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“Ainda estou aqui”: oito espécies brasileiras sob risco de desaparecer

De um macaco na Amazônia até uma aranha minúscula que vive apenas em cavernas na Caatinga potiguar, ((o))eco lista oito espécies que lutam contra o risco de extinção

Redação ((o))eco ·
28 de fevereiro de 2025

O filme brasileiro “Ainda Estou Aqui” ganhou a atenção do cinema mundial com uma história contada com maestria pelo diretor Walter Salles e a atuação impecável de Fernanda Torres, que concorre ao Oscar de melhor atriz neste domingo de Carnaval, assim como o filme. Enquanto todos os olhos se voltam para o filme, ((o))eco convida os leitores a conhecerem oito das espécies mais ameaçadas da fauna brasileira que “ainda estão aqui”, tentando sobreviver ao risco de extinção.

Classificar quais as espécies mais ameaçadas de extinção não é uma tarefa simples, tampouco objetiva. Um dos critérios desta lista é que todas as espécies citadas encontram-se avaliadas nacionalmente como Criticamente Em Perigo de extinção, o grau mais alto de risco antes de uma espécie ser considerada extinta. Ao todo, de acordo com o ICMBio, existem 360 espécies da fauna brasileira nesta situação. Ou seja, a beira de desaparecer, algumas delas inclusive já consideradas possivelmente extintas.

As oito aqui selecionadas – sem ordem específica – representam a diversidade dos grupos de animais, desde aves e mamíferos até invertebrados que ocorrem – ainda – no país.

Confira a lista:

Saíra-apunhalada (Nemosia rourei)

A saíra-apunhalada, uma das aves mais ameaçadas do mundo. Foto: Gustavo Magnago

Este pequeno pássaro de cerca de 12 centímetros é considerado uma das aves mais ameaçadas do mundo. Este título traduz a situação dramática da espécie, com uma população total conhecida de menos de 20 indivíduos na natureza. Nativa da Mata Atlântica, acredita-se que a saíra-apunhalada podia ser encontrada originalmente ao longo da região serrana do Espírito Santo. Atualmente, há apenas duas localidades com registros da espécie, os municípios capixabas de Vargem Alta e Santa Teresa. A perda de habitat é considerada o principal fator que contribuiu para a quase extinção da saíra-apunhalada, já que parte da sua distribuição foi severamente alterada para dar lugar a plantações de café.

Para tentar impedir a extinção da ave foi criado em 2020 o Programa de Conservação Saíra-Apunhalada, coordenado pelo Instituto Marcos Daniel (IMD). A organização atua no monitoramento e pesquisa, proteção do habitat, educação ambiental e engajamento comunitário; e inclui a defesa dos ninhos conhecidos para garantir o sucesso reprodutivo da saíra.

Kaapori (Cebus kaapori)

O kaapori, macaco ameaçado pelo avanço do desmatamento e pela caça. Foto: Fabiano Melo

Um lar sobreposto ao Arco do Desmatamento, esse é o drama do kaapori, macaco amazônico que vive numa porção de floresta na divisa entre Pará e Maranhão, cada vez mais encurralada pela destruição. Os pesquisadores estimam que a população do primata  tenha sofrido uma redução de mais de 80% nos últimos 50 anos, apenas com base na perda de habitat. Somam-se ainda as pressões da caça, degradação ambiental e incêndios que atingem até mesmo áreas protegidas que resguardam a espécie, como a Reserva Biológica do Gurupi (MA).

Construir uma estratégia efetiva de conservação do kaapori depende não apenas da proteção das florestas remanescentes no território, mas também de conhecer melhor a espécie, que ainda é pouco estudada. Uma das iniciativas para suprir essa lacuna de conhecimento é liderada pela primatóloga Tatiane Cardoso, pesquisadora bolsista do Museu Paraense Emílio Goeldi, que se dedica a desvendar a área de vida, ecologia e comportamento do kaapori.

