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A promessa verde do Norte e o saque mineral do Sul

Enquanto defendem energias limpas, países ricos impulsionam a exploração predatória de lítio e cobalto no Sul Global

17 de fevereiro de 2025 · 1 anos atrás
  • Guilherme Purvin

    Pós-doutorando junto ao Depto. de Geografia da FFLCH/USP, graduado em Direito e Letras pela USP. Doutor em Direito (USP). Membro da Academia Latino Americana de Direito Ambiental. Escritor.

Em setembro de 2024, a revista Quatro Cinco Um publicou um artigo intitulado “Precisamos de novas histórias sobre o clima”, de autoria de Rebecca Solnit.[1]  O texto propunha uma nova forma de contar o que acontece no planeta nestes tempos de emergência climática: se há coisas terríveis acontecendo, não poderíamos fechar os olhos para as maravilhas que ocorrem simultaneamente.

A frase que abre o texto é elucidativa: ela afirma que enfrentamos hoje uma “crise de narrativa”, em razão de histórias que nos estariam impedindo “de enxergar, acreditar ou agir em prol de mudanças”.

Talvez o artigo de Solnit apresente um quadro até certo ponto realista da situação: é preciso encerrar a era de “consumo despudorado de poucos com consequência para muitos”.  Para tanto, de acordo com a autora, impõe-se uma mudança de paradigma sobre os conceitos de riqueza, poder, alegria, tempo, espaço, natureza, bem-viver.

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De pleno acordo. São premissas relevantes e que exigem a redução de dramáticas desigualdades socioeconômicas e injustiça ambiental.

No entanto, o artigo deixa de lado uma questão crucial: a necessidade de uma radical mudança nos nossos padrões de consumo. Estaria a autora efetivamente procurando, como dizem David Kopenawa e Ailton Krenak, adiar o fim do mundo?

Mudança de padrões de consumo pressupõe a renúncia a um dos sonhos mais caros ao capitalismo estadunidense: o de cada membro da família ter seu próprio automóvel. Rebecca Solnit, porém, mostra estar preocupada em encontrar soluções ambientalmente adequadas para a manutenção desse padrão. Por isso, levanta a bandeira da substituição da matriz energética como o passo definitivo para que o planeta volte a viver: basta utilizar energia eólica, solar ou baterias de lítio-cobalto. Diz ela: “Vejo pessoas atacarem veementemente a mineração, sobretudo de lítio e cobalto, inevitável para a construção de uma infraestrutura de energia renovável. Aparentemente, as pessoas não têm ideia do impacto e da magnitude, muito maiores, de mineração de combustíveis fósseis, petróleo, gás e carvão”. [2]

A autora foi peremptória. Para ela, a construção de uma infraestrutura de energia renovável pressupõe uma inevitável extração de lítio e cobalto. Extração esta processada a milhares de quilômetros de distância do consumidor final, o usuário de automóveis e celulares. Para a democrática pensadora e feminista, portanto, os povos da Argentina, Brasil, Bolívia e Chile, onde se concentra o lítio, assim como a República Democrática do Congo, de onde é extraído o cobalto, deverão sujeitar-se a esse saque de minérios, que por sinal já ocorre há muito tempo. Com grave lesão ao meio ambiente e aos direitos humanos.

Pertinente, pois, iniciar o debate sobre o tema a partir da análise comparativa entre os países envolvidos no projeto de mudança de matriz energética e os EUA. Um bom começo de conversa é a análise do pano de fundo do documentário “Trilha Sonora para um Golpe de Estado”, lançado em 2024 e dirigido pelo belga Johan Grimonprez. O filme, candidato ao Oscar, explora a interseção entre música e política durante o processo de descolonização do Congo, focando nos eventos que antecederam o assassinato de Patrice Lumumba, o primeiro-ministro democraticamente eleito do país em 1961. O documentário destaca como músicos de jazz, como Louis Armstrong, foram utilizados como instrumentos de soft power pelos Estados Unidos, enquanto artistas como Max Roach e Abbey Lincoln protestaram contra as injustiças ocorridas. As imagens de arquivo e as performances musicais ilustram as complexas relações entre imperialismo e consumo, particularmente na África. Indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2025, o filme aborda, entre outros temas, a exploração de recursos naturais no Congo, destacando a extração do cobalto. Contextualiza como a riqueza mineral do país atraiu interesses estrangeiros e influenciou eventos políticos significativos.

É uma pena que a revista Quatro Cinco Um, que publicou o artigo, não tenha aprofundado minimamente esse debate, ao menos para expor o ponto de vista dos setores que se opõem à mineração de lítio e cobalto. Extração minerária, definitivamente, é por definição não-sustentável e a história da América Latina e da África nos oferecem milhares de exemplos de desrespeito aos direitos humanos e socioambientais pelo colonizador.


[1] Revista Quatro Cinco Um, edição n. 85. O artigo está disponível online: https://quatrocincoum.com.br/artigos/meio-ambiente/precisamos-de-novas-historias-sobre-o-clima/ (acesso em 11.12.2024)

[2] Idem.

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