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Esforços em busca da ecologização do jornalismo brasileiro: um breve retrospecto

Infelizmente, passados 20 anos de sua criação, a disciplina de Jornalismo Ambiental não foi agregada na grade curricular como obrigatória, sendo também restrita a disponibilidade dos professores com interesse na área

13 de julho de 2023 · 3 anos atrás
  • Clara Aguiar

    Estudante de Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS

  • Eloisa Beling Loose

    Professora e pesquisadora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), integrante do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS) e coordenadora do Laboratório de Comunicação Climática (CNPq/UFRGS). Doutora em Comunicação pela UFRGS e doutora em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela UFPR (Universidade Federal do Paraná).

  • Ilza Maria Tourinho Girardi

    Professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fundadora e líder do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (CNPq/UFRGS).

O jornalismo possui o papel central de informar, contextualizar e conscientizar a população sobre a crise socioambiental, entendendo-a como uma das grandes preocupações do nosso tempo. Contudo, a questão ambiental nem sempre foi (ou ainda é) percebida dessa forma pelo campo jornalístico.

No Brasil, a discussão sobre os efeitos negativos da ação humana no meio ambiente começou a ser abordada em matérias e reportagens a partir dos anos 1970 e 1980, graças à repercussão das demandas trazidas pelos movimentos ambientalistas que emergiam no país. Na época, atos em defesa da preservação da Floresta Amazônica e dos direitos dos povos originários despertaram a atenção para questões atreladas à degradação da natureza e à justiça ambiental.

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Exemplos emblemáticos foram os empates organizados pelo seringueiro, sindicalista e ativista ambiental Chico Mendes, que mobilizava a comunidade de Xapuri (AC) a fazer barreiras com o próprio corpo para impedir a derrubada de árvores por madeireiros e pecuaristas na Amazônia, e os protestos protagonizados pelo líder indígena e escritor Ailton Krenak, como quando pintou o rosto com tinta de jenipapo enquanto discursava reivindicando políticas públicas para os povos indígenas no Plenário do Congresso Nacional. Diante da efervescência de uma pauta complexa e transversal, percebeu-se a necessidade de formar profissionais capacitados e sensibilizados para realizar a cobertura jornalística de acontecimentos envolvendo problemas ambientais.

Nesse contexto, seminários sobre a cobertura jornalística ambiental começaram a ser realizados com o objetivo de expandir o debate acerca da responsabilidade do jornalismo em fornecer informação qualificada sobre a diversidade de problemas socioambientais, como a poluição, o desmatamento, a perda da biodiversidade e o aquecimento global, contribuindo com o desenvolvimento de uma consciência ambiental na sociedade. Um desses exemplos foi o promovido pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em Brasília (DF), em 1989, voltado a jornalistas que cobririam a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1992. A Rio-92, como ficou conhecida, reuniu milhares de jornalistas e foi um marco na consolidação do jornalismo ambiental como especialização da área.

Impulsionando a imprensa a pautar os problemas  ambientais com maior  frequência e a qualificar seus profissionais, esse seminário preparatório da Fenaj e a Rio-92 resultaram na criação de núcleos voltados para a interface entre jornalismo e meio ambiente em alguns estados. Atualmente, apenas o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ-RS), criado em 1990, está em atividade. Desde o seu surgimento, o NEJ-RS teve como principal missão contribuir com a qualificação profissional e inserir a pauta ambiental na rotina produtiva das redações dos jornais, passando a defender a importância de internalizar o conhecimento ambiental ainda nas faculdades com a inclusão da disciplina de Jornalismo Ambiental nos cursos de Jornalismo.

A implementação da primeira disciplina de Jornalismo Ambiental na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico-UFRGS), em 2003, também representa um avanço. Em seguida, o jornalista e professor André Trigueiro, inspirado nesse plano de ensino, criou a disciplina na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO).

