Um projeto de pesquisa da Unisinos, monitorado por professores e com estudantes dos cursos de graduação, descobriu 40 espécies de planárias (um tipo de verme cujo corpo é achatado) na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, no interior do Rio Grande do Sul. A estrela da safra é uma batizada de Supramontana irritata (foto).
Pouca gente dá bola ou sequer sabe o que são planárias, mas como tudo no reino animal elas são ótimos indicadores ambientais. São três seus grupos principais: terrestres, marinhos e de água doce. Há, ainda, um outro grupo que vive em cavernas.
As planárias terrestres são abundantes especialmente em florestas tropicais e subtropicais, mas algumas espécies podem viver também em ambientes alterados pelo homem, tais como jardins. Esses animais buscam refúgios úmidos e com pouca luminosidade, como troncos e galhos caídos. As planárias aquáticas vivem sobre o fundo de córregos ou lagoas e em ambientes costeiros – em mares ou oceanos.
As planárias são carnívoras, alimentando-se de outros invertebrados como larvas de insetos, tatuzinhos-de-jardim, caracóis e minhocas. Assim, são consideradas predadores do topo da cadeia alimentar. Como outros predadores, desempenham o papel de controlar as populações dos animais dos quais se alimentam.
As planárias podem ser utilizadas como indicadoras das características do ambiente onde vivem. Assim, comparando as comunidades de planárias de ambientes com distintos graus de impacto antrópico (por exemplo, florestas primárias, florestas secundárias, áreas de reflorestamento), pode-se inferir o grau de preservação do ambiente.
As planárias são invertebrados considerados relativamente primitivos, representando um dos primeiros grupos de animais a apresentarem tecidos diferenciados e um sistema nervoso bem desenvolvido. Possuem uma grande capacidade de regeneração: cortando-se o corpo de uma planária em pequenos pedaços, tem-se a partir de cada pedaço a formação de um animal completo. Na natureza, essa grande capacidade de regeneração é utilizada para recompor partes do corpo perdidas por acidente e também é usada como uma forma de reprodução. Para a ciência, a capacidade de regeneração das planárias é um dos principais motivos para estudar esses animais.
A Floresta Nacional de São Francisco foi o primeiro local escolhido pela Unisinos para os trabalhos relativos à ecologia de planárias terrestres. Era o local ideal porque possui áreas nativas e de reflorestamento. Deu certo: foram encontradas 40 espécies, sendo que mais de 30 delas novas para a ciência.
Os resultados do estudo têm ampliado conhecimento sobre a biodiversidade brasileira em florestas subtropicais. Até o momento foram descritas seis novas espécies (Geoplana franciscana, Geoplana josefi, Notogynaphallia guaiana, Notogynaphallia ceciliae, Cephaloflexa araucariana e Supramontana irritata).
* Ana Zanchet é professora na Unisinos, doutora em Zoologia pela Universidade de Tuebingen (Alemanha) e pós-doutorada na Universidade de São Paulo. Ela coordena a pesquisa das planárias.
Leia também
Estudo alerta para riscos sanitários da BR-319 e da mineração de potássio no Amazonas
Pesquisadores apontam que obras de infraestrutura e mineração podem mobilizar microrganismos com potencial patogênico, ampliando riscos ambientais e de saúde pública na Amazônia Central →
Fórum do Mar Patagônico cobra protagonismo regional na implementação do tratado do alto-mar
Coalizão de ONGs do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile destaca a entrada em vigor do acordo e defende liderança regional para proteger áreas-chave do alto-mar e a biodiversidade marinha →
Bom senso e planejamento não são opcionais no montanhismo
O caso recente do rapaz que se perdeu no Pico do Paraná ilustra uma era onde “chegar ao topo” atropela o respeito pelo caminho – e pela montanha →


