Reportagens

Muito além da perfumaria – com Miguel Krigsner

O empresário Miguel Krigsner, dono de O Boticário, queria fazer uma campanha para plantar árvores. Acabou criando uma fundação que bancou mais de 900 projetos ambientais.

Marcos Sá Corrêa · Maria Tereza Jorge Pádua ·
17 de dezembro de 2004 · 17 anos atrás

Há 14 anos, o empresário paranaense Miguel Krigsner resolveu se meter em confusão. Dono de O Boticário, uma grande indústria de cosméticos, queria plantar árvores. Acabou plantando algo muito maior: a Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, um investimento sem fins lucrativos que consome 1% do faturamento líquido da empresa e destina a maior parte do dinheiro para apoiar o trabalho alheio em defesa do meio ambiente.

A fundação está longe da perfumaria. De lá para cá, bancou mais de 900 projetos e julgou pelo menos oito mil propostas de patrocínio, um investimento de cinco milhões de dólares. Escolhê-los é tarefa pesada, que ocupa duas vezes por ano cerca de 100 consultores e, o ano inteiro, a equipe da casa. Cada vez que o processo de seleção termina, Miguel Krigsner sai de seu gabinete na presidência da empresa, atravessa Curitiba e toma o lugar que lhe cabe no comando de um conselho, onde mantém a disciplina de ouvir mais do que fala e nunca dar o menor sinal de que, naquelas pilhas de papéis espalhadas pela sala, ele talvez tivesse um candidato de sua preferência.

De quebra, a fundação tem uma reserva particular em Salto Morato, que funciona como escola para administradores de unidades de conservação, inclusive as do governo. Está implantando outra no Cerrado. E está correndo atrás de mais duas reservas nos próximos três anos. Criou em Curitiba, com a Estação Natureza, um modelo de educação ambiental camuflado de diversão, que agora está chegando a Corumbá e pretende se espalhar por outras regiões. Promove, a cada dois anos, os congressos brasileiros de unidades de conservação, que só são brasileiros no nome. O IV congresso da série, dois meses atrás, trouxe ao Brasil gente do mundo inteiro no palco e 1.700 pessoas no auditório.

Mas apostar em meio ambiente tem seus riscos. Por cuidar dele, a fundação já foi atazada por políticos locais e até pelo ministério público estadual. Nesta entrevista, Miguel Krigsner conta como veio parar no meio de uma briga que, em princípio, nem era sua.

De onde vem sua preocupação com nossa natureza?

Miguel Krigsner – Vem de longe, porque nasci na Bolívia. Sou descendente de judeus que vieram para a América do Sul por causa do nazismo. Meu pai era polonês. Minha mãe fugiu da Alemanha antes da Segunda Guerra, assim que começaram, com a ascensão do regime nazista, as perseguições policiais. Por volta de 1936, ela e mais seis irmãs fugiram com os pais para a Itália, onde ficaram por um ano. Minha mãe, Anneliese, que era a filha mais moça, tinha 12 anos na época. Da Itália, ela veio com para a Bolívia.

Por que a Bolívia?

Miguel Krigsner – Porque era o único país da América do Sul que aceitava a entrada de judeus na época. Mas as duas irmãs mais velhas não quiseram vir para a Bolívia. Foram para a Palestina, onde o Estado de Israel ainda não existia. Elas tiveram muita uma dificuldade, porque os ingleses estavam lá, criando todo tipo de obstáculos para a entrada de imigrantes judeus e as duas irmãs chegaram lá através da Suécia, que tinha um programa para levar judeus à Palestina. A mais velha, que era a minha tia Ruth, uma pessoa incrível, lutou como soldado na guerra de independência. Mas a minha mãe veio para a Bolívia com os pais, mais ou menos em 1939 – quer dizer, bem no início da guerra – e praticamente se criou em La Paz. Ela foi professora do jardim de infância na cidade. E lá encontrou meu pai, que também tinha escapado da Europa nazista. Teve oito irmãos e os pais mortos em câmaras de gás. Mas ele e três irmãos escaparam.