A consequência imediata da criação da disciplina foi o interesse de estudantes em analisar abordagens jornalísticas sobre as pautas ambientais em seus trabalhos de conclusão de curso. Em 2007, o NEJ-RS, com o apoio da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental e da UFRGS, organizou a I Mostra Científica em Jornalismo Ambiental em Porto Alegre, no âmbito do 2º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental (o 1º foi em Santos, em 2005). Os trabalhos apresentados analisavam a cobertura jornalística sobre agrotóxicos, transgênicos, plantio de eucaliptos, entre outros, o que evidenciou o engajamento de pesquisadores na área de jornalismo ambiental brasileiro.

No ano seguinte, houve a formação do Grupo de Pesquisa Jornalismo Ambiental (GPJA) com o objetivo de fomentar a realização de estudos que venham a contribuir com a constituição de um referencial teórico para o Jornalismo Ambiental e incorporar um novo olhar ao jornalismo, contemplando a sustentabilidade da vida no Planeta, a solidariedade, a justiça social e a construção da paz. Este ano completa-se 15 anos de atividades ininterruptas do GPJA, com ações de ensino, extensão e pesquisa.

A introdução desse olhar no curso de Jornalismo da UFRGS foi essencial para incentivar a produção de materiais voltados à formação de jornalistas e estudantes de Jornalismo, tendo em vista que a aproximação com a área ambiental se torna inevitável diante da emergência climática. Alguns resultados desse esforço se materializaram nas publicações “Jornalismo Ambiental: teoria e prática”, livro idealizado por pesquisadores do GPJA e que apresenta diferentes óticas de como o jornalismo pode favorecer um outro entendimento dos temas ambientais, mais crítico e contextualizado; e o “Minimanual para a cobertura jornalística das mudanças climáticas”, elaborado em parceria com o Grupo de Pesquisa Estudos de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), visando oferecer subsídios para uma cobertura mais qualificada a jornalistas e estudantes de jornalismo sobre a cobertura das mudanças climáticas.

O GPJA coordena, desde 2019, o Observatório de Jornalismo Ambiental, projeto de extensão que tem como proposta publicar sistematicamente análises a respeito de como a imprensa tem retratado as questões da área, a partir de notícias, reportagens ou coberturas específicas, evidenciando aspectos positivos e caminhos possíveis para alterar o que, de alguma maneira, não contribui para a conscientização da problemática ambiental. É o único observatório especializado na cobertura ambiental no Brasil.

A nova iniciativa é esta interlocução com o público do site ((o))eco, especializado em meio ambiente, a fim de expandir ainda mais os debates que se originam na academia. A partir desta coluna coletiva busca-se avançar no diálogo com a sociedade sobre as implicações da cobertura ambiental.

É preciso pontuar que, apesar das conquistas, passados 20 anos da criação da disciplina de Jornalismo Ambiental, ela não se tornou obrigatória nos cursos de graduação, sendo restrita à disponibilidade dos professores com interesse na área. Tal limitação pode ser explicada porque o meio ambiente por muito tempo foi desassociado de outros fenômenos sociais, reflexo da separação entre humanidade e natureza que persiste no imaginário social. Ainda que essa visão tenha dificultado a transversalização do tema, trata-se do início de um processo de ecologização do currículo e, consequentemente, do fazer jornalístico.

Ressalta-se que a importância do Jornalismo Ambiental se dá por meio de seu comprometimento com a formação, com a produção de conhecimentos e com a orientação de caminhos que possam ser seguidos na busca por uma cobertura jornalística que compreenda a pauta ambiental em sua totalidade, isto é, com um olhar sistêmico que leve em consideração seus aspectos sociais, políticos e econômicos. E, sobretudo, pelo seu entendimento de que a atividade jornalística é uma prática social que tem o potencial educativo de não apenas informar, mas também de transformar a maneira como as pessoas pensam e se relacionam com o meio ambiente. Mais do que enfatizar uma área de especialização, busca-se espraiar essa perspectiva para todo o fazer jornalístico.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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Comentários 1

  1. MARCO ANTONIO ARAUJO MARTINS diz:

    Tudo louvável, até que chega uma facção corrupta da esquerda e “patrocina”os profissionai$ da comunicação , a mostrarem apenas o lado conveniente à causa dos cupanheros. Aqui mais um exemplo; o dinheiro é mais fácil de ganhar e o juramento e ética profissional (voces nem sabem mais o que é isso).