Peixe-serra-de-dentes-pequenos (Pristis pectinata)

O peixe-serra-de-dentes-pequenos já praticamente desapareceu das águas brasileiras. Foto: D Ross Robertson/Smithsonian Institution

Com uma aparência única que lembra uma mistura de tubarão com filme de terror, o peixe-serra é, na verdade, uma raia de grande porte – que pode chegar a mais de 7 metros de comprimento. Seu “nariz” alongado no formato de uma serra elétrica é utilizado para encontrar e atordoar presas em águas turvas. Entretanto, essa feição, chamada de rostro, acaba sendo uma desvantagem que os torna mais suscetíveis ao emaranhamento em redes e petrechos de pesca.

Esses seres peculiares já foram amplamente distribuídos nas águas costeiras tropicais e temperadas do Oceano Atlântico, assim como ambientes estuarinos e manguezais. Ameaças como a sobrepesca e a modificação do habitat praticamente dizimaram a espécie das porções norte e central do Atlântico, reduzindo severamente seu habitat e fragmentando as populações remanescentes. A própria ecologia desta raia dificulta a recuperação das populações devido ao seu crescimento lento, associado a baixa fecundidade e a demora em atingir a maturidade sexual. 

No Brasil, existem registros históricos do peixe-serra ao longo do litoral, desde o Amapá até o Rio Grande do Sul. Os últimos registros comprovados da espécie ocorreram nas décadas de 1970 e 80, no Pará e no Ceará, respectivamente. Nas demais regiões da costa brasileira, a espécie já é considerada extinta.

Bagual (Austrolebias bagual)

O peixe-das-nuvens Austrolebias bagual mede apenas cinco centímetros de comprimento. Os machos são maiores e possuem listras escuras. Fêmeas são menores e menos coloridas. Foto: Matheus Volcan

Os peixes-anuais ou peixes-das-nuvens recebem este nome porque vivem em poças e lagos temporários, com um ciclo de vida baseado na espera pelas chuvas que eclodem seus ovos enterrados. Invisíveis e extremamente vulneráveis em parte do ano justamente por esta vida peculiar, os peixes-anuais são considerados o grupo da fauna mais ameaçado no Brasil. Uma existência tão efêmera assim pode ser considerada um verdadeiro ato de coragem. E não há forma melhor de descrever este peixe de menos de cinco centímetros que recebeu o nome de bagual, que no Rio Grande do Sul, onde vive, significa corajoso e destemido.

Descrito pela ciência há pouco mais de uma década, o pequeno peixe vive numa única localidade, uma lagoa temporária no município gaúcho de Encruzilhada do Sul, em pleno Pampa. Com apenas 4km² de área de ocupação, sua existência já tão frágil pode desaparecer de vez com o avanço da fronteira agrícola na região. Pesquisadores apontam que a espécie já pode estar sendo afetada pelas grandes plantações de arroz existentes na região, que tem reduzido e degradado seu habitat.

Jararaca-ilhoa (Bothrops insularis)

A jararaca-ilhoa vive numa única ilha do litoral de São Paulo. Foto: Nayeryouakim/ CC BY-SA 4.0

Imagine que uma espécie inteira depende de uma área do tamanho de 43 campos de futebol para sobreviver. Para efeitos de comparação, isso corresponde a um território 18 vezes menor que o bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Esta é a área da Ilha da Queimada Grande, no litoral sul de São Paulo, único lugar do mundo em que vive a jararaca-ilhoa. 

Ainda que a ilha hoje seja protegida por uma unidade de conservação – a Área de Relevante Interesse Ecológico Ilha Queimada Grande e Queimada Pequena – sua distribuição restrita coloca a espécie numa posição vulnerável, pois se um grande incêndio atingir a ilha, por exemplo, a jararaca pode facilmente ser extinta. 

Sua principal ameaça atualmente, entretanto, é a captura ilegal que alimenta o tráfico de animais silvestres. Ao mesmo tempo, historicamente já foram registradas queimadas na ilha, que deram espaço para o capim substituir a floresta, o que também compromete a qualidade do habitat da cobra. 