Como?

Miguel Krigsner – Escondendo-se. Meu meu pai, Jacob, morava no campo e sempre foi chegado num jogo de baralho. Tinha um amigo de infância que era católico, jogava cartas com ele e escondeu meu pai e os irmãos durante três anos, no período crítico da Segunda Guerra. Quando ela acabou, meu pai ainda ficou na Europa por mais uns três anos. Ele se virou naquele tempo comprando e vendendo dólar, fazendo todo tipo de comércio para sobreviver. Só tinha o primeiro ano primário. Mas era um excelente comerciante. Podia vender qualquer coisa. Continuava gostando das cartas e isso o salvou.

Outra vez graças às cartas?

Miguel Krigsner – Ele chegou em La Paz em 1949, com curso primário, falando polonês e ídiche, trazendo uns 20 dólares no bolso e precisando se arrumar num país que vive até hoje de uma crise a outra. Imaginem o que era a Bolívia 55 anos atrás. Mas, sempre chegado num baralho, ele logo conheceu meu avô materno num clube israelita, que praticamente todos os sobreviventes que tinham fugido para a Bolívia freqüentavam. Era uma comunidade muito unida, a de La Paz. Richard, o pai de minha mãe, já vivia na Bolívia havia quase 10 anos. Ele era eletricista em La Paz. Conheceu meu pai numa mesa de jogo, gostou do jeito dele. Um belo domingo, Richard convidou meu pai para ir almoçar em sua casa. E aí meu pai conheceu minha mãe. Três meses depois eles se casam. Meu pai era um duro. Não tinha muito tempo para ficar namorando. Isso foi no dia 2 de abril de 1949. E eu nasci no dia 9 de janeiro de 1950.

Exatamente nove meses depois?

Miguel Krigsner – É. Isso, para mim, parece um privilégio. Acho que fui gerado na noite de núpcias ou na lua de mel, a época mais feliz do casal. Meu pai era uma pessoa traumatizada pela guerra. Carregou aquelas lembanças pela vida inteira. Até pouco antes dele morrer, certos dias acordava molhado de suor, com a impressão de que os nazistas estavam atrás dele.

O que trouxe a família para o Brasil?

Miguel Krigsner – A saúde complicada de minha mãe. Ela tinha problemas cardíacos e os médicos recomendaram que ela se mudasse de La Paz, por causa da altitude. E a imagem que guardo da minha mãe naqueles anos é ela sempre entrando e saindo de médicos. Viemos para cá porque uma de minhas tias, que é viva até hoje, tinha vindo para o Brasil. Ela morava em Curitiba. E meu pai trouxe a família para a cidade em 1960, não só para tirar minha mãe da altitude de La Paz, mas também porque na Bolívia havia uma revolução por mês… Bem, havia pelo menos três revoluções por ano. Eu me lembro, na minha infância, daqueles bolivianos descendo de vez em quando das minas de estanho para ocupar a capital. Meu pai, com trauma de guerra, acabou não agüentando mais essa rotina.

Qual sua primeira impressão do Brasil?

Miguel Krigsner – Não foi nada boa. Eu tinha 11 anos. Saímos de La Paz, desembarcamos em Corumbá e era preciso dormir ali, para continuar no dia seguinte a viagem a São Paulo. Achei que tinha caído no inferno, porque La Paz é fria e em Corumbá fazia um calor que eu nunca tinha sentido. Na primeira vez que ouvi as pessoas à minha volta falando português, pensei: “Nunca vou aprender isso”. Para quem está habituado ao potuguês, é mais fácil entender espanhol do que o contrário. Mas o fato é que chegamos ao Brasil e meu pai, com os poucos recursos que trouxe da Bolívia, conseguiu arrumar uma pequena loja na rua 15 de Novembro, em Curitiba.

Era uma farmácia?

