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A arte da conservação: tecendo caminhos para a coexistência

Independente da espécie foco do conflito, as percepções e as atitudes das pessoas envolvidas na dinâmica vão determinar a magnitude e a resolução dos problemas

29 de junho de 2021
  • DHN

    Grupo de Estudos e Pesquisa em Dimensões Humanas da Natureza

  • Francine Schulz

    Bióloga, especialista em Perícia Auditoria e Gestão Ambiental, mestre em Engenharia Civil - Gestão de Resíduos.

  • Claudia S. G. Martins

    Pesquisadora nas temáticas desertificação em áreas rurais e vulnerabilidade aos conflitos humanos-fauna silvestre, no semiárido brasileiro.

  • Ana C. Pont

    Bióloga, educadora socioambiental e estudante de Dimensões Humanas da Natureza.

  • Flávia de Campos Martins

    Bióloga, ecóloga e educadora, interessada nas Dimensões Humanas das relações com as aves do semiárido e com ecossistemas aquá...

  • Ana Pérola Drulla Brandão

    Médica-veterinária, epidemiologista, pesquisadora na Faculdade de Medicina da USP, consultora técnica do Ministério da Saúde ...

‘Khadi’ é um tecido manufaturado de algodão, seda ou lã. A fiação dessas fibras era feita em uma ‘charkhá’, uma roda rústica que se tornou uma peça comum em todas as casas da Índia rural a partir de 1918. Essa roda de fiar (‘charkhá’) era a materialização de uma revolução silenciosa e inexorável estimulada por Mahatma Gandhi, cuja motivação era a sua ideologia de autonomia (indivíduos) e independência (sociedade). Fiar e tecer eram o exercício de fortalecimento da confiança (indivíduo) e da governança (sociedade). O contexto era um país sob dominação britânica, no qual agricultores produziam matérias-primas (vendidas a preços muito baixos) para exportação, beneficiadas nas indústrias da matriz e exportadas para a Índia, voltando a matéria-prima à sua origem, mas agora na forma de tecidos ou roupas prontas que os agricultores não conseguiam pagar. Inspirados por Gandhi, os agricultores pobres passaram a aproveitar os quatro meses de estiagem para fabricar suas próprias roupas: uma espécie de tanga, mais ou menos longa, bem diferente das roupas ocidentais. Tudo isto foi recebido pelos ingleses como boicote aos seus produtos e gatilho para um conflito com a colônia.

Este episódio da história nos inspira a refletirmos sobre os conflitos que existem entre pessoas e animais silvestres, os chamados conflitos humano-fauna. Há soluções que possam mitigar ou prevenir danos causados pelos humanos à fauna? Quais são as vulnerabilidades das pessoas em contato direto com a fauna associada ao conflito (entre criador de cabras e onça, por exemplo)? Qual a importância do trabalho colaborativo entre entes da sociedade civil? É desejável e factível que as pessoas mais suscetíveis a conflitos com a fauna silvestre concebam sua metafórica roda de fiar, (‘charkhá’), e fabriquem seus “tecidos” (‘khadi’), ou seja, criem e implementem as práticas ajustadas à sua realidade e, nesse caso específico, ainda favoráveis à coexistência?

Conflitos entre pessoas e fauna silvestre referem-se a situações em que o comportamento de um animal silvestre representa uma ameaça direta e recorrente, real ou percebida, à segurança física do indivíduo ou da comunidade e seus modos de vida. Em resposta, normalmente há perseguição ou retaliação à espécie foco. Os conflitos entre humanos e fauna são numerosos, espalhados por todos os continentes e têm aumentado em frequência e em severidade. Isso se deve, em grande parte, ao crescimento populacional de nossa espécie e à expansão de áreas para o cultivo agrícola e rebanhos domésticos, culminando em perda e fragmentação de habitat. No entanto, as percepções de risco e dano estão associadas de forma direta ou indireta a uma série de variáveis sociais, culturais e psicológicas, variando entre os diferentes grupos de interesse (também chamados de grupos sociais, atores sociais ou stakeholders).

