Reportagens

Nobres vermes

No Rio Grande do Sul, pesquisadores divulgam a descoberta de um tipo de verme que habita lugares úmidos e escuros do estado.Há várias novas espécies por lá.

Ana Zanchet ·
25 de maio de 2005 · 21 anos atrás

Um projeto de pesquisa da Unisinos, monitorado por professores e com estudantes dos cursos de graduação, descobriu 40 espécies de planárias (um tipo de verme cujo corpo é achatado) na Floresta Nacional de São Francisco de Paula, no interior do Rio Grande do Sul. A estrela da safra é uma batizada de Supramontana irritata (foto).

Pouca gente dá bola ou sequer sabe o que são planárias, mas como tudo no reino animal elas são ótimos indicadores ambientais. São três seus grupos principais: terrestres, marinhos e de água doce. Há, ainda, um outro grupo que vive em cavernas.

As planárias terrestres são abundantes especialmente em florestas tropicais e subtropicais, mas algumas espécies podem viver também em ambientes alterados pelo homem, tais como jardins. Esses animais buscam refúgios úmidos e com pouca luminosidade, como troncos e galhos caídos. As planárias aquáticas vivem sobre o fundo de córregos ou lagoas e em ambientes costeiros – em mares ou oceanos.

As planárias são carnívoras, alimentando-se de outros invertebrados como larvas de insetos, tatuzinhos-de-jardim, caracóis e minhocas. Assim, são consideradas predadores do topo da cadeia alimentar. Como outros predadores, desempenham o papel de controlar as populações dos animais dos quais se alimentam.

As planárias podem ser utilizadas como indicadoras das características do ambiente onde vivem. Assim, comparando as comunidades de planárias de ambientes com distintos graus de impacto antrópico (por exemplo, florestas primárias, florestas secundárias, áreas de reflorestamento), pode-se inferir o grau de preservação do ambiente.

As planárias são invertebrados considerados relativamente primitivos, representando um dos primeiros grupos de animais a apresentarem tecidos diferenciados e um sistema nervoso bem desenvolvido. Possuem uma grande capacidade de regeneração: cortando-se o corpo de uma planária em pequenos pedaços, tem-se a partir de cada pedaço a formação de um animal completo.

Na natureza, essa grande capacidade de regeneração é utilizada para recompor partes do corpo perdidas por acidente e também é usada como uma forma de reprodução. Para a ciência, a capacidade de regeneração das planárias é um dos principais motivos para estudar esses animais.

A Floresta Nacional de São Francisco foi o primeiro local escolhido pela Unisinos para os trabalhos relativos à ecologia de planárias terrestres. Era o local ideal porque possui áreas nativas e de reflorestamento. Deu certo: foram encontradas 40 espécies, sendo que mais de 30 delas novas para a ciência.

Os resultados do estudo têm ampliado conhecimento sobre a biodiversidade brasileira em florestas subtropicais. Até o momento foram descritas seis novas espécies (Geoplana franciscana, Geoplana josefi, Notogynaphallia guaiana, Notogynaphallia ceciliae, Cephaloflexa araucariana e Supramontana irritata).

* Ana Zanchet é professora na Unisinos, doutora em Zoologia pela Universidade de Tuebingen (Alemanha) e pós-doutorada na Universidade de São Paulo. Ela coordena a pesquisa das planárias.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
17 de setembro de 2026

A palavra que derruba a floresta

Na Amazônia, o discurso político pode estimular o desmatamento mesmo quando não há mudanças formais na legislação ou na fiscalização

Salada Verde
17 de setembro de 2026

Justiça suspende licenças e paralisa obras do complexo Maraey, em Maricá

Decisão atende a pedido do Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente do MP do Estado do Rio de Janeiro e aponta risco de danos irreversíveis à fauna e à flora da área protegida

Pecuária Sustentável do Pará flerta com fracasso após adiar prazo para 2030. Ilustração: Renata Costa
Reportagens
17 de setembro de 2026

Pará’s Pecuária Sustentável program flirts with failure after deadline pushed back to 2030

A first in the country, the program proposing individual social and environmental monitoring of cattle has produced modest results and raised doubts about its viability.

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.