puma, ou sussuarana, ou onça-vermelha, ou onça-veadeira, etc), morta por membros da comunidade alegadamente pelo medo que ela chegasse a atacar um casal de idade, que mora sozinho. O animal, uma fêmea jovem, seguramente ainda não tinha um território próprio e nem reproduzido descendentes.

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Atores divergentes

A partir desse caso, começaram a se avolumar as reclamações da comunidade sobre animais domésticos mortos pelas onças, nesse caso, aparentemente por onças-pintadas (ou jaguar), a julgar pelo tamanho e idade das presas. Explicando melhor: onde as onças pardas e pintadas convivem, elas parecem dividir as presas pelo tamanho ou peso. As pardas raramente matam animais mais pesados que elas próprias, enquanto as pintadas chegam a atacar até mesmo touros adultos com mais de 600 kg – ou mais que seis vezes o próprio peso. Além das presas, elas parecem se segregar também quanto aos ambientes que ocupam, com as pintadas mais restritas a margens de rios e ambientes mais úmidos, e as pardas ocupando habitats mais secos.

A situação tem se complicado por entendimentos divergentes entre os atores envolvidos, tendo havido desde uma tentativa de procura dos responsáveis pela morte da parda, com uma retração compreensível por parte dos moradores locais, até o envolvimento de uma estudante local coletando informações e entrevistando os moradores.  

Na tarde do dia 26, participamos de uma reunião na sede da APA, em que estavam presentes cerca de umas 25 pessoas, representando a comunidade dos moradores, a maioria deles criadores de animais domésticos afetados pela predação, a SEMA, na figura do secretário do meio ambiente e de técnicos da secretaria, e o Ministério Público Estadual. Foi feita uma apresentação de PowerPoint sobre um programa de conservação da onça-pintada proposto para o Pantanal, originalmente apresentada no Congresso de Unidades de Conservação, realizado em junho de 2007.

Na apresentação oral, enfatizei as diferenças entre as situações encontradas nas fazendas do Pantanal, geralmente com mais de 10.000 ha e com grandes números de gado, e nas condições locais, com pequenas propriedades com número médio da cabeças de gado inferior a 100. Durante a apresentação, houve um dinâmico debate sobre o tema, em que várias alternativas e opiniões foram discutidas.  Uma das hipóteses aventadas por alguns membros da comunidade foi que essas onças não seriam naturais dessa área, uma vez que começaram a aparecer indícios delas apenas recentemente, de 3-4 anos para cá.

Possíveis explicações aventadas para esse aparecimento foram de que esses animais estariam sendo expulsos de áreas próximas por causa de cortes rasos em áreas de florestas comerciais de pinus, plantados para a produção de celulose por industrias do setor e adjacentes a matas nativas, ou por soltura de animais criados em cativeiro por particulares. Para estudar em maior detalhe a situação e avaliar melhor a dimensão do problema, foi proposto um programa de monitoramento local, com recursos provindos das diferentes instituições.

Esse programa irá utilizar métodos indiretos como armadilhas-fotográficas, pegadas, fezes e análise de restos de animais abatidos, para determinar quais espécies de felinos estão envolvidas, número de animais presentes na área, e o impacto econômico que essa depredação representa. Ao mesmo tempo, se trabalhará juntamente com os produtores, testando e identificando alternativas de manejo dos animais domésticos, em relação à eficiência e custo das diferentes medidas, que dificultem o acesso dos felinos a eles.  

O programa envolverá ainda aspectos de Educação Ambiental, dirigidos aos diferentes segmentos da comunidade, para orientar as pessoas (adultos e crianças) em como conviver com as onças de forma a evitar situações de risco. Foi alegado que essas medidas de precaução são análogas àquelas que todo morador de grandes cidades deve ter, em relação aos riscos que todos corremos, como acidentes de transito, assaltos, seqüestros, balas perdidas, etc. Estão sendo propostos também cursos diferenciados de capacitação, tanto para membros da Policia Ambiental, envolvendo até captura e contenção de felinos em casos emergenciais, como para pessoas que trabalhem em áreas afins, como biólogos, veterinários e técnicos de áreas agrícolas, para realizar perícias, identificando as diferentes características que permitem diferenciar animais abatidos pelas diferentes espécies de felinos.  

Ao final da reunião, pareceu haver um consenso de aprovação ao programa proposto, tendo sido agendada a elaboração de uma proposta concreta, por parte de técnicos da SEMA e do IEPA, estabelecendo os passos a serem tomados a curto, médio, e longo prazo.

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