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Projeto que barra fiscalização ambiental remota ganha urgência na Câmara

Associação de servidores emite nota expressando preocupação. Ibama tem apenas 752 agentes para atender universo de mais de 100 mil alertas por ano

Cristiane Prizibisczki ·
17 de março de 2026

A Câmara dos Deputados aprovou, na tarde de segunda-feira (16) a tramitação em regime de urgência de um projeto de lei que barra fiscalização ambiental remota e determina que o infrator deve ser “notificado” antes de ser multado. Para servidores públicos da área de meio ambiente, o PL apresenta uma série de problemas estruturais e jurídicos e um risco à proteção ambiental no Brasil.

O Projeto de Lei (PL nº 2564/2025) é de autoria do deputado Lúcio Mosquini, do MDB de Roraima. Apresentado em maio de 2025 ao Legislativo, o projeto propõe alterar a Lei de Crimes Ambientais (Lei Federal nº 9.605/1998), de forma a proibir embargos remotos.

“Este projeto tem como objetivo regular a aplicação de medidas administrativas cautelares na atuação fiscalizatória ambiental, vedando-se a imposição de embargo baseado exclusivamente em detecção remota de infração decorrente de supressão de vegetação, sendo garantida a notificação prévia do autuado para prestar esclarecimentos em prazo razoável antes da imposição da medida”, diz o deputado, em sua justificativa

Atualmente, o embargo remoto cautelar, realizado por meio de imagens de satélite, tem sido uma das ferramentas mais eficientes no controle do desmatamento, principalmente na Amazônia e Cerrado

“Distorção”

Em resposta à movimentação na Câmara, nesta terça-feira (17), a Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Especialista em Meio Ambiente (ASCEMA-Nacional) publicou uma nota alertando para problemas estruturais e jurídicos na proposta.  

“Entre os principais pontos, destaca-se o fato de que o projeto confunde medidas cautelares — essenciais para interromper danos ambientais em curso — com sanções antecipadas, o que compromete a atuação preventiva do Estado . Essa distorção enfraquece princípios fundamentais do Direito Ambiental, como a prevenção e a precaução”, diz a entidade.

Ainda segundo a Ascema, a inviabilização de embargos remotos compromete diretamente a capacidade operacional dos órgãos ambientais, especialmente em regiões como a Amazônia, onde o acesso físico é limitado e os alertas de desmatamento são registrados em grande número.

“Com apenas 752 agentes de fiscalização no Ibama e um volume superior a 100 mil alertas do DETER na Amazônia apenas nos últimos 24 meses, a exigência de fiscalização e notificação exclusivamente presenciais é materialmente impossível”, diz a entidade.

A ASCEMA-Nacional lembra que a legalidade da fiscalização e embargo remotos já foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 743, na qual o ministro Flávio Dino reafirmou a validade de ações cautelares, para garantir a interrupção do risco antes da defesa, de forma a assegurar a proteção ambiental.

Com a aprovação do regime de urgência, o Projeto de Lei pode ir à votação ainda esta semana. 

  • Cristiane Prizibisczki

    Jornalista com quase 20 anos de experiência na cobertura de temas como conservação, biodiversidade, política ambiental e mudanças climáticas. Já escreveu para UOL, Editora Abril, Editora Globo e Ecosystem Marketplace e desde 2006 colabora com ((o))eco. Adora ser a voz dos bichos e das plantas.

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