Diante dessas relações, muitas vezes conturbadas para ambas as partes, diversos programas de conservação têm investido tempo e recursos – financeiros e humanos – para estimular e aumentar a tolerância das pessoas que compartilham território com espécies consideradas “problemáticas”. Não que os bichos saibam ou se importem com o adjetivo, mas inconscientemente eles carregam o fardo e por vezes pagam com a própria vida pelos estigmas a eles atrelados. Vários exemplos bem-sucedidos de mitigação de conflitos humano-fauna são desenvolvidos e coordenados por organizações não governamentais (ONGs), instituições e departamentos de pesquisa geralmente vinculados às universidades. Citaremos aqui alguns exemplos para ilustrar esse esforço global para a conservação e redução de conflitos com a fauna, que beneficia tanto o humano quanta a fauna – até porque não podemos falar em coexistência e conservação sem considerar o estado de bem-estar social, sem considerar que muitas vezes a perda de uma cabra ou lavoura representa a perda de toda a renda familiar.

Os carnívoros são o grupo mais temido e perseguido devido aos seus hábitos alimentares: eles comem carne! Assim, a predação de animais criados para consumo humano caracteriza o maior conflito enfrentado por esses animais e pelos produtores. A depredação de rebanhos domésticos pelos carnívoros não é uma preferência destes, mas quando não está relacionada à idade do predador ou a algum aspecto físico que o desabilita para caçar, está relacionada à falta de presas naturais, que foram desaparecendo com o avanço das áreas utilizadas pelos humanos – seja para moradia, agricultura, indústria, mineração ou empreendimentos de geração de energia. Os majestosos e emblemáticos tigres de Bengala na Índia são um clássico exemplo deste tipo de interação. Lutando por sua conservação na natureza e convívio com os humanos, existem ONGs que: auxiliam nos burocráticos processos de indenização paga pelo governo a quem teve prejuízo causado por predação de rebanho doméstico, tornando o caminho mais fácil aos pequenos produtores rurais que têm sérias limitações sociais e econômicas; desenham olhos na parte traseira de animais do rebanho como forma de reduzir as predações; e, promovem o uso de máscaras nas costas de agricultores que adentram as florestas como forma de reduzir os ataques a pessoas. Ainda assim, as duas últimas táticas têm efetividade de tempo e ficam sujeitas a monitoramento, já que os tigres “percebem” e aprendem as estratégias que deixam de ser efetivas. Medidas simples, mas que tem se mostrado eficientes se aliadas à melhoria das práticas agropecuárias.

Em geral, onde existem pessoas existem também conflitos. Como esses conflitos entre gente e bicho são complexos, sem a presença de mediadores fica ainda mais difícil resolvê-los. Assumindo esse papel mediador, instituições conservacionistas têm liderado ações que minimizam as perdas das pessoas e facilitam a coexistência. Isso é feito, muitas vezes, encorajando mudanças no manejo das fazendas e dos rebanhos e envolvendo os fazendeiros e as comunidades locais nesse processo. Essas mudanças incluem, por exemplo,  evitar que os rebanhos adentrem as matas para dessedentação e pastejo; cercar os currais e instalar cercas elétricas; prender os rebanhos à noite; criar períodos específicos de montas e de nascimentos; inserir animais mais agressivos – como burros e búfalos – nos rebanhos domésticos; instalar luzes à noite nos currais; usar alarmes para espantar os predadores; ter cães de guarda de rebanhos; usar guizos em alguns animais dos rebanhos; fazer o acompanhamento dos rebanhos por pastores; construir currais anti-predadores; manter os rebanhos sempre vacinados e com acompanhamento veterinário periódico e separar fêmeas prenhas e filhotes recém nascidos dos demais animais do rebanho. 

Figura 1: Exemplo de curral anti-predação desenvolvido e construído de forma pioneira pelo Programa Amigos da Onça: Grandes Predadores e Sociobiodiversidade na Caatinga. Ao total, por enquanto, 18 chiqueiros, como são chamados na região, foram construídos com a participação efetiva das comunidades locais que também participaram de palestras sobre manejo de rebanhos e coexistência com as onças da Caatinga. Foto: Amigas da onça.

