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BR-135 muda traçado por causa de cavernas

Obra de pavimentação cria novo terá traçado para trecho da BR-135 depois de ter afetado sistema de cavernas em São Desidério, na Bahia

Celso Calheiros ·
11 de julho de 2011 · 11 anos atrás
Buraco do Inferno da Lagoa é considerada caverna de máxima relevância pelas suas dimensões e por abrigar o maior lago subterrâneo do Brasil. Crédito: Grupo Bambuí.

A conservação do Buraco do Inferno da Lagoa do Cemitério é responsável por um novo traçado de cinco quilômetros para a BR-135, no trecho entre São Desidério (Km 207) e Correntina (Km 212), na Bahia. Essa decisão atende a pedido do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav-ICMBio), que classifica a formação como de máxima relevância, por abrigar o maior lago subterrâneo no Brasil (com 25 mil metros quadrados). A decisão tem chance de pacificar espeleólogos e simples freqüentadores essas cavidades geológicas tão pouco consideradas em grandes obras.

O temor pelo desrespeito ao meio ambiente começou, depois de 2007, quando o Ibama concedeu a licença de instalação para obra, com restrições até que um programa específico para a conservação das cavidades naturais fosse implementado. O plano era dar nova pista para os 556 quilômetros que ligam Belo Horizonte a São Luís, no Maranhão – uma rodovia com praticamente todo seu trajeto sertanejo.

Nem tudo ocorreu como planejado nessa estrada que, no site, propagandeia uma preocupação com a natureza em seu entorno. De acordo com representante Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas, sete cavidades menores foram suprimidas apenas com o trabalho de terraplanagem. Pedaços do teto do Buraco do Inferno da Lagoa do Cemitério começaram a cair com a obra, quando se utilizava explosivos.

Mapa das cavernas do Sistema João Rodrigues e o ponto onde a BR-135 passa. Crédito: Bambuí.

As formações geológicas fazem parte do sistema João Rodrigues, que está reservado para integrar uma unidade de conservação indicada pelo Cecav. A indicação é resultado de compensação ambiental de outras duas cavernas suprimidas na região de Ituaçu, também na Bahia. A compensação acompanha a legislação para as cavernas.

Com respaldo legal e calejados com um histórico de pouca atenção para essas formações, os grupos de exploradores de cavernas entraram em ação. Ibama e ao Cecav receberam denúncias sobre o risco que o patrimônio espeleológico da região corria. A licença de instalação foi suspensa, em 2010.

O Ibama chegou a solicitar um parecer aos especialistas em espeleologia no Ministério do Meio Ambiente. O chefe do Cecav, Jocy Cruz, lembra que foi feita uma análise no local e chegou-se a conclusão de que a rodovia deveria fazer um novo traçado. “Nosso parecer é apenas uma opinião técnica. O órgão licenciador é o Ibama”, ressaltou Jocy.

O passo seguinte do Ibama foi solicitar novo EIA/Rima para o trecho e um estudo específico, ao empreendedor da BR-135. O coordenador de Transportes do Ibama, Marcus Melo, disse que o estudo geofísico apresentado demonstrou a não interferência das obras nas cavernas da região, logo o Ibama revogou a suspensão da licença em fevereiro de 2011.

A liberação das obras a partir do km 212 teve condições: explosivos não devem mais ser utilizados e, em caso de desobstrução deve-se utilizar tecnologia que não promova vibração de grande, informou a assessoria de comunicação do Departamento Nacional de Infraestrutura em Transportes (Dnit).

De acordo com o órgão do Ministério dos Transportes, a pedido do Ibama, haverá monitoramento constante das obras, de modo a identificar vibrações ou trepidações que possam afetar o patrimônio espeleológico. Haverá uma revisão do projeto (em análise) com proposta de alteração da pavimentação. Antes seriam feitas duas camadas de solo estabilizado e mais a capa asfáltica. A nova proposta é utilizar uma única camada de concreto de cimento portland. Como o novo projeto está em análise, a obra no trecho não foi retomada, informa o Dnit.

A BR-135 cruza quatro estados e 22 municípios. Hoje, recebe um volume médio diário de 971 veículos. A previsão para o final do empreendimento é de 1.305 veículos em média por dia.

Como era a Pedra do Pescoço antes das obras.
Pedra do Pescoço depois das obras dá uma ideia do efeito que a pavimentação de uma grande rodovia pode causar no entorno.

 


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Comentários 1

  1. Flávia diz:

    Excelente artigo.. bem mais aprofundado do que tenho visto em outros canais que tocam no assunto de restauração. Obrigada, Veronica.