Miguel Krigsner – Não. Ele vendia roupas. Um ano depois da mudança minha mãe morreu, aos 33 anos, de um câncer fulminante. Farmácia não estava nos planos de meu pai para mim. O maior sonho dele era que eu fosse médico. Para quem vinha da Europa naquela época, só havia duas profissões ou três profissões: médico, engenheiro e, talvez, advogado. No dia em que eu me formei em Farmácia, meu pai continuava insistindo que eu deveria continuar os estudos para fazer Medicina. Ele achava que, com o diploma da uma escola de Farmácia, eu passaria o resto da vida mandando dejetos humanos para exames de laboratório. “Você tem que ser médico”, ele me dizia.

Por que, então, fez Farmácia?

Miguel Krigsner – Porque não passei para Medicina. Quando a minha mãe morreu, eu tinha 12 anos. Dali até meus 20, tive uma adolescência tumultuada. Fui reprovado duas vezes no Colégio Estadual do Paraná, fui péssimo aluno. Escola para mim era um sofrimento. Meu pai não tinha controle sobre essas coisas. Eu o ajudava à tarde na loja. De manhã ia para a escola, quando não matava aula. Na hora em que ele pegava meus boletins, era uma desgraça.

Mesmo assim, ele insistia em levá-lo à Medicina?

Miguel Krigsner – Eu também insisti muito. Devo ter feito no mínimo uns 20 vestibulares para Medicina. Tinha um Opala naquela época. Pus minhas coisas no porta-malas do carro e saí pelo Brasil fazendo vestibulares. De Itajubá para baixo, entrava em todos os concursos. Mas não estudava. Já fazia as provas com a certeza de que não ia passar, até resolver que iria para São Paulo, morar com uma tia alemã, que tinha uma casinha minúscula no Brooklin, e me preparar para as provas no curso Objetivo. Mas isso não mudou nada. No primeiro semestre do Objetivo, arrumei uma namorada. Às dez da manhã ela ia me buscar. E assim continuei matando aula. A sorte é que minha tia era uma pessoa sábia. Uma dia, ela se sentou a meu lado no sofá onde eu dormia e falou: “ Miguel, vamos conversar. Você quer que a vida inteira digam que você é filho do seu Jacob?” Pedi-lhe um tempo para pensar. Umas duas ou três semanas num lugar calmo. E ela me respondeu: “Vamos fazer o seguinte, Miguel. Você está vendo aquele sofá ali na sala? Se quiser ficar um mês sentado lá, eu levo a comida. Mas você vai pensar é ali no sofá”.

Pensou?

Miguel Krigsner – Dali a quatro ou cinco dias, cheguei Objetivo, onde sempre tinha sentado lá no fundo, e passei para a primeira fila. Só de me sentar ali, fiquei o tipo de pessoa que faz ficha da matéria para o vestibular, forma grupo para estudar junto, coisas que eu nunca tinha feito. E de repente comecei a gostar daquilo. Quando voltei para Curitiba estava com 21 anos. Tinha perdido três anos anos na vagabundagem. Resolvi que na Federal ia fazer vestibular para Farmácia, na Católica e na Evangélica, Medicina. Claro que em Medicina não passei nem de longe. Mas em Farmácia fui aprovado. E decidi que assim seria.

Seu pai era rico?

Miguel Krigsner – Não. Mas nunca me faltou nada. Mesmo nas épocas mais difíceis da Bolívia, meu pai me matriculou na Escola Americana, que era gente de dinheiro. Ele fazia qualquer sacrifício para me manter na Escola Americana, tinha orgulho de dizer que o filho dele estudava lá. Quando comecei a trabalhar com ele na loja, ele não tinha o menor controle sobre o caixa. Era lojinha daquelas onde falar de nota fiscal era pecado. Eu ficava de tarde no caixa e me lembro de meu pai dizendo: “Olha, Miguel, você tem o caixa aberto, pegue quanto precisar pegue para suas necessidades”. Eu tinha um primo. O pai dele chegava no sábado, juntava os dois filhos, dava tantos cruzeiros para cada um. Eu ficava com uma inveja danada, porque eles recebiam mesada, e eu não.

Não se aproveitava de tamanha facilidade?

