
Existe um clima de vandalismo no ar.
Era um sábado à tarde e caminhando pelas ruas de meu bairro em São Paulo, trovoadas me alertavam de que talvez não fora uma boa ideia sair sem guarda-chuva. Em janeiro, aprendi como nativo paulistano, as chuvas encharcam em segundos. Estava seguro que “ia cair o maior toró”, como convém dizer por aqui.
Mas a chuva veio tímida, pingaram só algumas gotas e nada do toró chegar. Notei que as pessoas não corriam para se esconder e olhavam para cima com expressão inquisitiva. Como eu, devem ter se perguntado, que verão é esse insuportavelmente quente e seco?
Trata-se de acordo com o Instituto Nacional de Metereologia (Inmet) da maior extensão de dias com temperaturas acima 30oC já registrados em sua série histórica (que remonta a 1960). O mesmo fenômeno foi captado pelo IAG da USP, cujos sensores registraram os recordes absolutos de altas temperaturas na capital. Puro vandalismo climático.
O gráfico abaixo, feito pela Folha de São Paulo, mostra os detalhes do inferno paulistano
Ouvir um cientista dizer que recordes de temperatura são resultados do aquecimento global soa tão politicamente incorreto quanto um comentarista na TV sustentar que a população apoia protestos violentos. Em ambos os casos, a verdade está em algum lugar ainda indefinido.
O alerta que volta a se repetir é: daqui para frente eventos climáticos como o observado no verão brasileiro se tornarão mais frequentes e mais intensos. Ou seja, confiar no clima que julgávamos conhecer já não parece sensato. Uma insegurança geral.
Ironicamente, nos mesmos dias de calor intenso e pouca chuva, ocupados em enquadrar os “vândalos”, políticos e grande mídia parecem não terem enxergado a gravidade da questão metereológica. O clima de insegurança no país quem instalou mesmo foi falta de chuvas em pleno verão.
Isso levou os reservatórios das hidrelétricas a níveis extremamente baixos e colocou na mesa a possibilidade de uma crise energética no país. Qual o resultado? Insegurança nos preços da energia, insegurança no suprimento e finalmente, insegurança política.
A escassez fez com que o Operador Nacional do Sistema (ONS) passasse a gerar, como nunca antes, energia com as termelétricas emergenciais. Nosso recorde mais novo é ter ultrapassado a barreira de 20% de energia gerada com combustíveis fósseis. Sim, os mesmos que causam o aquecimento sem precedente de nosso planeta e, quem sabe, este verão atípico.
A presidente Dilma prometeu energia barata, mas deve repassar o custo das termoelétricas aos eleitores. Talvez não haja solução. Se tiver apagão #nãotemreeleição e, claro, corre risco do #nãovaitercopa se tornar realidade. E olha que nem será culpa de vândalos terroristas black blocks.
A não ser que São Pedro seja enquadrado como tal carregando bradando #nãovaiterchuva lá do alto.
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