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A paz com a natureza será a garantia da paz entre os povos

A paz do século XXI não será construída apenas quando silenciarem as armas. Ela dependerá também da nossa capacidade de preservar as condições naturais que sustentam sociedades

22 de setembro de 2026
  • Carlos Bocuhy

    Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas parte de constatação da grave crise do multilateralismo. A ONU, criada sob os escombros da Segunda Guerra Mundial para impedir que a humanidade repetisse aquela tragédia, assiste à multiplicação dos conflitos armados, à corrida por armamentos e ao enfraquecimento das instituições internacionais destinadas a conter a lógica da força.

Ao afirmar que “a guerra não é a continuação da política por outros meios. É a falência total da política”, Lula toca o centro do problema. Mas há uma dimensão dessa crise que precisa ser levada ainda mais longe: a humanidade está fracassando não apenas em construir a paz entre os povos, mas também em estabelecer uma relação de paz com a natureza.

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As duas crises estão profundamente conectadas. Guerras não acontecem em um vazio ecológico. Elas destroem cidades, sistemas de abastecimento de água e saneamento, áreas agrícolas, florestas e infraestruturas energéticas. Contaminam solos e rios, provocam deslocamentos populacionais e deixam passivos ambientais que podem permanecer durante décadas. Muito depois de silenciadas as armas, seus efeitos continuam inscritos nos territórios.

Mas essa relação também funciona no sentido inverso. A degradação ambiental, a escassez de água, a perda de terras produtivas, a destruição de florestas, a insegurança alimentar e os eventos climáticos extremos podem aprofundar desigualdades, provocar deslocamentos populacionais e aumentar tensões em sociedades já vulneráveis, em busca de elementos essenciais para a sobrevivência.

A deterioração das condições ecológicas da existência multiplica fatores de instabilidade e pode ampliar as condições que favorecem conflitos. Proteger o meio ambiente deve, portanto, ser compreendido também como uma política de prevenção da violência e de construção da paz.

É preciso investir na infraestrutura ecológica da paz. Durante muito tempo, segurança internacional significou sobretudo exércitos, fronteiras, armamentos e equilíbrio entre potências. Diante da crise climática e ecológica, essa concepção tornou-se insuficiente.

Qual segurança existe para uma população sem água? Que estabilidade política pode ser garantida quando regiões inteiras deixam de oferecer condições adequadas à produção de alimentos? Que soberania pode existir quando eventos climáticos extremos destroem repetidamente cidades e infraestruturas? E que paz será possível se milhões de pessoas forem obrigadas a abandonar seus territórios pela deterioração das condições ambientais?

Florestas, rios, aquíferos, oceanos, solos férteis, biodiversidade e estabilidade climática precisam ser reconhecidos pelo que efetivamente são: infraestruturas ecológicas para a vida e para a paz da humanidade;

Preservá-los significa proteger as condições materiais que permitem às sociedades sobreviver, produzir, conviver e planejar o futuro. Essa percepção modifica profundamente o significado da política ambiental. Ela deixa de ocupar um compartimento administrativo destinado apenas à conservação da natureza e passa a integrar o núcleo das políticas de segurança, desenvolvimento, direitos humanos e prevenção de conflitos.

A importância geopolítica dos recursos naturais é evidente. O discurso brasileiro chamou a atenção para as “investidas neocoloniais por recursos estratégicos”. Aqui existe uma questão decisiva. A transição energética mundial está aumentando a importância geopolítica de minerais críticos, terras raras e outros recursos necessários às novas tecnologias. Ao mesmo tempo, petróleo, gás, água, terras agricultáveis e biodiversidade continuam no centro de interesses econômicos e estratégicos.

O risco é substituir uma dependência por outra sem alterar a lógica que historicamente transformou territórios, povos e recursos naturais em objetos de disputa.

Uma transição energética que reproduza exploração predatória, destruição de ecossistemas e transferência dos custos socioambientais para comunidades vulneráveis poderá ser tecnologicamente nova, mas continuará politicamente antiga. É legítima a defesa de que as riquezas naturais brasileiras beneficiem a sociedade brasileira. Mas é preciso avançar um passo.

Soberania ambiental não consiste apenas em decidir quem explora determinado recurso e quem recebe os benefícios econômicos de sua exploração. Consiste também em estabelecer quanto pode ser explorado sem destruir as bases ecológicas que sustentam a própria sociedade.

