De José Augusto Pádua
Discordo da avaliação do meu amigo Marcos Sá Corrêa sobre as reservas extrativistas. Estou seguro, com base em muitos anos de observação, que um levantamento do IMAZON sobre o conjunto dessas reservas, especialmente as mais antigas, comprovará que elas são um instrumento valioso e efetivo de conservação da Floresta Amazônica (e potencialmente de outros biomas). Problemas pontuais, algumas vezes bastante graves, existem, de mesma forma como existem em outros modelos de unidade de conservação. O resultado final, no entanto, é bem positivo.
Não me parece justo fazer extrapolações a partir da “Verde para Sempre”. É uma reserva muito recente, que ainda não está nem minimamente consolidada. Uma área, como tantas outras na Amazônia, de apropriação fundiária confusa, cheia de invasores e ocupantes de diversos tipos.
Por que não comparar, por exemplo, o grau de conservação florestal da reserva Chico Mendes em relação ao seu entorno ? Existe um levantamento aero-fotográfico recente que é realmente chocante. Aí a gente vê com clareza que uma reserva extrativista consolidada, apesar de todas as dificuldades, inclusive invasões, serve de importante barreira para o desflorestamento.
Considero altamente contraproducente, em uma Amazônia onde a pecuária está comendo solta, estabelecer um antagonismo radical entre os conservacionistas e as reservas extrativistas. Deveríamos todos nos unir contra o verdadeiro inimigo, que é o desmatamento ilegal e descontrolado.
Estou cada vez mais convencido de que a salvação da floresta virá apenas com o estabelecimento de um gigantesco mosaico de diferentes reservas, seja de preservação integral ou de diversos tipos de uso controlado. Qualquer oportunidade de criar unidades de conservação, seja de que modelo for, é positiva.
Penúltimo comentário: com base no que disse acima, não acho negativo criar reservas no papel. O mais urgente é deter o vale tudo, a fronteira descontrolada de apropriação predatória do território. Todos sabemos que muitos parques nacionais, inclusive criados pela Maria Tereza, citada pelo Marcos, também foram estabelecidos inicialmente no papel. Apenas com o tempo, e muita luta heróica de inúmeras pessoas, eles se consolidaram (ou não). O mesmo vale para as reservas extrativistas. O resultado deve ser avaliado caso a caso, considerando as circunstâncias objetivas presentes em cada situação. De toda forma, é melhor ter reservas no papel, e lutar ao lado da lei por sua consolidação, do que deixar crescer a ocupação do tipo “cada um por si e quem vier depois que se arranje”.
Um último comentário: como participante d’O ECO desde o início, e amigo pessoal dos editores, discordo totalmente das insinuações de falta de ética, interesses escusos etc. etc. Esse tipo de enquadramento, além de generalizante, apenas inibe o diálogo inteligente. O que eu vejo são opiniões sinceras, defendidas muitas vezes de maneira apaixonada. É preciso lembrar que os textos do site são assinados e cada um responde pelo que escreveu. Quem discordar, com maior ou menor razão, que se manifeste. É muito importante, nesse sentido, que os editores estejam atentos para garantir o destaque adequado para as diferentes manifestações, garantindo o pluralismo da discussão. Penso ser óbvia a importância d’ O ECO para o ambientalismo brasileiro. O debate franco e racional, mesmo que “caliente”, deveria servir para fortalecer esse espaço de informação e comunicação tão ágil e inovador.
Saudações ambientalistas,
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