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Relatório da ONU faz novo alerta sobre insuficiência no corte de emissões globais

Combate à crise climática patina com emissões nas alturas. Documento mostra que políticas de Trump elevarão ainda mais emissões dos EUA, maior emissor global

Priscila Pacheco ·
22 de outubro de 2026

Os países continuam falhando em suas ações para conter o agravamento das mudanças climáticas, aponta novo relatório sobre emissões de gases de efeito estufa publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) nesta quarta-feira (21). Em 2025, as emissões globais atingiram 58,4 gigatoneladas de CO₂ equivalente (GtCO₂e), uma queda estimada de 0,1 GtCO₂e em relação ao ano anterior. Ainda não é possível concluir se as emissões estão se estabilizando ou atingindo o pico.

Segundo o documento, décadas de ações climáticas insuficientes tornaram inevitável a ultrapassagem do limite de 1,5°C de aquecimento global. “Ultrapassar o limite não significa desistir. Ainda podemos manter esse excedente o menor e o mais breve possível e fazer com que as temperaturas voltem a ficar abaixo de 1,5°C até o final do século”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em uma mensagem sobre o relatório.

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No cenário de menor ultrapassagem do limite de 1,5°C, as emissões globais precisam cair de forma imediata, profunda, rápida e sustentada: 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, em relação aos níveis de 2025. “Alcançar essas reduções de emissões requer uma transição rápida para longe dos combustíveis fósseis sem mitigação de suas emissões, a expansão contínua da energia eólica e solar em escala global, a eletrificação dos usos finais de energia e cortes profundos nas emissões de metano”, diz o relatório.

Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma, ressaltou que já há um amplo conjunto de evidências de que as emissões podem ser reduzidas rapidamente. “Cabe agora às nações implementar, com urgência, políticas que promovam reduções rápidas, profundas e sustentadas das emissões, colocando o mundo no caminho para um clima mais estável, bem como para economias e sociedades mais estáveis”, disse Andersen.

Combustíveis fósseis continuam sendo os principais emissores

Em 2025, as emissões de CO₂ provenientes da queima de petróleo, carvão e gás, assim como as de óxido nitroso e gases fluorados, continuaram aumentando. Já as emissões de metano permaneceram praticamente estáveis em relação a 2024. Segundo o relatório, esses aumentos foram compensados pela redução de cerca de 0,5 GtCO₂e nas emissões líquidas de CO₂ do setor de uso da terra, mudança do uso da terra e florestas (LULUCF, na sigla em inglês).

“A principal conclusão é simples: os governos precisam implementar políticas que reduzam o uso de combustíveis fósseis o mais rápido possível. Todos os governos têm um trabalho a fazer, mas, em particular, chegou a hora de os principais produtores de combustíveis fósseis, como os Estados Unidos e a Arábia Saudita, pararem de fazer política e encararem a realidade científica”, disse Bill Hare, cofundador da Climate Analytics, em uma análise sobre o relatório.

O comentário de Hare contrasta com as políticas adotadas pelos Estados Unidos desde que Donald Trump assumiu a presidência. O país tomou uma série de medidas que prejudicam o combate às mudanças climáticas, como a saída do Acordo de Paris, a redução de subsídios às energias renováveis e o incentivo à expansão da produção de combustíveis fósseis.

O relatório do Pnuma, inclusive, incluiu no relatório uma declaração enviada pelo governo norte-americano: “Os Estados Unidos retiraram-se do Acordo de Paris e notificaram sua retirada da UNFCCC em 27 de fevereiro de 2026, a qual entrará em vigor em 27 de fevereiro de 2027. Os Estados Unidos não apoiam o Relatório sobre a Lacuna de Emissões (Emissions Gap Report), não endossam nem concordam com suas análises ou conclusões, e não apresentaram comentários a este relatório”.

Estimativas preliminares para 2025 indicam aumento das emissões nos Estados Unidos, na Indonésia e na China. Os cálculos excluem as emissões nacionais de CO₂ provenientes do setor de uso da terra, mudança do uso da terra e florestas, para o qual só há dados disponíveis até 2023. Entre os três países, os Estados Unidos registraram o maior aumento, de 133 megatoneladas de CO₂ equivalente (MtCO₂e). Segundo o documento, a alta foi impulsionada pelo aumento da demanda por eletricidade e pela retomada da geração de energia a carvão.

Para 2030, o Pnuma aponta que as mudanças recentes nas políticas dos Estados Unidos alteraram significativamente as projeções de emissões do país. Com as medidas adotadas pelo governo Trump, estima-se que as emissões norte-americanas naquele ano sejam quase 0,9 GtCO₂e maiores do que seriam caso fossem mantidas as políticas em vigor durante a administração de Joe Biden.

O relatório também mostra que as emissões per capita de gases de efeito estufa nos Estados Unidos, na Federação Russa, na China e na União Europeia estão acima da média mundial, de 6,6 toneladas de CO₂ equivalente (tCO₂e) por pessoa. Para comparação, a média nos países menos desenvolvidos é de 1,5 tCO₂e por pessoa.

Considerando as emissões históricas acumuladas de CO₂, inclusive as provenientes do setor de uso da terra, mudança do uso da terra e florestas, os Estados Unidos são os maiores emissores globais até hoje, seguidos pela China e pela União Europeia. Os países menos desenvolvidos responderam por apenas 0,5% das emissões históricas acumuladas, apesar de reunirem populações numerosas.

  • Priscila Pacheco

    Jornalista independente apaixonada por viagens, cultura e meio ambiente. →

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