Miguel Krigsner – Claro que, nos primeiros tempos, eu pegava dinheiro sempre que queria comprar um disco. Mas aos poucos fui me convencendo de que, se tinha aquela liberdade toda, precisava aprender a cuidar de meu dinheiro. Pouco antes de meu pai morrer, quando ele estava no finzinho, perguntei a ele porque fez isso. Ele me disse que não queria que eu me sentisse um ladrão: “Eu queria que você aprendesse a ter autocontrole”. E foi o que aconteceu. Meu pai era uma pessoa meio primitiva, mas tinha valores que me nortearam muito em tudo que eu fiz na vida. Uma coisa que me marcou muito, foi numa dessas crises no Brasil, que nos deixou em grande dificuldade financeira. Num domingo, ele me acordou pela manhã para ir com ele à casa de um vizinho. Era um viúvo bem velhinho, dono de uma lojinha pequenininha. Meu pai pegou emprestados dez mil dólares com ele. E me falou: “Eu estou te trazendo para cá porque, se acontecer alguma coisa comigo, quero que você saiba que tem o compromisso de pagar dez mil dólares a esta pessoa aqui”.

Até aqui, suas lembranças parecem todas urbanas.

Miguel Krigsner – E são mesmo. É típico dos judeus serem urbanos. Acho que isso vem de não terem direito à terra na Europa. Até hoje, em Israel, quem compra um terreno para construir não compra propriamente a propriedade da terra, mas uma concessão de 100 anos para usá-la. Na verdade o primeiro contato que eu tive com a natureza foi na faculdade. Logo no primeiro ano do curso, ficou claro que eu não tinha a menor queda para a análise clínica. Em Farmácia, é assim: ou você embica para a indústriae vai fazer medicamentos, cosméticos, até alimentos, ou vai fazer exame de fezes e de urina, pelos métodos mais artesanais possíveis. E, de cara, sentindo que análise clínica não era pra mim, comecei a fazer um estágio que muito cedo me pôs em contato com o agrônomo José Lutzemberger. Ele lidava com Química e encabeçava em Porto Alegre um movimento pioneiro de defesa do meio ambiente. Era um grande agitador, desses que agem como se o planeta fosse acabar em 90 dias. Fui a duas ou três palestras dele em Curitiba e, dali para a frente, onde tinha Lutzemberger, eu ia atrás, para ouvi-lo. Foi assim que comecei a me interessar pelo assunto.

Que não tinha nada a ver com seu currículo.

Miguel Krigsner – Nada. Quase não havia na época informação disponível sobre conservação da natureza. No Brasil estava começando a surgir uma certa consciência ambiental, como uma moda que vinha de fora, de países desenvolvidos que já tinham acabado com suas florestas e agora estavam preocupados com elas. Mas aqui, quando se olhava em volta, tudo ainda parecia muito verde e ninguém considerava necessário preservá-lo. Pelo menos era esta a sensação que eu tinha naquele tempo, até Lutzemberger aparecer na minha frente. Ele era uma pessoa que passei a admirar pela luta em que estava metido e também por ser muito criticado. Era considerado radical demais, xiita mesmo, mas de alguma forma pôs na minha cabeça essa preocupação.

Conhecia reservas naturais como o parque de Iguaçu?

Miguel Krigsner – Conhecia. Tinha visitado como turista. Mas não foi isso que fez minha cabeça. Nesses lugares, nem passava por ela idéia de que estivéssemos acabando com a floresta atlântica ou coisas do gênero. Acabei me familiarizando elementarmente com o problema graças a Lutzemberger. Mais tarde, numa das primeiras viagens que fiz ao exterior como dono do Boticário, que ainda era uma pequena farmácia de manipulação, fui Nuremberg, visitar uma fábrica de frascos. Ali, caminhei durante horas, encantando, dentro de um bosque de pinheiros, até perceber que não se ouvia nenhum pássaro. Era exatamente como aquele livro de Rachel Carson que Lutzemberger vivia citando, A Primavera Silenciosa. Aquela floresta era verde, mas era muda. E tinha sido toda replantada. As árvores ficavam todas em fila, como no exército. Estavam prontas para o corte. Em Nuremberg percebi como as florestas nativas aqui no Paraná eram diferentes.

