Colunas

COP 26, fracasso, sucesso e perspectiva da juventude

Na Escócia, o recado foi dado: não existe avanço climático sem um diálogo democrático, não é possível um sucesso na agenda do clima sem a garantia da defesa daqueles e daquelas que estão na linha de frente desta luta

19 de novembro de 2021
  • Giselli Cavalcanti

    Ativista climática, psicóloga ambiental e mobilizadora de campanhas na defesa de causas socioambientais.

  • Engajamundo

    Acreditamos que se mudarmos a nós mesmos, o nosso entorno e nos engajarmos politicamente, podemos transformar as nossas realidades

Mais uma COP chega ao fim. São mais de 26 anos de diálogos internacionais na tentativa de fazer a agenda climática avançar. Nos últimos anos ainda, surge a demanda urgente de que as discussões climáticas não sejam apenas sobre aspectos técnicos, mas que tragam para o centro das discussões o aspecto humano – Afinal, a crise climática afeta pessoas. 

Em um debate sobre o futuro da humanidade, o aspecto geracional não pode ficar de fora. Nesse sentido, as juventudes chegaram para ocupar um lugar de protagonismo e para mostrar que não é sobre uma realidade distante que estamos falando: A crise climática é um desafio do presente e precisamos pensar em soluções agora. 

Com o encerramento da COP 26, qual o balanço que temos? Dizer que foi uma conferência sublime certamente é exagerar e dar crédito demais a um evento que não chegou nem perto do que é necessário. Mas podemos dizer que tivemos avanços importantes? Sim, podemos. Esta COP trouxe sucessos que precisam ser reconhecidos: o livro de regras do Acordo de Paris foi, enfim, finalizado e o texto final de Glasgow reforça a necessidade e o compromisso internacional na redução de gases do efeito estufa – mas a meta de ficar abaixo dos 1.5ºC ainda está distante. A COP 26 – e os líderes globais que nela tiveram papel – não reflete, então, a urgência que a ciência traz com tanta transparência. 

Foto: Engajamundo

O Brasil atuou em Glasgow com um objetivo específico: levar uma imagem de abertura ao diálogo e de cooperação internacional, de casos de sucesso na agenda ambiental e de alinhamento com as demandas do povo brasileiro. A imagem, falsa e esvaziada de sentido, não se sustenta, e faz com que o país saia dessa COP com pouco sucesso. 

Do lado da sociedade civil, entretanto, outro Brasil e, ainda, outra COP, são erguidos em paralelo. Por mais que os espaços de negociação e os centros de tomada de decisões não estivessem abertos à participação cívica como deveriam, a voz das pessoas, dos povos tradicionais e das juventudes ecoou, e o reflexo no panorama geral da Conferência foi sentido. Enquanto os líderes mundiais adiam decisões importantes para serem tomadas apenas daqui a um ano, na COP 27, a sociedade civil global clamou por urgência, ambição e justiça – e cria caminhos para serem construídas. 

Na Escócia, o recado foi dado: não existe avanço climático sem um diálogo democrático, não é possível um sucesso na agenda do clima sem a garantia da defesa daqueles e daquelas que estão na linha de frente desta luta. Justiça climática é justiça social – e é isto que precisamos, cotidianamente, levar para todos os espaços de discussão. 

Foto: Engajamundo
Protesto da juventude “de olho” nas negociações. Foto: Engajamundo

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

Leia também

Notícias
19 de novembro de 2021

Governo tenta minimizar dados do desmatamento ao comparar erroneamente sistemas do INPE

Ministério do Meio Ambiente compara dados do Deter com o Prodes e diz que há uma tendência de queda em curso. INPE não recomenda comparação entre os sistemas

Análises
19 de novembro de 2021

Laboratório em alto-mar: os veleiros científicos e a produção de conhecimento sobre o oceano

O veleiro Tara já realizou 12 expedições científicas e parte agora numa missão para estudar os ainda pouco conhecidos microrganismos marinhos

Análises
19 de novembro de 2021

Grande Reserva Mata Atlântica: um exemplo prático em resposta às demandas da COP 26

Com 2,2 milhões de hectares, distribuídos entre Santa Catarina, Paraná e São Paulo a Grande Reserva da Mata Atlântica é uma iniciativa de conservação e produção de natureza

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta