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Prioridade para os pequenos agricultores

Por que precisamos olhar para a maioria dos produtores rurais, com menos recursos técnicos, acesso a crédito e apoio social

23 de fevereiro de 2026

A paisagem rural brasileira é frequentemente reconhecida – e comemorada, muitas vezes de forma ufanista – pela sua produtividade recorde e tecnologia de ponta. Mas por trás das operações de larga escala reside uma estrutura que define a distribuição de recursos e o uso do solo no país. O agronegócio é composto por diferentes perfis de produção, onde a concentração de áreas e o peso das commodities nas exportações desenham um cenário de contrastes. No campo o cenário é dividido entre a produção em escala industrial e os estabelecimentos de menor porte voltados ao mercado interno. É uma versão mais radicalizada da extrema desigualdade social do Brasil. No campo, as disparidades são mais agudas do que nas cidades. Os pobres são mais miseráveis. E os ricos são mais privilegiados, inclusive com apoios fiscais.

Como é essa divisão social no campo? Ela se reflete nos tipos de produção. Ao observarmos a distribuição de culturas por área, os dados do MapBiomas (2023) revelam a predominância do uso do solo para fins extensivos. A pastagem é a maior categoria de uso agropecuário, ocupando cerca de 164 milhões de hectares – o que representa cerca de 58% da área total utilizada para fins produtivos. Em seguida, as lavouras temporárias dominam o cenário, com a soja ocupando aproximadamente 46 milhões de hectares (cerca de 28% das áreas de cultivo e pastagem combinadas). Enquanto as pastagens e a soja ocupam a maior parte do território nacional, o espaço destinado a culturas básicas como arroz e feijão apresenta variações que evidenciam o foco atual do solo na pecuária e na exportação. 

A distribuição percentual das propriedades rurais, conforme o último Censo Agropecuário do IBGE, detalha essa divisão de espaço. Aproximadamente 77% de todos os estabelecimentos rurais do Brasil são classificados como agricultura familiar, representando um contingente de cerca de 10 milhões de pessoas. No entanto, esses estabelecimentos ocupam 23% da área total das terras agricultáveis. No outro extremo, uma parcela de apenas 1% dos produtores – que detêm as maiores extensões de terra – controla cerca de 48% de todo o território rural do país, evidenciando uma forte concentração fundiária histórica.

Essa distribuição se reflete no valor bruto da produção e nos rendimentos do setor. De acordo com dados do IBGE, a geração de riqueza no campo é altamente concentrada: cerca de 80% do valor da produção é gerado por apenas 8% das propriedades rurais. Isso indica que a maioria das famílias agricultoras opera com uma fração menor da receita total do setor, muitas vezes enfrentando custos de produção elevados em relação ao seu faturamento. Enquanto as grandes propriedades capturam a maior parte do crédito agrícola e dos resultados das exportações, os pequenos e médios produtores buscam maior inserção nas cadeias de valor e acesso a investimentos. E são esses produtos típicos da agricultura familiar, que abastecem nossas mesas. Quem alimenta o Brasil são os pequenos agricultores.

O equilíbrio entre esses diferentes modelos é fundamental para a sustentabilidade do setor a longo prazo. Atualmente, discute-se a adoção de práticas como a agricultura regenerativa, a recuperação de pastagens degradadas e o manejo de baixo carbono. No entanto, para que essas políticas sejam eficazes, elas precisam considerar a diversidade do produtor brasileiro. O pequeno e o médio produtor, embora ocupem menos área proporcionalmente, são essenciais para a segurança alimentar interna, mas frequentemente carecem de assistência técnica e linhas de crédito específicas para modernização sustentável.

A formulação de políticas públicas que incentivem a conservação e o aumento da produtividade deve reconhecer que o setor agropecuário brasileiro é multifacetado. O impacto econômico e ambiental positivo será maximizado ao integrarmos os produtores de menor escala às novas tecnologias e mercados. Eles formam a espinha dorsal de muitas economias locais e garantem a diversidade de culturas que abastece o mercado nacional.

A Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura, a FERA, une as vozes dessas diferentes faces produtivas da agricultura no Brasil. Isolados, produtores familiares podem até parecer pequenos. Mas a Frente mostra a força produtiva e o impacto que a união de propriedades regenerativas – que, juntas, somam muitos hectares, podem fazer na economia e no desenvolvimento sustentável do Brasil. Nesse sentido, a FERA mostra que o agro bem representado é aquele que é diverso. Se queremos um agro mais equilibrado, precisamos de organização. A FERA é um espaço de articulação dessas lideranças, transformando produtores invisibilizados em protagonistas das próximas políticas e mercados do setor.

O avanço social e econômico do campo exige um olhar atento a todos os estratos produtivos. A agricultura sustentável não deve ser restrita aos grandes grupos com alto capital. Ela precisa ser uma ferramenta de desenvolvimento para milhões de produtores. Priorizar o acesso à tecnologia, ao conhecimento técnico e ao financiamento para diferentes perfis de propriedade é o caminho para que o agronegócio brasileiro se consolide não apenas como uma potência exportadora, mas como um setor equilibrado e motor de prosperidade para todos os brasileiros. É uma questão de justiça social.

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