Quando resolveu investir em conservação?

Miguel Krigsner – Com o andar da carruagem, à medida que a empresa ia crescendo, passou a ficar cada vez mais clara para mim a conexão entre os produtos que fabricávamos e o meio ambiente. Estava começando a moda dos produtos naturais. E nossos produtos usavam essencias naturais. Aos 10 anos, O Boticário tinha cerca de mil lojas espalhadas pelo Brasil. E sempre que nos instalávamos numa nova cidade, sempre que participávamos de algum congresso, sempre que íamos a algum acontecimento público, aparecia alguém falando em patrocínio para algum projeto ligado ao meio ambiente. Era como se nos dissessem: “Interessante, não é? Vocês estão usando extratos vegetais? Como vêem então a destruição da Mata Atlântica?” Essas perguntas começaram a mexer comigo. Decidi que precisávamos fazer alguma coisa. Chamei Elói Zanetti, que era nosso diretor de Comunicação, e disse para ele: “Sabe, Elói, essa conversa de meio ambiente? É uma bandeira importante. Vamos trabalhar com ela”.

Seguiu o exemplo de outras empresas?

Miguel Krigsner – Não, porque não havia a quem imitar. No Brasil, acho que nenhuma empresa que estava muito preocupada com o meio ambiente. Se estava, eu não sabia. Estou falando de 1987. Pedi a Zenetti para inventar alguma forma fazer alguma coisa pelo meio ambiente que não fosse marqueteira. Minha idéia era trazer para o Brasil uma experiência que eu tinha visto em Israel, onde as pessoas, em ocasiões importantes, dão de presente certificados de que plantaram árvores. Lá quem cuida disso é a KKL, uma organização judaica que é proprietária de todas as terras de Israel e desde a fundação do país tem um programa para reflorestar o deserto. E do mundo inteiro vêm certificados de plantio de árvores, como presentes de casamento, de aniversário, de tudo. Ao dar um papel desses, certifico que comprei dez ou quinze árvores, plantadas em nome de alguém.

De onde tirou a fórmula?

Miguel Krigsner – De uma viagem que fiz a Israel em 1972, quando ainda estava na faculdade. Eu não conhecia Israel e lá me chamou muito a atenção o fato de estar andando no meio do deserto e, de repente, quase sem me dar conta, entrar em grandes plantações de tomate, em pomares carregados de frutas, em florestas fechadas. Quinze anos depois, quando tratei com Zanetti da idéia de termos na empresa um projeto ambiental, pensei que bastaria chamar um engenheiro florestal. Tudo o eu queria era fazer uma campanha como aquela no Brasil. Zanetti foi procurar e encontrou Miguel Milano. E pediu-lhe para ele vir conversar conosco no Boticário. E o resto vocês sabem

O Instituto já estava nos seus planos?

Miguel Krigsner – Não. Ainda estávamos muito longe. O que eu disse na ocasião a Milano é que pretendíamos dar um certificado a qualquer pessoa que comprasse um produto acima de tantos reais, garantindo que, em nome dela, a empresa se comprometia a plantar uma árvore nas áreas mais devastadas do Brasil. Milano quis saber quanto vendíamos por mês. Declarei qualquer coisa em torno de 500 ou 600 mil ítens. Ele olhou bem para mim e perguntou: “Você já plantou uma árvore?”. Não, eu nunca tinha plantado uma árvore. Ele insistiu: “Você se dá conta do que seja plantar de 500 a 600 mil árvores por ano?” Sinceramente, eu não fazia a menor idéia. Ele começou a me explicar toda a complexidade da operação e eu vi que meu projeto era maluco. Para começar, eu nem tinha terra para botar tanta árvore.

Por que consultou um engenheiro florestal e não um marqueteiro?

