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O que você levaria se tivesse que abandonar sua casa em 1 minuto?

Migração forçada por causa de fatores climáticos serão cada vez mais frequentes e atingirão mais pessoas. É preciso focar em políticas públicas para mitigar seus impactos

26 de janeiro de 2022
  • Engajamundo

    Acreditamos que se mudarmos a nós mesmos, o nosso entorno e nos engajarmos politicamente, podemos transformar as nossas realidades

  • Estela Catunda Sanseverino

    Formada em Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo (EACH-USP) e Articuladora Nacional da organização Engajamundo

  • Luiza Lisboa

    Jovem ativista climática e atualmente articuladora nacional do Engajamundo.

O que você levaria se tivesse que abandonar sua casa em 1 minuto, pois ela está na rota de um furacão ou de um rio que transbordou e não há mais o que fazer além de evacuar o local às pressas? Essa é uma pergunta que quem não mora em área de risco prefere não pensar, mas deveria: Eventos extremos são característicos da crise climática e serão cada vez mais frequentes, como observam os moradores da Bahia, Tocantins e Minas Gerais neste primeiro mês do ano, atingidos por chuvas torrenciais que causaram perdas humanas e materiais e que obrigaram os muitos a abandonar suas casas.

A migração por causa de fatores climáticos, como enchentes, pode ser classificada como uma migração forçada temporária ou permanente e seus atingidos são chamados de refugiados ambientais ou refugiados do clima. Apesar de todos sentirem as consequências das mudanças climáticas, a intensidade com que cada um é atingido é diferente, sendo as populações pobres as mais atingidas e as que menos têm capacidade de se recuperar após as perdas materiais. Isso ocorre porque a vulnerabilidade ambiental está relacionada com a vulnerabilidade social, o que nos leva a ver que quem menos contribui com a crise climática é quem mais sofre com ela.

Joana Gabriela Coutinho Soares, articuladora da organização Engajamundo e moradora da zona periférica de Salvador, havia nos contado no início de 2021 sobre como as mudanças climáticas afetam sua realidade. Na ocasião, Joana relatou que a rua de sua casa sempre encheu durante o período de chuva. Entretanto, com o passar dos anos, as enchentes foram piorando: “Recordo-me na minha infância de ser acordada aos gritos várias vezes pois a casa estava enchendo e precisávamos colocar as coisas no alto para não molhar, também precisávamos arranjar um “abrigo” no alto onde pudéssemos ficar até a água baixar”.

Joana afirma que apesar de desenvolverem mecanismos para impedir com que a chuva entre em sua casa, cada ano ela vem mais forte e acaba não sendo suficiente, “uns três anos atrás, choveu tanto que transbordou a chapa e a casa encheu muito, perdemos muita coisa, sofá, mesa, cadeiras, o fogão, geladeira, tudo boiava. Lembro da pia da cozinha completamente coberta daquela água de esgoto, lembro de ver toda sorte de bicho de esgoto boiando. Minha avó tomou desgosto pela casa e foi morar com minha tia, nunca mais quis voltar lá. Minha irmã e um tio meu desenvolveram uma doença de pele”, conta.

Ubaíra, na Bahia, após a chuva. Foto: Valdianne Dias Teixeira.

Para além dos bens materiais, há o impacto social sobre a perda da memória simbólica dos atingidos com o local. Valdianne Dias Teixeira, moradora de Ubaíra e servidora pública, relata que sua cidade se localiza no Vale do Jiquiriça, assim, ela se formou, basicamente, no leito do rio onde se encontram as residências e comércios. Valdianne conta que no dia 25 de dezembro de 2021 chegou a notícia que haviam famílias atingidas pelas chuvas. Ela, juntamente com o Padre Natael, organizaram um grupo de pessoas para irem até o local acolher os atingidos. “O cenário era desesperador, árvores rasgando ao meio, o barulho da água estava muito próximo de nós. Não andávamos, corríamos sob a chuva. Até então não tinha como imaginar o que realmente ocorria, uma vez que estávamos sem energia. Postes caindo, árvores sendo arrancadas pela raiz e a tristeza de ver nossa história sendo levada pela força da água”, narra. “Só quando chegamos na paróquia da Matriz tivemos noção do que realmente estava acontecendo. Ouvíamos gritos, choros de tristeza e desespero ante o barulho das casas. Uma dor que se estendia em cada um que estava ali. Abraços de apoio, pessoas desorientados e apenas com a roupa do corpo, as quais estavam repleta de lama fedida. Até hoje penso ter sido um pesadelo, algo inexplicável”, narra Valdianne. Apesar do auxílio de entidades, governo estadual e municipal, os quais já estão se providenciando diante as perdas residenciais e dos comércios, há parte das perdas que não se consegue reparar.

