
Tenho discutido bastante acerca do problema do carbono, geralmente voltado para a questão da emissão, em especial devido às queimadas e desmatamentos, que tanto combatemos. Mas um assunto que parece ainda mais distante, e menos comentado, é a questão do nosso consumo. Será que dá para neutralizar o carbono que ele gera? O consumo não seria nocivo se fosse “sustentável”, ou seja, se não prejudicasse as condições de vida no planeta. A compensação das emissões de carbono é a saída óbvia para o problema. Mas analisando essa direção, concluí que ela é impossível.
Com a calculadora ((o))eco, acabei de estimar minhas emissões de carbono. Apenas meu transporte rodoviário fica em 4,46 toneladas de carbono anuais. Para neutralizá-lo, deveria plantar 455 árvores, segundo essa conta.
Não sei qual é a base de cálculo para as árvores nessa calculadora, mas, considerando a forma mais adensada de se plantar árvores, que é um eucaliptal de espaçamento mínimo de 3 x 2 metros, concluo que tenho que arranjar 2.700 metros quadrados, todo ano, para colocar, de forma irrevogável, o carbono que despejo na atmosfera através apenas do uso do meu carro. Isso sem contar minha alimentação, consumo diverso e as viagens de avião, a trabalho ou de férias.
Que fique bem claro neste raciocínio que não estou falando apenas do sequestro de carbono, mas da manutenção desse carbono permanentemente, sem que retorne à atmosfera. Ou seja, a floresta não deve ser em nenhum momento suprimida.
Bom, vamos lá, falaram que preciso compensar minhas emissões, então vamos fazê-lo. De cara, preciso de área que não esteja coberta por florestas e que esteja apta ao plantio das minhas árvores compensadeiras.
Tudo bem, temos cerca de 1,5 bilhão de hectares agricultados no mundo, e mais de 3 bilhões de hectares de pastagens. Arrumemos área, consigo facilmente comprar áreas de pastagens pouco produtivas, no norte ou centro-oeste, para esse fim. E aí? Durmo de consciência limpa, sabendo que estou fazendo minha parte?
Ao contrário, durmo com a consciência ainda mais pesada.
E explico o porquê. Além de estar ciente da quantidade de carbono que despejei na atmosfera, acabei de condenar uma área, que antes era produtiva, a ser o depósito permanente do resíduo do meu consumo. Ou seja, meu lixão.
Certamente o petróleo é um recurso finito, mas a superfície agricultável da terra é mais limitada ainda, e se cada um fizer essa bela ação de compensar o carbono do seu consumo na forma de árvores, muito em breve não teremos onde produzir nosso alimento.
A população do planeta é de cerca de 7 bilhões de habitantes. Hoje, utilizamos per capita cerca de 2.200 m2 de área agricultada mais 5.000 m2 de pastagens (fonte: FAO Stat). Não é preciso pensar muito para ver quão insólita é a ideia de plantar árvores para fixar o carbono do nosso consumo.
Se todos tivessem meu padrão de consumo (e ele não é descabido), pelas minhas contas, em apenas 3 anos (!) não teríamos mais área nenhuma para produzir nosso alimento, mas apenas para o “lixo” plantado para compensar o nosso carbono.
A compensação como proponho, feita na forma de florestas nativas, bosques, áreas verdes de lazer, etc., não é útil? Claro que é. Precisamos urgentemente de mais áreas verdes para garantir a conservação das espécies nativas, preservar os rios, as paisagens, e de mais parques para nos aproximar da natureza, só para exemplificar metas desejáveis. Mas ao fazer isso, não consideremos resolvido o problema da fixação de carbono, nem tampouco de sustentabilidade (que é algo relacionado à produção e consumo).
Lembro a própria Gro Brundtland, que formulou o conceito de desenvolvimento sustentável. Ela afirma que abusam do conceito. O que existe é muito marketing em cima de medidas, no máximo, paliativas.
E aí, qual a solução? Não sei, mas esquivar-se de que ainda não temos nada concreto não nos tira da beira do precipício. A mim, parece ainda pior ver ambientalistas falando de árvores, sem admitir que estão vendendo placebo.
Leia também
Consciência neutralizada
Geoengenharia projeta soluções arriscadas para clima
Rock in Rio 2011 promete neutralizar emissões e reciclar
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Pesquisa revela bactéria de mamíferos em piolho de ave marinha
Achado inédito em ave migratória sugere novas rotas de circulação de patógenos entre oceanos e amplia lacunas sobre a ecologia de bactérias associadas a mamíferos →
Inscrições abertas para mestrado em Desenvolvimento Sustentável na UFRRJ
As inscrições para o Mestrado Profissional estão abertas e vão até o dia 24 de abril. Serão disponibilizadas 20 vagas e as aulas serão presenciais no Rio →
Qualidade da água na Mata Atlântica estagna e pontos com nível “bom” despencam
Relatório da SOS Mata Atlântica mostra piora discreta, mas persistente, nas águas do bioma. Também averiguou que nenhum rio apresentou qualidade ótima em 2025 →

Ol[a Gustavo. Acabo de ler teu artigo, quase 4 anos depois de publicado. E ele continua tão atual como quando você o escreveu. Parabéns! Inspirado – ou melhor, instigado por ele, estou fazendo o cálculo de quantos hectares de eucaliptus o Brasil deveria plantar anualmente, para compensar suas emissões.
Quando tiver um número, volto ao escrever.
Um abraço!
André