Miguel Krigsner – Francamente, por achar que a questão é séria demais para ser tratada como problema de marketing. No máximo, estava misturada na primeira idéia uma coisa de judeu, de mostrar que poderia funcionar no Brasil um programa trazido de Israel. Fazer aqui uma coisa que valorizasse o povo judeu, que nunca foi fazendeiro, mas conseguiu plantar no deserto. Mas Milano me convenceu de que isso nunca daria certo. E eu desisti.

Desistiu das árvores, mas não do meio ambiente?

Miguel Krigsner – Uma idéia saiu de dentro da outra. Em princípio, eu tinha imaginado uma campanha institucional, algo que a empresa faria em certas épocas do ano. Na primavera, por exemplo. Milano veio aqui, inviabilizou em três minutos a idéia que tinha passado tanto tempo guardando e disse que, se queríamos mesmo trabalhar a sério com o meio ambiente, era melhor criar uma fundação. A princípio, achei aquilo estranho: como assim, uma fundação? Ele garantiu que tinha contato com pessoas de renome e poderia indicá-las para integrar um conselho que fosse uma garantia de seriedade para qualquer projeto nessa área. E foi logo me falando da Maria Tereza Pádua, do almirante Ibsen Gusmão Câmara…

Foi fácil abrir mão de seu projeto para bancar o dos outros?

Miguel Krigsner – Gostei da história da fundação. Era uma forma de entrarmos com o pé direito em conservação, porque aqui na empresa nem eu nem ninguém entendíamos do assunto. Poderíamos fazer um trabalho totalmente independente da empresa. O Boticário repassaria para a fundação os recursos e ela cuidaria dos programas. Tudo isso tinha a vantagem de permitir que o instituto nascesse blindado contra qualquer suspeita de que estava a serviço da empresa. Evitava que os próprios conselheiros suspeitassem de nossas intenções, desconfiassem que “lá vem este empresário botar a causa ambiental a serviço de seus interesses comerciais”.

Tinha medo de não ser levado a sério?

Miguel Krigsner – E com razão, porque era um momento em que o ambientalismo começava a entrar moda. Ficava charmoso ter uma fundação fazendo alguma coisa ligada ao meio ambiente. Eu tinha que tomar cuidado para não escorregar nessas tentações. E queria provar que estava falando sério. No princípio, eu me sentava com os conselheiros e eu tinha muita vergonha de mostrar que não entendia coisíssima nenhuma de meio ambiente. Via o almirante me olhando desconfiado do outro lado da mesa e ficava com medoo de dizer besteira, mexer em suscetibilidades Mas, com o tempo, fui tratando de aprender um pouco. Ainda me considero um leigo, mas em compensação a fundação é tão consistente que isso deixou de ser importante. Tomei tanto cuidado para não misturar as coisas que, curiosamente, partiu dos próprios conselheiros, anos depois, a pergunta sobre o que a empresa iria fazer, quando a Natura começou a usar o meio em sua propaganda.

Ninguém, na empresa, se opôs a envolver a marca com o meio ambiente?

Miguel Krigsner – O diretor-financeiro da época estranhou, sim: “Miguel, logo fundação?” Ele tinha feito carreira no governo e me disse para não entrar nessa: “Fundação é uma encrenca, porque você tem que dar satisfação de tudo que está fazendo, o que você gastar terá de comprovar”. Eu respondi que bastava fazer tudo da maneira mais séria possível. E, se fizéssemos um projeto qualquer, certamente ele não teria o peso que uma fundação tem. Acho que assustamos também pelos nossos franqueados. Na hora em que começaram a pipocar notícias sobre o Boticário, alguns franqueados perguntavam por que tínhamos enfiado uma marca de cosmético em brigas políticas. Eles temiam que a isso prejudicasse nossa imagem. Vocês sabem, quando se entra numa briga dessas, nunca se sabe quando vai sair.

O dinheiro gasto com a fundação, nunca fez falta?

Miguel Krigsner – Não, porque ela começou a fazer parte do orçamento. Com certeza, num ou outro momento bem que se poderia desviar os recursos para a compra de um equipamento mais sofisticado, por exemplo. Mas nunca veio ao caso. Partimos de um compromisso de 100 mil dólares por ano.

