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ICMBio apreende balsa de garimpeiros que invadiram Terra Indígena Xipaya, no Pará

A invasão por homens armados alcançou ampla repercussão depois do pedido de socorro da cacica Juma Xipaya nas redes sociais

Elizabeth Oliveira ·
18 de abril de 2022

Após as denúncias e os pedidos de socorro da cacica Juma Xipaya terem ganhado ampla repercussão nas redes sociais, fiscais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) apreenderam neste sábado (16), durante a “Operação Tríade”, uma balsa de garimpeiros que invadiram a aldeia Karimãa, na Terra Indígena Xipaya, no sudoeste do Pará, na noite de quinta-feira (14). Ao contrário do que costuma ocorrer nesse tipo de intervenção, a embarcação de grande porte não foi destruída e servirá de base de apoio para o trabalho do órgão ambiental responsável pela gestão das unidades de conservação federais. Mas, neste domingo (17), via Twitter do jornalista André Trigueiro, causou surpresa a informação de que oito pessoas presas em flagrante foram liberadas pela Polícia Federal. 

A embarcação de grande porte, equipada com dragas para a mineração ilegal de ouro, foi interceptada pelos fiscais do ICMBio na boca do Riozinho do Anfrísio, entre as comunidades Praia do Anfrísio e Morro Verde, na Terra do Meio. Essa região paraense que concentra dez áreas protegidas, incluindo unidades de conservação estaduais e federais, além de Terras Indígenas, tem sido marcada por forte pressão de atividades ilegais como grilagem, desmatamento e garimpo. 

Na tentativa de invasão da TI, o pai da cacica, Francisco Kuruaya, sofreu agressões físicas dos garimpeiros, com quem tentou dialogar, pedindo para que abandonassem aquele território indígena, localizado a cerca de 400 quilômetros da cidade de Altamira. Moram, na Terra Indígena, aproximadamente 200 pessoas.  Em entrevista à Agência Amazônia Real, Juma declarou temer o retorno dos invasores, que fugiram depois de seu pai conseguir escapar e mobilizar indígenas de outras aldeias via WhatsApp.

Ainda segundo a Agência, mesmo durante o feriadão, Juma acionou a Polícia Federal, o Ministério Público e a Funai, pedindo providências sobre a invasão. Da mesma forma, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, foi acionado pela Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas na Câmara dos Deputados, liderada pela deputada indígena Joênia Wapichana (REDE/RR), que alertou sobre os riscos de graves conflitos.

O ambientalista Marcelo Salazar, coordenador executivo de Saúde na Amazônia da organização Health in Harmony, informou que “a situação na região é bastante crítica”, já que têm garimpos em funcionamento no Riozinho do Anfrísio, nos Rios Iriri e Curuá. “Que essa apreensão sirva de exemplo para as populações da região de que não compensa entrar na ilegalidade”. Segundo argumenta, algumas pessoas estão com a ilusão de que esse tipo de atividade ilegal pode ser uma saída.  “Mas não é. Está aí o resultado”, afirma. 

Para ele, mais do que nunca é necessária essa intervenção firme das forças de segurança como ICMBio, Ibama, Polícia Federal, Força Nacional para coibir esses e outros ilícitos. “Que essa apreensão seja a primeira de muitas nessa região, para que essas florestas sejam protegidas e a segurança das populações tradicionais seja mantida”, opina.

Cinco entidades científicas, dentre as quais a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), emitiram um comunicado pedindo medidas de segurança imediatas para a proteção do território Xipaya sob estado de tensão e conflito iminente. As representações também alertaram para o quadro de gravidade causado pelo garimpo ilegal em Terras Indígenas e ressaltaram que as ameaças denunciadas pela cacica Juma ocorreram logo após a conclusão da 18ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), realizado em Brasília, entre 4 e 14 de abril, quando mais de 8 mil lideranças de 200 povos indígenas protestaram contra riscos às salvaguardas legais aos seus territórios e culturas garantidas pela Constituição Federal e reivindicaram demarcação de TIs, cujos processos estão paralisados no atual governo.

Resistência socioambiental

Apesar das amplas repercussões sobre as pressões socioambientais existentes, a Terra do Meio também é reconhecida pelos esforços de manutenção da floresta de pé que une comunidades indígenas, extrativistas e agricultores familiares em redes de negócios, como a Rede de Cantinas, que produz farinhas, óleos, borracha e outros produtos florestais não madeireiros, gerando renda e organização social.

Com longa trajetória profissional na Terra do Meio, Marcelo Salazar ressalta que “tem tanta coisa linda nessa região”. Ele menciona projetos em curso envolvendo produção de castanha, seringa, copaíba, além de atividades de “educação e saúde chegando com força nas Resex, onde muitas pessoas foram contratadas”. O ambientalista destaca que já tem uma geração de professores trabalhando nas escolas e nas Terras Indígenas. “Quando algumas pessoas se envolvem nessas atividades ilegais, acabam desviando o caminho bonito que pode ser trilhado e que muitas outras pessoas já estão trilhando”, conclui. 

  • Elizabeth Oliveira

    Jornalista e pesquisadora especializada em temas socioambientais, com grande interesse na relação entre sociedade e natureza.

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