Embora quando falamos em conflitos com a fauna talvez os carnívoros sejam os primeiros que vêm à mente, existe uma série de outros grupos envolvidos em interações com humanos que podem ser consideradas negativas. Os grandes herbívoros, como os elefantes, são alvos de retaliação devido aos estragos que causam às lavouras e acidentes que resultam na perda de vidas humanas. Em Botswana, os moradores de zonas rurais são orientados a utilizar cercamento com tecidos impregnados com pimenta, assim como tijolos de pimenta ao redor de suas propriedades. Guias de campo são distribuídos para a comunidade, contendo instruções de como cultivar a sua própria pimenta para realizar estas intervenções.

Aves são mortas em retaliação ou preventivamente em áreas de plantação de milho e arroz ao redor do mundo. A herpetofauna, especialmente as serpentes, é morta pelo simples fato de existir e causar medo ou repulsa nas pessoas. A fauna aquática, como leões-marinhos, focas, lontras, ariranhas, baleias, botos, crocodilos, tartarugas, aves marinhas e os tubarões também “passam aperto” para coexistir com os humanos e suas redes de pesca e práticas de lazer na água. Além disso, o descarte inadequado de resíduos sólidos, como plásticos, também coloca em risco a vida destes grupos de animais. Projetos de mitigação dessas interações e aumento da tolerância, também têm sido desenvolvidos em diferentes países e comunidades, ou por se promoverem mudanças de comportamentos humanos ou por se promover a disposição a algum tipo e grau de perda, por exemplo. E novamente as instituições de pesquisa e de conservação constituem um papel fundamental para que o sucesso seja alcançado, gerando uma grande rede colaborativa internacional focada na coexistência humano-fauna. A própria IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) tem um grupo dedicado a essa temática, o Human-Wildlife Conflict Task Force, em português, Força Tarefa para os Conflitos-Humano-Fauna.

Alguns exemplos de medidas de mitigação de conflitos com carnívoros no Brasil incluem: o turismo de observação de onças-pintadas no Pantanal e na Amazônia (Onçafari e Mamirauá); o fomento por mudanças de manejo em grandes fazendas do Pantanal com financiamento dos proprietários ou com auxílio da organização internacional Panthera; a construção de currais anti-predação na Caatinga, trabalhando também a coexistência com as comunidades locais; a parceria entre organizações nacionais e internacionais e propriedades rurais adjacentes ao famoso Parque Nacional de Foz do Iguaçu, com indicações de manejo nas fazendas da área de entorno do parque.

No semiárido do nordeste brasileiro, cuja paisagem foi alterada pela irrigação em ampla escala para a implantação da fruticultura de exportação, as aves não são desejadas nas culturas, pois veem nos frutos menores uma fonte de alimento fácil. Psitacídeos como a periquitinha-da-Caatinga (Eupsittula cactorum) podem causar impacto, recebido pelos produtores como prejuízo, e para evitar sua aproximação, lonas são colocadas lateralmente às plantações, amenizando essa interação. Outro projeto para a conservação de aves na Caatinga tendo como foco a Arara-azul-de-Lear (Anodorhynchus leari), paga o prejuízo dos agricultores que têm as roças afetadas por essas aves

Já o renomado projeto TAMAR, voltado para tartarugas marinhas, qualifica e proporciona renda para pescadores e suas famílias através de artesanato e confecção de produtos para as famosas lojinhas das cidades onde o projeto tem suas bases. As populações humanas ajudam na proteção dos ninhos e deixam de os consumir, ou consomem com menor frequência, e são beneficiadas pela estrutura e apoio do TAMAR e seus parceiros. O projeto também gera emprego e renda para as populações, que acabam optando por conservar as tartarugas ao invés de consumi-las, vendê-las ou deixá-las morrer emaranhadas nas redes de pesca.

Figura 3: Exemplo de mitigação de conflito com aves, uso de uma lona na lateral de uma plantação de frutíferas no semiárido brasileiro para afastar psitacídeos como a periquitinha-da-Caatinga. Foto: Carlos Werles da Silva Lopes.

