Notícias

Pererecas (quase) peçonhentas não perdoam cientistas

Pesquisador descobre novo mecanismo de envenenamento depois de inspiração que veio da maneira mais dolorida possível: espetar-se após pôr a mão no lugar errado.

Vandré Fonseca ·
11 de agosto de 2015 · 7 anos atrás
Perereca da caatinga possui um raro mecanismo de defesa. As glândulas de veneno estão associadas a espinhos na cabeça, o que pode permitir que ela inocule veneno quando atacada por predadores. Crédito: Carlos Jared
Perereca da caatinga possui um raro mecanismo de defesa. As glândulas de veneno estão associadas a espinhos na cabeça, o que pode permitir que ela inocule veneno quando atacada por predadores. Crédito: Carlos Jared

Manaus, AM — Um acidente, ou melhor, dois acidentes levaram à descoberta de um mecanismo de defesa até agora desconhecido entre os anfíbios, que permite a duas espécies de pererecas brasileiras inocularem veneno quando atacadas por predadores. A Corythomantis greeningi, encontrada na Caatinga, e a Aparasphenodon brunoi, da Mata Atlântica, possuem espinhos na cabeça, associados a glândulas de veneno, que pode ser injetados nos predadores.

A estratégia de defesa dessas pererecas é diferente de outros anfíbios venenosos, como sapos, cujas glândulas são acionadas pelos próprios predadores. “Elas fazem um movimento de ‘sim e não’ com a cabeça, que pode servir para fincar o espinho num predador”, afirma o líder da equipe responsável pela descoberta, o biólogo Carlos Alberto Gonçalves Silva Jared, diretor do Laboratório de Biologia Celular do Instituto Butantan, em São Paulo. Segundo ele, essa capacidade não é suficiente para classificar essas pererecas como peçonhentas. “Elas não atacam como as cobras”, disse.

Jared estuda a espécie C. greeningi para tentar desvendar como um anfíbio, classe de animal associada à água ou áreas úmidas, sobrevivia na Caatinga, onde só chove, se chover, três meses por ano.

A descoberta do novo mecanismo de envenenamento foi feita por acidente quando Jared fazia coletas na Caatinga. Há alguns anos, ele se espetou na casca de uma algaroba (Prosobis juliflora). Doeu. E teve um estalo. Lembrou da dor parecida que ele havia sentido em 1987, quando também por acidente sentiu o efeito do veneno da perereca C. greeningi. Foram quase cinco horas de sofrimento. Era noite e não havia socorro por perto e ele não tinha idéia de que o veneno havia sido inoculado pelo espinho presente na cabeça do animal. Em ambas as situações, a dor fora provocada por espinhos. Oras, mas anfíbios podem possuir veneno, mas não são peçonhentos, ou seja, não têm a capacidade de inocular a substância. Ou teriam? A dúvida levou a uma nova pesquisa.

Nos últimos dois anos, ele e um grupo de outros cientistas do Instituto Butantan e da Universidade Estadual de Utah, Estados Unidos, estudaram essas duas espécies de pererecas. A descrição deste sistema de defesa foi publicada no início deste mês, na revista científica Current Biology. Jared explica que as duas espécies pertencem ao grupo casque-headed, ou seja, com cabeça em forma de capacete.

A C. greeningi se abriga em pequenos buracos nos troncos e galhos de árvores na caatinga, mantendo apenas a cabeça cheia de espinhos para fora. Assim, além de mimetizar o ambiente ao redor, está protegida caso algum predador queira se aventurar. Esta é também uma forma de reduzir a perda de umidade para o ambiente, importante para um bicho que vive em uma região seca.

Já a A. brunoi, que possui um veneno 25 vezes mais potente do que a prima da caatinga, não precisa se preocupar com a falta de água, pois vive na Mata Atlântica, entre o Rio de Janeiro e a Bahia. Ela fecha os espaços existentes nas axilas das bromélias, entre o caule e as folhas. É uma perereca encontrada também nas restingas, locais que costumam ser mais secos do que a mata.

Agora, pesquisadores tentam descrever os venenos encontrados nas duas pererecas. Já se sabe que a C. greeningi possui alcalóides, mas ainda são necessários mais estudos para descrever a composição exata. Os pesquisadores querem saber também se outras pererecas da mesma família possuem sistemas de defesa parecidos. Uma delas é encontrada no México, mas nunca foi estudada.

 

 

Leia Também
Uma nova perereca e o sapo que copula com a fêmea morta
Espécie rara de anfíbio é registrada em Minas Gerais
Dois novos roraimenses, exclusivos e ameaçados

 

 

 

Leia também

Reportagens
1 de julho de 2022

Projeto “Trilha das Crianças” reúne famílias para dia na natureza em Santa Catarina

Atividade ocorre uma vez por mês em Florianópolis, com inscrição gratuita. Evento busca possibilitar experiências afetivas no meio ambiente

Notícias
1 de julho de 2022

Amazônia tem maior número de queimadas em 15 anos no mês de junho

No acumulado do ano, bioma já registra mais de 7 mil focos. Cerrado e Pantanal também sofrem com queimadas acima da média

Notícias
30 de junho de 2022

40% dos brasileiros não entendem como impactam os oceanos, revela pesquisa

O estudo inédito, divulgado no 4º dia da Conferência dos Oceanos, aponta que apenas 34% dos brasileiros compreendem que suas ações influenciam diretamente o oceano

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta