Fotografia

Marc Ferrez e sua nostálgica cidade do Rio de Janeiro.

Antigamente, o Rio de Janeiro não precisava de estátuas nem de bondinhos para atrair estrangeiros, a beleza de suas paisagens naturais eram suficiente para justificar a viagem.

Adriano Gambarini ·
13 de julho de 2007 · 19 anos atrás

Dentro do universo fotográfico em que estou envolvido desde 1992, uma das atividades que mais me atrai é garimpar imagens e olhares dos grandes mestres da fotografia, (aqueles que faziam mágicas com simples caixas-pretas e negativos de vidro), de lugares que já passei, e comparar dentro das discrepâncias temporais, o que mudou, o que nada criou, o que o ser humano transformou. E Marc Ferrez foi um destes artistas do documento impresso, que o Brasil viu percorrer sobre seu solo. Nasceu no Rio de Janeiro em 1843, apenas quatro anos após a fotografia ser oficialmente inventada pelo francês Louis Daguerre (apesar de um outro francês, Hercules Florence, ser considerado o pai da fotografia). Começou a fotografar nos seus tenros vinte e poucos anos, e em 1867 foi contratado como fotógrafo oficial da Marinha Imperial.

Sua predileção por paisagens se intensificou e o consagrou ao se tornar membro da Comissão Geográfica e Geológica do Império, e a formar o acervo mais rico de imagens do Brasil, sem paralelo com outros fotógrafos. Suas fotos são de uma beleza natural ímpar, imprimindo lugares muitas vezes despercebidos por nossa frenética agitação moderna, como a curiosa foto do Corcovado sem o Cristo Redentor! Imagino ironicamente as novas gerações cariocas e hordas de turistas admirando esta imagem, não permitindo que seus inconscientes da memória possam aceitar um Corcovado sem a eternizada estátua.

Ferrez, no entanto, e como a grande maioria dos fotógrafos da época, se tornou grande retratista, principalmente dos membros da família imperial brasileira, mas também se enveredando para o registro dos olhares enigmáticos dos índios bororos e cenas comuns dos mercados e mercadores. Apesar das parcas possibilidades tecnológicas, inovou ao utilizar flash de magnésio para iluminar as minas de Morro Velho, em Minas Gerais, e a produzir as maiores chapas coloidais panorâmicas do mundo, com cerca de 1,20 m

Suas fotos do Rio de Janeiro nos trazem a nostálgica beleza da Baía de Guanabara, de praias desertas abençoadas pelo Pão de Açúcar (sem bondinho!), as centenárias palmeiras imperiais do Jardim Botânico e a Praia de Ipanema com vista do Morro Dois Irmãos. Doces tempos idos aqueles em que a única coisa perdida era o olhar sobre o mar calmo e deserto.

  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários.

Leia também

Colunas
11 de fevereiro de 2026

A Fotografia em tempos de IA: transformação ou extinção?

Pedir para a Inteligência Artificial criar uma imagem através de comandos pode, à princípio, ser inofensivo, mas o que acontecerá a longo prazo?

Salada Verde
11 de fevereiro de 2026

STF dá prazo de 24 meses para Congresso regulamentar mineração em terras indígenas

Decisão reconhece omissão legislativa, fixa prazo de dois anos para regulamentação e estabelece parâmetros provisórios para pesquisa e lavra mineral enquanto a lei não é aprovada

Reportagens
11 de fevereiro de 2026

Milhares de projetos minerários ameaçam água e biodiversidade na maior cordilheira do Brasil

Extração crescente na Serra do Espinhaço atende inclusive à demanda por insumos críticos para a transição energética

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.