Nunca se arrependeu da decisão?

Miguel Krigsner – Só uma vez. E durou pouco. Foi quando passamos por uma época muito difícil. De repente vi que a empresa estava metida em encrencas que nunca teriam aparecido em nossa frente se não tivéssemos um programa ambiental. A defesa do meio ambiente sempre acaba contrariando grande interesses. Aí, onfesso que cheguei a pensar como é que eu tinha me metido nesse negócio. Mas, imediatemente, concluí que, se estávamos provocando aquele barulho todo, era porque estávamos incomodando as pessoas certas. E só por isso já valia a pena manter a fundação.

As brigas prejudicaram as vendas?

Miguel Krigsner – Não, nunca. Ninguém de comprar um produto Boticário por causa delas. A notoriedade podia não ajudar nem prejudicar as vendas, mas no fundo eu passei a achar muito bom que aquelas coisas estivessem acontecendo com O Boticário. Era um modo de abri-la para outras dimensões além de sua atividade principal. Existem outras coisas na vida fora o dinheiro. Ser apenas empresário e fabricante de cosméticos, ter uma marca bonita, ter prestígio na classe, ter uma conta bancária interessante todo mundo quer, tudo isso é muito bom, mas não basta. Chega sempre aquele ponto em que a pessoa acorda pensando: sou um empresário bem sucedido e agora o que vou fazer?

Ter ao lado uma fundação mudou seus hábitos pessoais?

Miguel Krigsner – Ah, acho que ela mexeu muito com meus hábitos de consumo. Dá para conviver com 20 camisas, talvez com 10 calças e 15 gravatas, mas ninguém precisa de mais do que isso, por mais elegante que queira ser. Estou convencido de que o consumismo exacerbado, com ter 50 camisas no guarda-roupa, é um fator de destruição do meio ambiente.

E com os hábitos da empresa, ela mexeu?

Miguel Krigsner – Dentro da empresa existe hoje uma consciência cada vez maior em relação ao desperdício. Usamos papel reciclado. Aliás, usamos os dois lados de cada folha de papel reciclado. Fazemos cadernos de papel reciclado. Reaproveitamos melhor as embalagens. Temos um programa de fabricação de brinquedos com material reciclado. Isso é sinal de que as coisas mudaram também aqui dentro.

A indústria de cosméticos polui?

Miguel Krigsner – Ela não é das mais poluidoras. Mas tempos problemas, sim. Nossos processos de fabricação não exalam grandes poluentes. Mas temos o problema da água utilizada para a lavagem dos tanques de mistura. Nossa água é tratada antes de voltar à rede pública. A qualidade de água que captamos da rede é inferior à da água que devolvemos. Mas até hoje em nosso ramo usa-se pouca coisa é reciclável. Não podemos embalar xampu em frasco de vidro, por exemplo. O vidro é reciclável, mas tem problemas de segurança. Estamos sempre procurando materiais para substituir o plástico por soluções menos agressivas, atá nas tampas dos frascos, mas nem sempre dá certo. Não usamos mais sacolas plásticas, por exemplo. Nossas embalagem para presente já são feitas com material reciclável. Mas confesso que ainda estamos longe do nível desejável. Seria hipocrisia dizer que os produtos químicos usados na cosmética são neutros para a natureza. Usamos conservantes. Não se pode fazer um produto químico sem o conservante, senão daqui a três dias ele acabou. Neste momento, estou pensando em implantar na empresa um programa para trazer de volta as embalagens, os vidros, os plásticos, tudo o que sobra de nossos produtos. Para isso é preciso convencer as pessoas a devolverem esses restos. Talvez um concurso, sorteando premios para quem devolver nas lojas os frascos usados, as caixas vazias…

Há lugares que não teria conhecido se não existisse a fundação?

Miguel Krigsner – Sem dúvida. Os rios de Bonito, por exemplo.

  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

  • Maria Tereza Jorge Pádua

    Engenheira agrônoma, membro do Conselho da Associação O Eco, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Nat...

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