Se preparando para o pior

A marca onde ficou a água. Foto: Valdianne Dias Teixeira.

Durante o final de novembro e início de dezembro de 2021, o Engajamundo fez um ciclo de formações para jovens no âmbito do projeto “Clima com Outros Olhos”. Lá, os participantes discutiram com especialistas temas pouco debatidos da crise climática que afetam nosso dia a dia e um deles foi sobre a questão da migração climática e do deslocamento humano. No início da palestra, ministrada pela Prof. Dra. Carolina Claro, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, foi feito um pequeno, porém impactante, exercício, que repetimos no início desse texto. No exercício, enquanto um cronômetro na tela fazia a contagem regressiva de um minuto, as participantes tinham que pensar no que levariam caso tivessem que deixar seus lares naquele exato momento devido a algum desastre. Muitas respostas foram dadas, desde “celular”, “computador”, “fotos”, até “comida”, “documentos” e “família”. Este último foi lembrado por poucos e, segundo relatos da professora sobre experiências passadas, muitas vezes é completamente esquecido; outros itens essenciais como água sequer foram lembrados.

O ponto dessa atividade foi ter uma mínima noção da dificuldade que muitas pessoas encontram quando têm que abandonar suas casas repentinamente e sem preparação alguma. Com o aumento da instabilidade climática, cenas como essas provavelmente serão cada vez mais comuns e mais pessoas, em geral as mais vulneráveis e com menor condição de se recompor após um evento desses, serão atingidas. Só em 2021, o Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno (IMDC na sigla em inglês) registrou 350.000 deslocamentos internos no Brasil devido a desastres. Dentro desse número também é sempre necessário lembrar que existem grupos mais vulneráveis a esses eventos, idosos, crianças e pessoas com deficiência que possam ter uma dificuldade maior de deixar suas casas em situações de emergência e enfrentar as dificuldades subsequentes. Outro recorte importante a ser feito é o de gênero, uma vez que as mulheres são, em geral, as responsáveis pelos cuidados desses familiares vulneráveis e pela manutenção do lar em geral.

É importante toda a mobilização que está sendo feita para remediar os danos sofridos por famílias no sul da Bahia, Minas Gerais, Tocantins, e outros estados atingidos pelas chuvas de verão, mas também é necessário fazer planos preventivos que possam evitar ou minimizar essas perdas. Nesse sentido, podemos falar do fortalecimento de órgãos como a defesa civil, o mapeamento de áreas de risco e a elaboração de planos de resiliência climática em diferentes escalas da esfera pública. Um exemplo positivo pôde ser visto na cidade de Santos, em São Paulo, na última semana, onde foi lançado o “Dia de Adaptação e Resiliência Urbana Santista”. A prefeitura da cidade, em parceria com a agência de cooperação alemã Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ), apresentou o Plano de Ação Climática de Santos (PACS), com 50 metas a serem cumpridas entre 2025 e 2050; e o caso prático de adaptação baseada em ecossistemas (AbE) de Monte Serrat, em que foram elaborados planos de reflorestamento de espécies da mata atlântica para a diminuição de deslizamentos na área, com o auxílio de moradores locais em sua implementação A migração nunca é uma escolha e sim um ato de sobrevivência. A crise ambiental é uma questão do agora que precisa ser urgentemente debatida. Estamos sentindo suas consequências e vamos sentir cada vez mais. É preciso dar destaque e a devida importância a esse assunto, incluir mais pessoas na luta pela redução da crise climática que, nada mais é, luta por suas vidas também.

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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Comentários 1

  1. VALDIANNE DIAS TEIXEIRA diz:

    Agradeço imensamente pela oportunidade de sermos ouvidos. Contudo, as fotos foram feitas por outras pessoas que colocaram em grupos da cidade, como minha prima, Fabriíia Dias Almeida, e meu primo, Karlo Dias, da Agência LK. cujo acesso virtual pode ser efetuado através do link: https://instagram.com/agencialk?utm_medium=copy_link