Todo começo de ano as notícias sobre eventos climáticos extremos tomam as mídias e o início de 2026 não foi diferente. Dá pra dizer que foi mais um mês comum no calendário do colapso climático mundial, mas para quem está lendo os sinais foi um alerta urgente. Em diferentes continentes, eventos extremos revelaram, mais uma vez, que estamos vivendo a crise climática em tempo real e que a resposta global precisa ser real, imediata e justa.
Na África Austral, inundações devastadoras atingiram países como Moçambique, África do Sul, Zimbábue e Essuatíni, deixando centenas de vidas perdidas e incontáveis outras pessoas desabrigadas. Em alguns lugares do continente, regiões inteiras foram submersas após chuvas intensas em poucos dias, um fenômeno amplificado pelo aquecimento dos oceanos e pela presença do padrão climático La Niña, que intensifica extremos. Especialistas indicam que eventos de chuva extrema como esses se tornaram muito mais prováveis e mais intensos devido ao aquecimento global causado pelas emissões de gases do efeito estufa ampliadas pelo modo de vida humano. Aqui no Brasil tivemos fortes chuvas também, mas chuva por aqui já virou notícia velha, então ninguém fala mais como antes, a não ser que seja uma catástrofe como foi o Rio Grande do Sul.
Ao mesmo tempo, tempestades severas e chuvas torrenciais castigaram partes da Europa, incluindo França, Portugal, Espanha e Grécia, com inundações e deslizamentos de terra. A tempestade Kristin matou pelo menos três pessoas e deixou mais de 800.000 moradores do centro e norte de Portugal sem eletricidade. No outro lado do mundo, tempestades na Nova Zelândia causaram deslizamentos de terra após precipitações recordes em diversas localidades da Ilha Norte, até esse momento com 6 pessoas desaparecidas.
E não foi apenas chuva. Na América do Norte, a forte tempestade de inverno de janeiro de 2026 trouxe neve recorde, ventos fortes e gelo pesado em grande parte dos Estados Unidos e Canadá, interrompendo voos e deixando milhões sem energia. Ao vivo víamos árvores colapsar pelo frio extremo. Na América do Sul, ainda em janeiro, incêndios florestais no centro-sul do Chile consumiram dezenas de milhares de hectares, forçando mais de 50 mil pessoas a evacuarem e matando dezenas de outras.
O que todos esses episódios têm em comum não é apenas a sua magnitude geográfica, mas os desafios socioeconômicos que se somam a tudo isso. A verdade é que daqui pra frente não temos mais que pensar em janeiro apenas como o mês de pagar o IPVA, IPTU e material escolar. Talvez as famílias agora precisem planejar se reconstruir, se refazer todos os anos se estiverem vivendo em zonas de risco.
O diagnóstico é claro, e o prazo para resposta é curto: medidas drásticas de mitigação, redução rápida das emissões de carbono e políticas robustas de adaptação são urgentes, não opcionais. Ações climáticas que considerem justiça social, apoio às populações vulneráveis e resiliência de ecossistemas devem estar no centro das políticas públicas e privadas.
Esses eventos intensos acontecem em lugares geograficamente distantes, mas suas causas são profundamente interdependentes. O planeta não respeita fronteiras políticas: a queima de combustíveis fósseis em um país influencia padrões climáticos no outro; as emissões acumuladas em décadas afetam a circulação atmosférica global; as decisões de política energética em um continente reverberam em vidas e ecossistemas do outro lado do mundo.
Essa interdependência planetária exige que pensemos a crise climática como um desafio coletivo e integrado. Uma onda de calor ou um evento de chuva extrema em um país é parte de um mesmo sistema climático global desequilibrado e, portanto, parte de uma responsabilidade compartilhada.
Essa conexão entre causas e efeitos deve se traduzir em políticas públicas concretas. No Brasil, por exemplo, como destaca a matéria de O Eco, o Observatório do Clima enviou ao governo federal um conjunto de recomendações, propondo medidas como uma transição energética estruturada e imediata no Brasil, com a criação de um cronograma para encerrar novos leilões de petróleo e manter apenas os poços já em operação, além da definição de zonas de exclusão para a expansão da exploração, como a Margem Equatorial. O plano também propõe otimizar a geração hidrelétrica sem novos reservatórios, integrando fontes como a solar fotovoltaica, descarbonizar o transporte rodoviário de cargas por meio de combustíveis limpos e eletrificação, reformular o portfólio da Petrobras para ampliar investimentos em energias renováveis e abandonar a lógica de “explorar para financiar” a transição. Como medidas de governança, prevê a publicação de um plano de descomissionamento de poços em fim de vida útil, com responsabilidades claramente definidas, e a criação de uma Autoridade de Implementação do Mapa do Caminho, responsável por monitorar prazos, metas e entregas.
Esses múltiplos extremos climáticos de janeiro de 2026 não são coincidências. Eles refletem um sistema climático que responde a décadas de emissões acumuladas e escolhas políticas que priorizaram crescimento econômico de curto prazo sobre equilíbrio climático. A ciência já mostrou que um planeta mais quente retém mais vapor d’água, intensificando chuvas e secas, e que ondas de calor e eventos extremos tornam-se mais frequentes e severos à medida que as concentrações de gases de efeito estufa aumentam.
Diante disso, a resposta global precisa ser drástica, imediata e justa. Mitigação – com corte real de emissões de carbono – deve caminhar lado a lado com políticas de adaptação que protejam as comunidades mais vulneráveis, garantindo acesso à água, infraestrutura resistente e sistemas de alerta precoces.
Passar por esses eventos extremos como se fossem “acidentes climáticos” é um erro histórico. É preciso caráter de urgência, ações estruturadas e um compromisso global que vá além de promessas vagas.
O planeta demonstrou em menos de 30 dias que não respeita fronteiras e que o tempo de agir é agora, com ambição, justiça e responsabilização coletiva.
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