Colunas

Conservar a Amazônia exige cuidar de quem vive nela

A conservação ambiental somente se sustenta no longo prazo quando também melhora a vida das populações que habitam os territórios

23 de outubro de 2026
  • Valcléia Lima

    Superintendente de Desenvolvimento Sustentável da Fundação Amazônia Sustentável (FAS). →

Quando se fala em conservação da Amazônia, ainda é comum imaginar uma floresta intocada e distante das pessoas, como se protegê-la significasse apenas fiscalizar atividades ilegais ou ampliar áreas protegidas. Essas ações são indispensáveis, claro, mas não são suficientes. 

Por que eu digo isso? Porque a conservação ambiental somente se sustenta no longo prazo quando também melhora a vida das populações que habitam os territórios. Com direitos garantidos, oportunidades de renda e qualidade de vida, essas populações encontram melhores condições para continuar protegendo seu patrimônio ambiental. 

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



São essas pessoas que cresceram ao lado das espécies nativas, que entendem os períodos de cheia e de seca, sentem primeiro as transformações do clima e reconhecem o valor ambiental, cultural e econômico de manter a floresta de pé. Por meio de seus conhecimentos e práticas produtivas, contribuem diretamente para a proteção de milhões de hectares. Manter a floresta de pé é manter as pessoas de pé junto dela. 

Em um estudo publicado em 2020 na Revista de Direito da Cidade, Luís Roberto Barroso e Patrícia Perrone Campos Mello analisam os limites dos modelos de desenvolvimento adotados na Amazônia. Os autores mostram que tanto a exploração econômica baseada na derrubada da floresta quanto a proteção ambiental desacompanhada de alternativas econômicas apresentam limitações para responder aos desafios sociais e ambientais da região. 

O estudo também chama atenção para a lógica econômica por trás do desmatamento, destacando a importância de oferecer alternativas concretas de renda, assistência técnica, acesso à tecnologia e aos mercados. Sem essas condições, a vulnerabilidade de pequenos  produtores e comunidades pode dificultar a construção de uma economia sustentável. 

Essa discussão se torna ainda mais importante quando observamos as condições de vida em muitas comunidades amazônicas, onde o acesso a direitos básicos, como saúde, educação, água potável, energia e conectividade, permanece um desafio. 

Para compreender a dimensão dessas dificuldades, basta observar a logística da região. Carauari, município do interior do Amazonas, está a aproximadamente 788 quilômetros de Manaus em linha reta. No entanto, o trajeto fluvial pode ultrapassar 1.400 quilômetros. Recentemente, foram necessárias cerca de 36 horas de lancha para acompanharmos uma ação no município. 

A comparação ajuda a dimensionar essa realidade: Lisboa, em Portugal, fica a quase 7 mil quilômetros de Manaus e pode ser alcançada em cerca de 11 a 12 horas de viagem aérea, com uma parada. Isso significa que, mesmo dentro do Amazonas, um deslocamento pode levar três vezes mais tempo do que uma viagem para outro continente.

Essas distâncias não são apenas geográficas. Representam custos mais elevados, dificuldades para transportar equipes e equipamentos, menor acesso a serviços públicos e barreiras para a continuidade dos projetos. Na Amazônia profunda, qualquer solução precisa considerar o  território como ele realmente é, e não como gostaríamos que fosse. 

Por isso, conservar exige capacidade permanente de reinvenção, sem abandonar os princípios que orientam a atuação socioambiental. E essa reinvenção começa pela escuta. 

Uma família que precisa passar dias viajando para conseguir atendimento médico enfrenta custos que afetam sua renda e sua segurança. Uma comunidade sem conectividade encontra mais  dificuldades para acessar políticas públicas, comercializar sua produção ou receber informações durante eventos climáticos extremos. A ausência de água potável compromete a saúde e o  desenvolvimento das atividades cotidianas. E é ouvindo a dinâmica de cada comunidade que se entende o seu contexto.  

Foi assim que surgiram iniciativas como o SUS na Floresta como parte de uma estratégia de conservação. 

Realizado pela Fundação Amazônia Sustentável em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o Fundo Vale e a Umane, com gestão da parceria pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, o projeto apoia a estruturação de um sistema de telessaúde integrado ao Sistema Único de Saúde em comunidades ribeirinhas do Amazonas. 

Ao aproximar profissionais e serviços de saúde das populações que vivem em áreas remotas, a telessaúde contribui para reduzir deslocamentos, ampliar o acesso à assistência e fortalecer a  presença das políticas públicas nos territórios. 

Essa experiência começou a ser construída durante a pandemia de Covid-19. Diante do isolamento e das dificuldades de circulação, foi necessário utilizar rádios, internet e os meios disponíveis para manter a comunicação com as comunidades e viabilizar orientações e  atendimentos a distância. Uma resposta emergencial ajudou a revelar uma solução que poderia ser estruturada e incorporada de forma permanente. 

Esse aprendizado mostra que inovação social não é sinônimo apenas de tecnologia. A tecnologia é uma ferramenta. A verdadeira inovação está na capacidade de articular parceiros, adaptar soluções às condições locais e reduzir desigualdades concretas. 

A floresta não será protegida exclusivamente por sistemas de monitoramento, leis ou mecanismos financeiros, embora todos sejam necessários. Sua conservação também depende de políticas públicas efetivas, oportunidades econômicas sustentáveis e do reconhecimento das populações tradicionais como protagonistas, detentoras de conhecimento e parceiras essenciais nessa construção.

Entre a essência e a reinvenção, nossa essência deve continuar sendo o respeito às pessoas e à floresta. A reinvenção está em encontrar caminhos para que ambas possam prosperar juntas.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
4 de setembro de 2026

Entre a fartura e a escassez, o dinheiro não compra o que a floresta deixou de produzir

Somos todos dependentes dos mesmos ciclos naturais. As mudanças que ameaçam os modos de vida e a produção dos povos da floresta e do campo também afetará quem mora na cidade →

Colunas
2 de julho de 2026

Quem nasceu primeiro: a ciência ou a ancestralidade?

Reconhecer os saberes tradicionais não é olhar para trás, mas compreender que uma sociobioeconomia justa e sustentável só se constrói quando ciência e ancestralidade caminham juntas →

Colunas
24 de março de 2026

Se nós os parimos, por que eles nos matam? 

Essa não é uma pergunta para as mulheres responderem sozinhas, porque a violência de gênero não pode continuar sendo tratada como uma pauta feminina →

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.