É nesse ponto que surge uma contradição importante no discurso brasileiro, que é a contradição do petróleo.

O presidente em sua mensagem trouxe grandes e necessários acertos. Afirma que o Brasil não renunciará à agenda ambiental, reafirma a descarbonização, defende as florestas e celebra a redução do desmatamento. Ao mesmo tempo, sustenta a continuidade da pesquisa de novas reservas petrolíferas, incluindo a Margem Equatorial.

Essa contradição precisa ser enfrentada com transparência. A redução do desmatamento é indispensável e constitui uma prioridade estratégica. Mas a crise climática não será resolvida apenas pela proteção das florestas. A descarbonização da economia mundial exige enfrentar também sua dependência estrutural dos combustíveis fósseis.

Não basta, portanto, afirmar simultaneamente que a floresta deve permanecer em pé e que novas fronteiras petrolíferas podem continuar avançando. É necessário que essas duas estratégias sejam compatibilizadas sob limites ambientais. Segundo estudo de economistas ligados à Universidade de Stanford, cada dólar ganho com petróleo provocará prejuízo de 9 dólares em impactos para a humanidade.

O problema ultrapassa um governo ou um país. Trata-se de uma das grandes contradições de nosso tempo: reconhecemos a necessidade de enfrentar a emergência climática enquanto a economia mundial permanece dependente da expansão do consumo de energia e da exploração intensiva dos recursos naturais.

Não haverá transição ecológica consistente enquanto essa contradição permanecer encoberta por discursos de sustentabilidade.

A corrida armamentista e a emergência climática é outra contradição internacional que merece atenção. Enquanto recursos extraordinários são mobilizados para uma nova corrida armamentista, a comunidade internacional continua enfrentando enormes dificuldades para financiar adaptação climática, proteção de florestas, saneamento, recuperação de ecossistemas e redução da pobreza.

Essa escolha revela uma profunda perda de foco e distorção nas prioridades globais. Um mundo capaz de mobilizar recursos gigantescos para preparar-se para novos conflitos não pode tratar como secundários os investimentos necessários para proteger populações vulneráveis diante da emergência climática.

A segurança continua sendo pensada predominantemente como capacidade militar. É preciso ampliar radicalmente esse conceito. Segurança também é uma floresta capaz de contribuir para a regulação do ciclo hidrológico, é uma cidade preparada para ondas de calor, secas, enchentes e chuvas extremas; é água potável disponível e produção de alimentos resiliente às alterações climáticas.

Segurança é impedir que populações sejam obrigadas a abandonar seus territórios porque desapareceram as condições ambientais necessárias à sobrevivência.

Investir nessas condições significa investir em prevenção. E prevenção é uma das formas mais inteligentes de construir a paz.

É preciso perceber o que significa uma estrutura ecológica para a paz. Ao final de seu discurso, Lula afirmou que as Nações Unidas precisam recuperar a vontade política necessária para voltar a ser o “templo da paz”. Talvez seja necessário ampliar o próprio significado dessa expressão, uma vez que, no século XXI, a ONU somente poderá cumprir plenamente sua missão de paz se for também capaz de contribuir para a proteção das condições ecológicas que tornam essa paz possível.

A diplomacia ambiental, nesse sentido, não deve ser considerada secundária em relação à diplomacia da paz. Ela é parte dessa construção, pois precisamos de uma concepção que articule três dimensões inseparáveis: paz entre os povos, paz dentro das sociedades e paz com a natureza.

Isso exige fortalecer o multilateralismo, a ciência, a democracia ambiental, a cooperação internacional e os instrumentos preventivos de proteção dos ecossistemas. Exige reconhecer também limites ecológicos para as atividades econômicas, inclusive quando elas são apresentadas em nome do desenvolvimento ou da própria transição energética.

A humanidade construiu instituições internacionais para evitar que a força militar determinasse sozinha o destino dos povos. Agora precisa fortalecer instituições capazes de impedir que interesses econômicos imediatos destruam silenciosamente as condições ambientais da existência.

A guerra representa a falência da política quando a política não consegue impedir a destruição entre seres humanos. A devastação ambiental representa outra forma de falência da política: aquela em que somos incapazes de impedir a destruição das condições que tornam possível a própria vida.

As duas falências precisam ser enfrentadas conjuntamente. A paz do século XXI não será construída apenas quando silenciarem as armas. Ela dependerá também da nossa capacidade de preservar as condições naturais que sustentam sociedades, economias e civilizações.

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