Pato-mergulhão (Mergus octosetaceus)

Uma típica família de pato-mergulhão (Mergus octosetaceus). Foto: Nick Athanas/Creative Commons

Sensível à presença humana e altamente exigente à qualidade do habitat, o pato-mergulhão depende de águas limpas e sem grandes fluxos de pessoas. A lista de ameaças para a espécie é extensa e vai desde a perda até a alteração do habitat, causada pelo desmatamento, poluição dos rios, instalação de hidrelétricas e do turismo desordenado. Esses fatores fizeram com que a ave, que originalmente ocorria em toda região centro, sudeste e sul do Brasil, além do nordeste da Argentina e Paraguai, praticamente sumisse do mapa. Atualmente, há populações conhecidas apenas do lado brasileiro, concentradas no Cerrado, nos estados de Minas Gerais, Goiás e Tocantins. Estima-se que as populações remanescentes, isoladas entre si, possuam menos de 50 indivíduos maduros cada, num total de menos de 250 animais na natureza. 

Todas as populações remanescentes de pato-mergulhão estão localizadas em unidades de conservação. Ainda assim, o turismo desordenado nos rios e suas margens é uma preocupação para a espécie. Na região do Jalapão, no Tocantins, o fluxo de turistas em áreas importantes para o animal, inclusive no período reprodutivo, com atividades como rafting. Em 2016, o órgão ambiental estadual restringiu a prática do rafting em um trecho do rio Novo, no Parque Estadual do Jalapão, nos meses de agosto e setembro. 

Sapinho-manicure (Holoaden bradei)

O declínio da população de sapinho-manicure ainda é pouco entendido pelos cientistas. Foto: Ivan Sazima/ICMBio

As montanhas que dividem os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro são o lar de um anfíbio particular, conhecido popularmente como sapinho-manicure por conta de seus dedos pintados de amarelo que destoam do resto do corpo marrom-arroxeado. A espécie, associada aos ambientes de altitude acima dos 2.000 metros, tem uma área de ocorrência estimada em 19 km² localizada no Parque Nacional do Itatiaia. O pequeno sapo, entretanto, não é registrado desde 1979 e cientistas estimam que existam menos de 50 indivíduos maduros na natureza – ou até mesmo que a espécie já tenha sido extinta.

Não há consenso científico sobre as causas que levaram o sapinho-manicure à beira da extinção, mas um dos motivos responsáveis por deixar a espécie mais vulnerável seria a grande redução histórica da Mata Atlântica. Somada a isso, seu habitat, apesar de em teoria protegido pelo parque, sofre com queimadas, a degradação ambiental e até mesmo com impactos do turismo, todos fatores que podem ter contribuído para seu declínio.

Aranha-de-pernas-longas (Metagonia potiguar)

Quase invisível contra a rocha, a minúscula aranha-de-pernas-longas vive apenas em algumas cavernas do Rio Grande do Norte. Foto: Pedro Henrique Martins/ICMBIO

Esta diminuta aranha de corpo quase translúcido, uma adaptação à vida na escuridão, pode ser encontrada apenas no interior de meia dúzia de cavernas na região da Chapada do Apodi, no oeste do Rio Grande do Norte, em plena Caatinga. Com uma área de ocupação estimada em 16km², este pequeno aracnídeo está pressionado pelos interesses da mineração de calcário e exploração de petróleo. A extração desses recursos afeta diretamente as cavernas das quais a aranha-de-pernas-longas depende pelo grande aporte de sedimentos e poluição dos corpos d’água, diminuindo a qualidade do habitat.

Encontrada em densidades baixas, as aranhas possuem até 2,5 milímetros de comprimento – menor que uma unha humana – e é justamente devido às suas dimensões, biologia e habitat restrito que a espécie torna-se mais frágil a alterações ambientais.

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