De André Picardi
Coordenador da Frente Popular em Defesa da Serra da Canastra
Não sou bombeiro, policial, perito em incêndios florestais, muito menos advogado dos proprietários de terra na região do Parque Nacional da Serra da Canastra, de qualquer forma gostaria de tecer alguns comentários sobre aquilo que vem sendo escrito neste site a respeito do incêndio que na última semana queimou cerca de 77% da área do Parque com a situação fundiária (71.525ha) já regularizada, ou 27% da área prevista em seu decreto de criação (200.000ha).
Primeiramente gostaria de dizer que apesar de compartilhar da suspeita de que o incêndio tenha sido criminoso, considero extremamente leviano apontar suspeitos, posto que nenhuma perícia ainda foi feita no local; aliás desde a criação da Unidade de Conservação, todos os anos os incêndios se repetem, sempre na mesma época e nunca foi aberto sequer um inquérito policial com o intuito de averiguar a hipótese de incêndio criminoso e eventual responsabilidade.
Além dos confrontantes com o Parque, de proprietários desapropriados a 30 anos que nunca receberam a devida indenização e de cerca de 1500 famílias que vivem na área do Parque, como legítimos proprietários de suas terras, também temos problemas com funcionários do IBAMA que sistematicamente se recusam a cumprir com as funções para as quais são designados, chegando ao cúmulo de pagar para que funcionários terceirizados cumpram os plantões para os quais estão designados. Num passado próximo tivemos até o caso de um funcionário que iniciou um movimento para que fosse permitida a entrada com bebidas alcoólicas na Unidade.
A Canastra sofre ameaça de todos os lados, inclusive do lado de dentro. É estranha a afirmação de que a descoberta de latas de querosene no interior da Unidade seja indício de incêndio criminoso, simplesmente porque não há nenhuma necessidade de combustível para atear fogo na vegetação do Parque, que nesta época do ano queima como pólvora, combustíveis como querosene, gasolina e diesel são utilizados em equipamentos de combate a incêndio, chamados “pinga fogo”.
Outro fato que chama bastante a atenção dos que vivem aqui é a demora e o número reduzido de aeronaves que compareceu neste incêndio, quando comparado com o incêndio de agosto, quando coincidentemente acontecia em São Roque de Minas (cidade sede do Parque) o Primeiro Encontro de Meio Ambiente do Alto São Francisco, quando onze aeronaves estiveram participando das operações de combate ao fogo.
Há muitos anos, a comunidade e a maioria dos servidores do IBAMA na Canastra afirmam a necessidade de um trabalho de prevenção a incêndios florestais, com o manejo do fogo. Uma vez que o combate a incêndio históricamente tem se demonstrado ineficaz e insuficiente.
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