Mas, e as esferas governamentais? Onde elas estão e como atuam nesses cenários e nas investidas para a conservação? Elas existem e dão suporte para que as ações de conservação ocorram, porém, muitas vezes afetadas pela burocracia e falta de aporte de recursos financeiros, técnicos e humanos, necessitam de braços externos. De forma geral, se não fossem as intervenções e os projetos dessa rede colaborativa da conservação, as populações humanas não seriam assistidas e possivelmente as interações com a fauna resultariam em um declínio ainda maior das espécies e em um prejuízo maior às pessoas. Nesses projetos e processos o aporte financeiro da iniciativa privada tem sido fundamental.

Como ficariam as relações conflituosas entre fauna silvestre e as populações humanas se não fossem esses esforços? Seriam os governos, especialmente em países em desenvolvimento, repletos de problemas sociais e econômicos, capazes por si só de gerir esse desafio de conciliar desenvolvimento humano com a perpetuação da biodiversidade? Em um país continental como o Brasil, os órgãos ambientais e seus recursos humanos bastam para gerir, fiscalizar e proteger as áreas protegidas por lei, mas que estão à mercê de grandes e diversos interesses? Quem tem efetivamente feito a conservação da fauna? As espécies silvestres são realmente problemáticas ou somos nós o problema na coexistência? 

Independente da espécie foco do conflito, as percepções e as atitudes das pessoas envolvidas na dinâmica vão determinar a magnitude e a resolução dos problemas. Por isso, o olhar das dimensões humanas – que foca no comportamento humano – é fundamental durante a caminhada dos projetos de conservação e de mitigação de conflitos. Informação e educação para a conservação podem aumentar a tolerância das pessoas quando as percepções de risco e as ameaças envolvendo as espécies são reduzidas a números mais realistas do que os inicialmente percebidos pela comunidade, e também quando a vulnerabilidade dos rebanhos e das pessoas é reduzida pela melhoria das práticas de manejo. Cabe ressaltar ainda que os problemas com as espécies da fauna envolvem também conflitos entre diferentes grupos de interesses, inclusive entre os próprios especialistas da área da conservação.

Reduzir conflitos e promover a coexistência é sempre um desafio e as soluções não são simples e na maior parte das vezes não são replicáveis em contextos diferentes, mesmo que vizinhos. Porém, sem tentativas e sem erros, não chegaremos a cenários satisfatórios! A insistência em dividir e polarizar tudo – conservacionistas/pecuaristas, ambientalistas/mineradoras, governos/ONGs… só nos levará à extinção. 

Uma rede é um tecido por definição. A pergunta é: O que torna um tecido forte, precioso e bonito? Fios grossos amarrados com nós aleatórios e desiguais? Ou milhões de fios finíssimos entretecidos ao ponto de serem imperceptíveis? Cada vez mais faz-se necessária uma rede de colaboração envolvendo o maior número de grupos de interesse possível – desde esferas governamentais, sociedade civil, comunidade locais, parceiros da iniciativa privada, universidades, investidores, ONGs. Ou seja, envolver pessoas de diferentes esferas – em prol da biodiversidade, em prol da conservação, em prol de uma maior compreensão das nossas relações e nas interações com a fauna. Qual o seu lugar nesse tecido social? Você enfrenta conflitos de algum tipo com alguma espécie da fauna silvestre? Você estuda ou deseja colaborar com a mitigação, negociação e resolução desses conflitos? Você compartilha território com espécies silvestres e encontrou um ponto que concilia sua qualidade de vida e ainda permite que a fauna sobreviva e prospere? Se respondeu afirmativamente a pelo menos uma das perguntas, você já tem um lugar destacado no processo de coexistência humano-fauna. Se ainda não divulgou seu ‘khadi’ (tecido), faça-o o quanto antes. O Brasil e o Planeta precisam de multiplicar histórias propositivas e algumas plataformas estão disponíveis para as veicular. Lembre: os desafios para a coexistência são comuns, não precisa ‘fiá-los’ sozinho. Vamos ampliar essa rede!

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Comentários 1

  1. GASPAR diz:

    Um belo texto um bálsamo cheio de entusiasmo!